5. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
5.4 Crescimento profissional na empresa atual
5.4.4 O papel desempenhado pelos aprendizes e pelos profissionais experientes
5.4.4.1 O papel e as posturas dos aprendizes
Os aprendizes têm claro quais são as posturas que devem ser adotadas por eles para que suas aprendizagens se concretizem e para que o caminho aos seguintes postos nas funções operacionais possam ser alcançados.
Para o participante AJ-1:
Tem, tem alguns fatores que pode contribuir sim, porque... Assim, eu procuro, eu procuro sempre chegar na hora, eu procuro sempre ajudar o cara que tá do lado precisando, procuro sempre manter a minha máquina limpa. Evitar ao máximo de fazer algum tipo de erro, que alguma outra empresa receba os nossos trabalhos possa reclamar mais tarde... Eu evito no máximo isso. Até assim... Evitar brincadeira, evito conversar também muito na firma, pra tentar mostrar um pouco de trabalho. Pra procurar me... Hum, assim, mostrar algo diferente.
É possível perceber na fala de AJ-1 que fatores como cumprimento de horário, a manutenção da limpeza do maquinário, a preocupação com a qualidade do produto produzido, a disponibilidade para ajudar aos demais, a concentração, o foco, dentre outros. Para ele estes fatores contribuem para o reconhecimento de seu trabalho e conseqüentemente para o seu crescimento funcional. Ele acrescenta que:
Porque às vezes tem operador lá: “-Ah, eu vou tomar água. Vou no banheiro. Vou
conversar um pouco.” Então é alguns tipos de coisa que eu procuro não fazer, pra
ver se alguém, algum encarregado... Consiga enxergar isso, consiga ver isso: “-Ah, o
cara tá na máquina dele, ele tá esforçado, ele tá fazendo as medidas dele. Em vez, em vez de ele estar conversando, ele tá limpando a máquina dele, ele tá mantendo limpa.”
Então eu acho que é uma das coisas que, positivas que eu procuro fazer, pra que,
daqui um tempo alguém reconheça e possa: “-Ah, o cara merece uma promoção.
Vou dar uma promoção pra ele e vamo ver o que acontece.” (AJ-1)
Para o participante AJ-2, o importante é:
Acho que querer fazer as coisas. Eu sou curioso assim, às vezes, eu sei que tem uma coisa aqui que eu tô, no setor aqui, tem uma pessoa que tá fazendo algo na máquina do meu lado que eu nunca fiz e eu posso ir lá ver como é que é. Essa pessoa, que geralmente é uma pessoa mais capacitada, ou seja, essa coisa é mais difícil. Então aqui geralmente todas as pessoas têm boa vontade de ensinar sim. Se eu tô lá, eu vou perguntar: “-E isso aqui, com é que é feito isso aqui?” E tal, que ele vai fazendo, às vezes se eu posso acompanhar ele, eu vou acompanhar. E isso eu acho que vai me ajudando a crescer. E eu tô fazendo um determinado produto, você tá fazendo um outro mais difícil, pra se um dia eu tiver que fazer aquilo, eu já sei desenvolver mais ou menos aquilo.
Pra quando essa pessoa vim me ensinar alguma coisa assim, eu já tenho uma noção mais ou menos de como que é. Eu acho que com isso, eu acho que faz eu crescer, ir crescendo, ter mais conhecimento.
A questão da curiosidade e do acompanhamento dos trabalhos realizados pelos profissionais mais experientes, como forma de antecipar e facilitar as aprendizagens futuras, fica evidente na fala do participante AJ-2. Para ele, a possibilidade de aprender novas atividades de maneira mais rápida está diretamente relacionada aos fatores por ele apontados.
O fato de obedecer a ordens, o trabalho em equipe, a constante ajuda aos demais, são fatores que contribuem para o crescimento profissional, segundo o participante AJ-3:
Eu acho assim, eu acho que a primeira coisa você tem que obedecer ordens, o encarregado. E depois você tem que aprender a trabalhar em equipe... Eu acho assim, que eu tenho como crescer por esse lado mesmo, entendeu? Eu não sou um cara assim que nego nada pra ninguém. Eu não sei mais do que ninguém também. Só que sempre quando precisa de ajuda, eu vou lá pra ajudar, quando o CHEFT1 pede pra mim fazer alguma coisa numa outra máquina, eu vou lá fazer. Porque mesmo antes de eu ser operador, quando eu era ajudante ainda, só que já operando máquina, mesmo antes ele ainda pedia até pra mim ajudar, por exemplo, um operador a ajustar uma cor, entendeu? Que o cara tava com dificuldade, ele chegava e pedia pra mim ir lá pra ajudar.. Eu acho que é assim que, que eu tenho como crescer dentro da empresa, sabe? Ajudando as outras pessoas, que as vez têm mais dificuldade.
