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As vias do pensamento complexo: entre a dialogia e a recursividade

Conforme verificamos, “o pensamento complexo é, essencialmente, o pensamento que integra a incerteza e que é capaz de conceber a organização. Que é capaz de unir, contextualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo reconhecer o singular e o concreto” (MORIN, 1996, p. 14). É um pensamento que desafia a extensão do olhar para toda a trama das situações, concebendo suas incertezas e conduzindo a uma organização.

Os seres humanos são dotados da capacidade de pensar. Contudo, “o pensar complexo exige um esforço de exercício permanente para saber pensar, saber ser, saber agir e saber pensar o próprio pensamento” (MARTINAZZO, 2004, p. 26). Parece, por hora, dramática ou prepotente tal colocação. O fato é que muitos estudos declaram que se faz uso limitado das faculdades mentais. O pensamento complexo não comprova tal informação científica, mas apresenta indicadores de que possivelmente desfruta-se, de forma limitada, das capacidades intelectuais. Algumas circunstâncias podem justificar essa questão: a cultura e a forma como os sujeitos foram educados. Esta última é um dos focos da discussão em se tratando do trabalho da supervisão escolar, no sentido de que,

a possibilidade e a dificuldade de pensar de forma complexa, de compreender o complexo, ou seja, “o que está tecido junto” estão diretamente relacionadas com o modelo de educação a que fomos submetidos desde nossa infância, cujo pensamento disciplinar e compartimentado disjuntou e fragmentou a realidade a ser compreendida (MARTINAZZO, 2004, p. 47).

Esse pensamento disciplinar e compartimentado diz respeito ao paradigma simplificador. Morin (1996, p. 14) esclarece que “o pensamento complexo não é o contrário do pensamento simplificante – ele o integra”, uma vez que é um pensamento que busca ao mesmo tempo distinguir, sem separar, mas sim unir. Neste sentido, o “pensamento complexo passa a estabelecer um canal de diálogo entre os diferentes paradigmas” (MARTINAZZO, 2004, p. 35) – simplificador e o da complexidade.

O pensamento complexo apresenta considerações críticas a respeito do pensamento simplificador pelo entendimento de que a fragmentação dos saberes contribui para o que Morin denomina, cegueiras. Na perspectiva moriniana, “o pensamento simplificador conduz à cegueira do pensamento e impede ou distorce a real compreensão dos problemas e da complexidade da realidade do mundo. Nós humanos, somos produtores e produto de ideias” (MARTINAZZO, 2004, p. 44).

Morin (2011b) insiste na crítica ao que ele chama de paradigma do ocidente, formulado por Descartes e imposto à humanidade no decurso da história. Segundo seu entendimento, o paradigma cartesiano separa o sujeito e o objeto. Na intenção de romper com

essa separação, propõe o paradigma da complexidade, que se constitui num paradigma pós- cartesiano, que encara a realidade através de um referencial lógico e epistemológico que religa o que está separado, contextualiza o que está dissociado, reúne o que está disperso, complexifica o que está simplificado e “considera o sujeito pensante como produtor e produto de seu pensamento e de suas construções” (MARTINAZZO, 2004, p. 45).

Nessa nova lógica proposta, é fundamental a compreensão da forma e do gerenciamento de sua aplicabilidade, uma vez que é feita também por uma via complexa. O método se constitui “como uma via, uma estratégia, uma arte a ser exercitada pela reflexividade do sujeito cognoscente que persegue um conhecimento complexo” (MARTINAZZO, 2004, p. 63).

Isso quer dizer que o método proposto por Morin não se restringe a um único caminho, a uma única fórmula segura e fechada, com passos definidos e delimitados. Na originalidade da palavra, método significa caminho a ser percorrido para se chegar a algum lugar. Morin (2011a) ressignifica a palavra método interligando a teoria e à ação interventora do sujeito. Conforme Martinazzo (2004, p. 66), “em tese, o método está na própria forma de caminhar, de conceber, de abordar e de investigar a realidade [...] Ele faz o caminho no próprio andar. A finalidade funde-se e confunde-se com o caminho”. A dialogia, a recursividade e o holograma fazem parte desse caminho complexo de investigação, operando com regras da lógica complexa para fundamentar a construção do conhecimento complexo. É no interior deste movimento da razão aberta, que Morin nos instiga a perseguir uma nova racionalidade. O método do pensamento complexo não tem uma cartilha de regras claras e distintas como o paradigma de Descartes e demais ciências clássicas. Neste sentido,

