CAPÍTULO 3: A VIRTUDE NA PSICOLOGIA POSITIVA
3.4 As Virtudes na Psicologia Positiva
O passo para a Psicologia Positiva definir o que é a virtude partiu de dois estudos: um histórico e outro empírico. A busca direcionou-se para qualidades morais admiradas por um conjunto de culturas ao longo do tempo. No que diz respeito ao estudo histórico, o primeiro ponto foi determinar quais foram as tradições que mais influenciaram a humanidade. Para tal, foi determinado como ponto de referência o trabalho de Ninian Smart, World Philosophies (2000). Nesse estudo são apontadas 8 tradições, religiosas e/ou filosóficas, que influenciaram muito a humanidade: Confucionismo e Taoísmo (China), Budismo e Hinduísmo (Sul da Ásia), Filosofia Ateniense, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo (Ocidente).
Certamente que essas oito tradições são importantes na história da humanidade, mas mesmo dentro de cada uma delas pode-se ter uma infinidade de abordagens sobre a virtude ou qualidades morais admiráveis. Sendo assim, o trabalho não se restringiu apenas às tradições, mas também a quais pontos de cada tradição seriam levados em conta. Segundo Peterson e Seligman (2004) nem todas as culturas dentro de cada tradição foram abarcadas.
Determinadas as tradições, iniciaram-se as pesquisas em cada uma delas. Essa pesquisa buscou duas questões: listas de virtudes ou qualidades morais que fossem as primeiras a aparecer na referida tradição e/ou que fossem as mais influentes, sendo preferível encontrar ambas as características acima. (Peterson e Seligman, 2004, p. 34). O foco era em autores que deliberadamente desenvolveram um catálogo de virtudes, se possível com claro início e fim. Quando havia mais de um autor na mesma cultura optava-se pelo mais representativo da mesma.
Ao encontrarem virtudes que não estavam claras buscavam-se obras de referência que contribuíssem para a compreensão das mesmas no contexto cultural em questão. No total mais de 200 textos das referidas tradições foram estudados e pesquisados (Biswas-Diener, 2006).
Dessa ampla pesquisa histórica alcançou-se um grupo de virtudes representativas de cada tradição. Por exemplo, no Confucionismo verificou-se a existência de cinco virtudes centrais: a virtude da Humanidade, da Justiça, da ‘Etiqueta’ ou respeito aos ritos cerimoniais, da Sabedoria e da Sinceridade. Contudo uma questão logo nasce, em que termos essas virtudes foram entendidas? Ou seja, não sofreria o trabalho de um presentismo, uma aproximação à filosofia cofuciana desde uma perspectiva atual? Tal risco parece ser grande na abordagem feita pelo movimento da Psicologia Positiva, visto a preocupação central terem sido listas de virtudes ou qualidades e, não o que seria a virtude em si.
Após essa etapa, formulou-se um conceito abstrato de “core virtues”, (Dahlsgaard, Peterson e Seligman, 2005), um conjunto onde outras virtudes mais específicas que possuíam uma confiável convergência foram colocadas, ou seja, nesse momento realizou-se a pesquisa empírica onde buscou-se uma convergência entre as diversas virtudes ou qualidades morais encontradas. Assim chegaram-se às 06 virtudes consideradas ubíquas, algumas explicitamente nomeadas nas diferentes tradições, outras implícitas tematicamente. A utilização do termo ubíqua aponta para que as virtudes a seguir elencadas apareceram quase sempre nas tradições estudadas e não universalmente, ou seja, em todas as tradições e culturas da história. São elas: Coragem, Justiça, Humanidade, Temperança, Sabedoria, Transcendência.
Outra questão surge desta classificação. O quanto essa unidade sobre um mesmo conceito representa realmente a ubiquidade das virtudes. Seria a Sabedoria a mesma em todas as tradições estudadas e, se sim, seria considerada uma virtude? Tal fato fica mais claro quando Dahlsgaard, Peterson e Seligman (2005) falam sobre a coragem. Segundo eles, tal virtude não foi encontrada nem implicitamente nem explicitamente no Taoísmo, no Confucionismo e no Budismo, mas duvidavam que de alguma forma a coragem, a bravura, ou o combate, não aparecessem nessas tradições.
Mais questões podem ser lançadas para sobre o estudo empreendido pela Psicologia Positiva. Algumas os próprios pesquisadores apontaram, como por exemplo o descarte de certas culturas dentro das tradições e, a afirmação de que outras virtudes poderiam entrar na classificação. Outro ponto que pode ser apontado é que, mais do que um estudo sobre as diferentes concepções de virtude entre cada tradição e, inclusive, dentro da própria tradição, a preocupação foi com as listas de virtudes e convergências entre elas. Como pode ser visto pelo primeiro capítulo desse referido trabalho há diferenças entre concepções de virtudes ao longo da história que não podem ser desconsideradas sob o risco de se configurar uma grande confusão conceitual.
De qualquer forma com isso a Psicologia Positiva chega a sua definição de virtude: uma geral e outra específica para cada virtude. Virtude são “características centrais valorizadas por filósofos morais e religiosos” (Peterson e Seligman, 2004, p. 13)57
. As definições específicas de cada virtude envolvem a respectiva força a ela ligada, sendo assim, a sabedoria está ligada a forças cognitivas relacionadas à aquisição e uso do conhecimento; a coragem está ligada a forças emocionais que contribuem para completar um objetivo face a uma oposição externa ou interna; a humanidade envolve forças interpessoais no cuidado e relacionamento com os demais; a justiça é formada por forças cívicas ligadas a construção de uma boa sociedade; a temperança, formada por forças ligadas a moderação de excessos e, por fim a transcendência, formada por forças que estão ligadas ao estabelecimento de uma relação com o universo e com um sentido de vida.
Tem-se assim a definição de virtude ensaiada pelo movimento da Psicologia Positiva, contudo como Peterson e Seligman (2004) afirmam, esse nível conceitual é mais abstrato e,
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por isso mesmo, mais difícil de se trabalhar. Sendo assim, partiu-se para um nível médio na classificação, mais passível de observação e operacionalização: o nível das forças do caráter.