A aceitação da realidade vivida, a dedicação, o trabalho correto, a paciência, a constante ajuda aos demais, a positividade, a facilidade de relacionamento, a abertura para
mudanças e o foco no crescimento dentro da profissão, são os principais fatores apontados pelo participante OP-3 como propulsores do desenvolvimento profissional:
Ah, eu vejo muito. Assim, igual eu falei pra você. Cada caso é um caso, a pessoa tem que aceitar o que você é. No meu caso eu aceitei o que eu sou na minha vida, porque acredito que estudar, não vou estudar mais. Me formar assim, acho que não vou ter mais formação assim de, pra ser um doutor. Então, na minha empresa, alguma coisa assim, então eu acredito que eu abandonei essa parte mesmo da minha vida. Mas assim, já que eu escolhi essa profissão, se você se dedicar, você pode chegar até a um, sei lá, um encarregado geral da fábrica, depende do seu desenvolvimento. Tem crescimento, muito crescimento.
O trabalhar corretamente, a paciência, o ajudar ao próximo e a luta, segundo OP-3:
O importante é você ter... Eu acho assim, tem que estar sempre trabalhando corretamente assim, sempre estar sendo paciente também, trabalhando certinho, saber ajudar as pessoas, saber fazer o seu serviço correto. Mas ajudar o próximo também, que às vezes eu, eu preciso de uma pessoa e ela também precisa de mim. Então eu tenho que fazer por ele e ele fazer por mim também.
O esperar as oportunidades, o dedicar-se, o esforçar-se, segundo OP-3:
E sei lá, e também esperar aparecer as oportunidades também. Porque a gente não pode também passar por cima das pessoas. No caso, hoje eu sou operador, amanhã eu não posso querer ser, derrubar o encarregado e entrar no lugar dele. Tem que esperar também a, ter a paciência também de aparecer também essa oportunidade. Tem que sempre lutar.
A gente tem que, além de você se dedicar, se esforçar, tem que aguardar uma oportunidade.
A importância da convivência, da colaboração na criação de um ambiente agradável e a aceitação das diferenças das demais pessoas aparecem também na fala do participante OP-3 como diferenciais e aspectos importantes no processo de crescimento.
Só que acontece o seguinte, também você tem que também ter assim, você não pode ser uma pessoa assim, digamos que eu seja um trabalhador bom, um operador bom, mas eu não posso ser fechado... Tipo assim: “-Ah, ninguém gosta de mim.” Tem muita gente aqui na fábrica que é assim. Que o cara é operador, o cara é bom, não tem defeitos, mas não gostam do cara, porque o cara só anda de cara fechada ou, sei lá, não conversa com quase ninguém. Ou mesmo, é ruim de passar serviço pras pessoas. Então eu acho que esse, o encarregado também vê isso. E as pessoas também, que vai dar oportunidade, vê isso também. Então você tem que estar aberto pra tudo. Tem que ser bom em tudo e estar aberto pra tudo assim, disponível pra tudo. Nunca ficar discriminando as pessoas, fazer cara feia pra uma, fazer cara feia pra outra, aí você não consegue crescer também. Tem que trabalhar sempre o positivo, se trabalhar com os pontos negativo, eu acho que não... Não funciona...
Para o participante OPT1-2, a ajuda dos demais e a força de vontade de cada profissional são determinantes para o desenvolvimento:
[...] É muita ajuda também dos outros. Mas muita, acho que força de vontade, porque no começo foi difícil. Eu não sei porque, acho que, o “Cilcano” falou pra mim, falou assim: “Ah! [OPT1-2], não sei, tá difícil lá hein. O pessoal não tá
gostando muito de você e tal.” Me deu um puxão de orelhas, falou assim: “-Você tem que se esforçar mais, tem que correr atrás mais.” Aí eu fui me esforçando, tal
me dedicando, tal.
A dedicação, o foco e a busca pelo aperfeiçoamento profissional, são para o participante OPT2-1 os principais fatores que podem contribuir para o seu crescimento dentro da profissão:
Eu, por exemplo, venho assim, fazendo o melhor de mim, vou buscar cursar alguma coisa nesse meio termo aí também. Até fiz inscrição em algumas coisas aí, vamos ver se vai dar certo. E tentar crescer nesse ramo aí, que eu acho que é um ramo que tem muito a crescer. E com isso, com o tempo que o cara vai trabalhando, vai aprendendo, vai de operador, já vai, passa pra um outro nível de operador e o cara tá indo, crescendo. Futuramente o cara aí, com um curso bom aí, o cara vira gerente de fábrica, no futuro. Não pode ser aqui, pode ser em outra firma, entendeu? E buscar esse objetivo.
Para o participante MESTRE, a paciência é fundamental no processo de aprendizagem e no desenvolvimento:
Eu, eu tive paciência de esperar, entendeu? Que muita gente não tem essa paciência. Eu não, eu trabalhei no moinho, fiquei um ano e pouco no moinho, nunca fiquei cobrando assim, o encarregado de turno: “-Ah, eu não quero trabalhar aqui, eu
quero ir pra outro setor.” Eu fui com o tempo, fui conquistando a pessoa, até que
conseguiram me tirar dali. Porque depois de ajudante, a mesma coisa, eu fiquei ajudante, até que quando eu penso que não, me chamaram, falaram: “-Não, hoje
você tá apto pra ser um operador. Você vai, a partir de hoje você passou a ser operador.” Você entendeu?