através do olhar complexo, transdisciplinar, multidimensional e transversal, prefere historicizar o método, historicizando conceitos e o próprio homem, como um ser pensante não metafísico, e percorre este caminho religando o que a análise separou e desagregou, contextualizando o que está dissociado (MARTINAZZO, 2004, p. 70). O pensamento complexo parte do pressuposto da existência de uma realidade complexa. Para Morin (2011b), toda a realidade é algo complexo porque está constituída de elementos diferentes. Para compreender uma realidade complexa, Morin estabeleceu alguns princípios interligados, complementares e interdependentes que podem ajudar a refletir a complexidade. Dentre eles, os considerados fundamentais para a discussão são: o dialógico, o recursivo e o hologramático.

Nas muitas metáforas que Morin usa para exemplificar seu pensamento, costuma afirmar que “a complexidade se apresenta como um edifício de vários andares” (MORIN,

1996, p. 13). A base desse edifício – que é a complexidade – é formada por três teorias: informação, cibernética e sistema. Segundo ele, essa base contém os elementos necessários para a teoria da organização e destaca que a esse edifício “acrescentou elementos suplementares, sobretudo, três princípios – o princípio dialógico, o princípio de recursão e o princípio hologramático” (MORIN, 1996, p. 14).

O princípio dialógico consiste no desafio de captar a lógica complexa que une noções antagônicas e que constituem os processos organizadores da realidade da vida e da própria história. As palavras-chave da ordem e desordem constituem uma das dialogias básicas da complexidade. Morin (1996, p. 13) afirma que “a relação dialógica entre ordem, desordem e organização, mediante inúmeras inter-retroações, está constantemente em ação nos mundos físico, biológico e humano”.

O princípio da dialógica propõe a compreensão de que a realidade é constituída, modificada, destruída e regenerada por meio de princípios e forças contrárias. Todas as coisas possuem uma ordem produzida a partir de uma desordem inicial que, por sua vez, resulta da destruição de uma ordem anterior. A ordem e desordem não podem ser pensadas separadamente, mas num dueto que na relação dialógica produz infinitas configurações e modificações do espaço real. De acordo com Morin (2011a, p. 42) é preciso ainda “uma dialógica entre a racionalidade e afetividade, uma razão mestiçada pela afetividade, uma racionalidade aberta”, ou seja, a dialógica pressupõe uma racionalidade de considere as nuances subjetivas de todo o processo, de forma que possibilite o olhar em todas as direções para compreensão dos fenômenos.

Petraglia (2013, p. 46) lembra que “a dialógica não emerge da unidade e do consenso, mas da diversidade e do pluralismo de ideias, que mantem o conflito saudável para a produção do conhecimento. É deste princípio que a complexidade de nutre, associando-se ao tetragrama: ordem-desordem-interações-organização”. Isto permite a dedução de que o universo não está submetido à soberania absoluta da ordem, ele é o campo de uma relação dialógica (ao mesmo tempo antagônica, concorrente e complementar) entre a ordem, a desordem e a organização (MORIN, 1996), ou seja, “o princípio dialógico une dois princípios ou noções antagônicas, que aparentemente deveriam repelir uma à outra, mas que são indissociáveis e imprescindíveis para compreender uma mesma realidade” (MORIN, 1996, p. 14). Nesta proporção,

ordem e desordem misturam-se e confrontam-se. [...] A ordem e a desordem coexistem, confundem-se, exigem-se, contradizem-se e podem ser observadas, em interação dialógica, em qualquer organização de fenômenos [...]. O acaso demonstra que a ordem é relativa e a desordem incerta (MARTINAZZO, 2004, p. 55).

Essa dialógica dos antagonismos ou ideia dos contrários fundamenta-se nos princípios já formulados por Heráclito, Pascal, Hegel, Marx e Böhr, inspiradores do pensamento de Morin. O princípio dialógico tem a pretensão de integrar pontos de vista diferentes, e muitas vezes antagônicos. A dialógica está muito vinculada a outro princípio do pensamento complexo – a recursividade – também chamado de circuito recursivo ou de recursão organizacional. Tal princípio preconiza que tudo, a todo o momento é, ao mesmo tempo, produto e produtor, que causa e que é causado. Segundo Morin (1996, p. 14), “o princípio de recursão [...] é uma curva geradora na qual os produtos e os efeitos são eles próprios produtores e causadores daquilo que os produz”.

Neste sentido, “a comunidade educativa, mediante interações, organiza, produz e constitui a escola e a escola, por usa vez, constitui-se em agência educativa que produz a comunidade escolar. O mesmo movimento de anel recorrente ocorre na inter-relação sociedade/indivíduo/sociedade” (MARTINAZZO, 2004, p. 56). Os indivíduos humanos produzem a sociedade em e pelas suas interações, mas a sociedade, enquanto emergente, produz a humanidade desses indivíduos, pela linguagem e cultura.

Para a construção deste princípio, Morin se fundamentou em Marx analisando as relações orgânicas e dialéticas entre infra e superestrutura, onde uma exerce influência sobre a outra, condicionando e sendo condicionada. Esse anel recorrente é um princípio organizador fundamental e múltiplo no universo das ciências.

O terceiro princípio, também fundamental, é nominado por Morin de hologramático, no qual sistematiza a ideia de que a parte está no todo assim como o todo está nas partes. “O princípio hologramático destaca o aparente paradoxo de certos sistemas em que não somente a parte está no todo, como também o todo está na parte: a totalidade do patrimônio genético está presente em cada célula individual” (MORIN, 1996, p. 14). Nesta perspectiva, conforme Martinazzo (2004, p. 57), “num holograma35, cada parte contempla o todo e o todo contém as partes, e isso pode ser percebido no mundo físico, biológico e sociológico”. A visão hologramática contraria do pensamento simplificador que privilegia a linearidade, o reducionismo e a disjunção.

35 Um holograma é uma imagem em que cada ponto contém a quase totalidade da informação sobre o objeto representado. O princípio hologramático significa não apenas que a parte está no todo, mas que o todo está inscrito, de certa maneira, na parte. Assim, a célula contém a totalidade da informação genética, o que permite, em princípio, a clonagem. A sociedade, como todo, pela cultura, está presente no espírito de cada indivíduo. (MORIN, 2005, p. 207)

Enquanto que o pensamento simplificador não contempla a relação orgânica necessária à compreensão das interações e relações entre o todo e as partes, como, por exemplo, sociedade e escola, a visão hologramática capta as formas vivas da organização e através da análise do todo que está incluso nas partes que estão inclusas no todo, consegue estabelecer uma compreensão alargada dos fenômenos existentes. Para a educação este é um princípio-chave para a compreensão dos fenômenos escolares, em especial para o trabalho da supervisão, quando se constitui um trabalho investigativo dos processos escolares.

Essa circularidade do processo de conhecimento, provocada pela proposta do pensamento complexo, é garantida pela forma de espiral, num movimento de vai e vem, que tem como necessidade a garantia do fluxo de ideias e informações que nos remete do todo às partes e vice-versa. Trata-se de um pensamento sistêmico que se constitui num principio sistêmico ou de organização.

Esses princípios são concomitantes, complementares, antagônicos e interligados entre si. Pode-se arriscar a afirmação de que, Morin chama de paradigma da complexidade, o conjunto de princípios de inteligibilidade que, ligados uns aos outros, são capazes de determinar as condições de uma visão complexa da realidade.

Martinazzo (2004, p. 35) afirma que “reconhecer a complexidade do conhecimento, nos ajuda a compreender o poder que as ideias impõem sobre a organização humana para não sermos dizimados por elas”, ou seja, o pensamento complexo colabora para construir a clareza sobre as situações. A compreensão dos fatos constitui-se numa possibilidade de entendimento e participação na tomada das decisões. Por isso, “o bom e sadio pensamento é sempre conectante e consegue integrar as dimensões do conhecimento complexo que são complementares, concorrentes e antagônicos” (MARTINAZZO, 2004, p. 25).

Os novos tempos em educação necessitam fundamentar o conhecimento numa racionalidade complexa que considere e contemple o contexto, o global, o mutidimensional e o diverso. Petraglia (2013) afirma que refletir sobre a prática intelectual parece algo distante do praticismo no qual as pessoas estão acostumadas. Por isso, pensar as vias do pensamento complexo é promover uma reflexão sobre a prática intelectual. É pensar sobre o pensar, realizar reflexão. A escola talvez seja um dos poucos espaços em que ainda seja possível convidar as novas gerações à reflexão, a fim de que possam habituar-se a procurar conhecer o próprio conhecimento. Mas para isso, precisa-se reformar o nosso pensamento pedagógico para promover outras reformas necessárias.

2.4 As incertezas e os acasos dos processos escolares: possibilidades de formação