Para o participante MESTRE, a vontade, o interesse e a busca pelo “progresso” na atividade são fatores essenciais, sem os quais o desenvolvimento funcional não se tornaria possível:
Ah, eu acho que tudo acontece se você quer, Sérgio. Se a pessoa tem vontade e tem interesse, você consegue as coisas. Porque você também não pode parar e esperar que venha de mão beijada pra você. Você tem sempre que estar procurando progredir, você progredindo é aonde você vai crescendo, aí você vai vendo a... Que o pessoal vai vendo que você tem a capacidade pra isso, entendeu?
Os processos de aprendizagem e conseqüentemente o desenvolvimento dos operários no setor pesquisado estão alicerçados em uma base sólida, a qual une uma constante observação e orientação dos operários em seu processo de crescimento na hierarquia
funcional da empresa e uma constante troca de informação e preparação de habilidades necessárias para novas funções a serem desempenhadas no futuro.
As aprendizagens ocorrem a partir da interação dos profissionais com os seus pares, seus superiores, com os processos envolvidos nas rotinas diárias e com as estratégias de formação adotadas pela empresa. As estratégias de formação, conforme descrito na seção 4.1, obedecem a uma seqüência e uma lógica que conduzem o operário a um processo de aprendizagem que inicia desde seu ingresso na empresa e o acompanha constantemente ao longo de sua jornada profissional.
O operário se torna, em grande parte, responsável pelo seu processo de aprendizagem, a ele cabe a atitude e o interesse no envolvimento em novas situações as quais poderão garantir-lhe o sucesso das atividades diárias de trabalho e no desenvolvimento funcional. Esta responsabilidade remete aos fundamentos da Andragogia proposta por Knowles (1980), ao aprendiz cabe um processo de maturação no sentido de buscar a sua auto-direção, de buscar aprendizagens e atitudes que propiciem, além do seu próprio desenvolvimento, também o crescimento de seus companheiros de trabalho. A prontidão para a aprendizagem também é uma característica apontada pelo autor como fundamental para que os progressos dentro da função sejam atingidos, pois, conforme visto nos depoimentos inseridos nesta seção, a informação não chega aos indivíduos sem que eles a procurem, sem que eles se nutram do desejo pela aprendizagem e conseqüentemente pelo crescimento na organização.
As relações descritas nas falas utilizadas nesta seção também apontam para as características que Knowles (1980) descreve como sendo cruciais para que as aprendizagens possam ocorrer. Para ele o auto-conceito do indivíduo segue um movimento que vai de uma personalidade dependente para uma auto-direção e auto-desenvolvimento, de um acúmulo de experiências como um importante recurso para as aprendizagens futuras. Também a prontidão orientada fundamentalmente por meio das atividades e tarefas desempenhadas em seus papéis sociais e a uma atitude que visa à aplicabilidade dos conceitos aprendidos. Estas características estão presentes e permeam as falas dos participantes em suas constantes preocupações com o comportar-se de forma proativa, em buscar na colaboração e na troca a informação necessária para o seu aprendizado, na prontidão, na curiosidade, na paciência, na leitura do ambiente e no foco constante no aperfeiçoamento de suas atividades.
A importância e centralidade do papel da experiência também são constantes nas falas dos participantes. O valor das experiências vividas e a maneira como os indivíduos acessam e transformam as informações acumuladas ao longo de suas aprendizagens remetem ao ciclo de
aprendizagem experiencial proposto por Kolb (1984), pois o concreto, vivido é transformado em reflexões e conceitos, os quais serão experimentados e re-experimentados e novas experiências concretas e em novos desenvolvimentos.
Também, a partir da análise dos relatos, é possível perceber que os conhecimentos e o saber são compartilhados por meio dos fatos, das regras e dos procedimentos que são adotados e aplicados no dia-a-dia da atividade fabril. Os profissionais mais experientes comunicam e demonstram a aplicação das regras e dos procedimentos em suas atividades de trabalho aos seus aprendizes, o que caracteriza a definição de treinamento técnico adotada por Schön (2007). Contudo a capacitação dos operários não se restringe ao treinamento técnico, quando o mais experiente solicita ao aprendiz que execute as tarefas ensinadas, seu pedido tem relação com a oportunidade de demonstrar as aprendizagens acumuladas, ele está dando a oportunidade de que seu “pupilo” passe a pensar como um operador experiente, que acesse todas as informações e experiências anteriores e demonstre seu desenvolvimento, suas aprendizagens. O operador mais experiente está possibilitando ao aprendiz aquilo que Schön (2007) denomina como a capacidade de “pensar como um...”.
O “pensar como um...” operador surge nos momentos nos quais os operários são expostos a situações práticas, em momentos quando seus conhecimentos e experiências acumuladas precisam ser acessados para que o trabalho seja realizado.