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CAPÍTULO VI Contexto de implantação:

7.4. Aspectos a serem retidos

A primeira foi a criação da inusitada campanha de “reforma agrária pelos correios”, que consistia em cadastrar a solicitação de trabalhadores nas agências dos correios de todo país. Com enorme aporte de marketing nos principais meios de comunicação de massa, o tom da campanha dirigiu-se abertamente para a desqualificação das ocupações de terra. O número de pessoas cadastradas chegou a 839.715 (SAMPAIO et al, 2003: p. 28), mostrando o apelo que tal campanha teve.118

A segunda medida foi a incorporação, em fevereiro de 2001 (BANCO DA TERRA, 2001), da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e da Força Sindical119 como

“representantes da sociedade civil e dos beneficiários” no conselho curador do Banco da Terra. Coerente com os seus desígnios, o governo Cardoso incorporou ninguém menos que o setor patronal e a direita sindical para gerir o principal instrumento construído para interiorizar o MRAM no Brasil e fazer o embate com os movimentos sociais do campo.

IV. A adesão social ao Cédula da Terra não pode ser analisada fora do contexto em que foi criado, marcado por um período de seca e perdas agrícolas, falta de perspectiva de trabalho, empobrecimento da população rural, enorme propaganda (sobretudo em nível local), falta de uma política efetiva de reforma agrária e repressão àquela alternativa de acesso à terra que vinha ganhando legitimidade crescente, qual seja, a ocupação coletiva organizada pelos movimentos sociais, especialmente pelo MST. Por outro lado, tal adesão revela o apelo nada desprezível que o acesso negociado à terra tem (ou pode vir a ter, conforme o contexto) entre parcelas significativas do campesinato brasileiro.

V. A criação do Banco da Terra internalizou os princípios básicos do MRAM ao escopo de instrumentos permanentes de política agrária no Brasil, permitindo que outras experiências orientadas por aquele modelo tivessem condições institucionais e financeiras mais sólidas de realização.

VI. Chama atenção o empenho do governo Cardoso na implementação do MRAM, tanto em termos de velocidade – as principais iniciativas concentraram-se no ano e meio entre agosto de 1996 e fevereiro de 1998 –, como em escala – de uma pequena experiência no Ceará até a criação do Banco da Terra pelo Congresso Nacional.

VII. Desde o início, o Banco Mundial mostrou grande interesse em nacionalizar o MRAM, tanto que se comprometeu a financiar o Banco da Terra quando o Cédula da Terra, o projeto-piloto, mal havia começado a ser implementado. Sem qualquer avaliação sobre o desempenho do Cédula da Terra, o governo brasileiro – com a promessa de recursos e o apoio político ostensivo dado pelo BIRD – trabalhou para a criação do Banco da Terra.

VIII. O conjunto de ações políticas desencadeado pelo Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo em nível nacional e, sobretudo, internacional, foi decisivo para bloquear, durante quase dois anos, o empréstimo do Banco Mundial que permitiria o governo brasileiro contar com uma fonte externa de financiamento para o Banco da Terra.

IX. Na perspectiva do Banco Mundial, o impasse provocado pela ausência de respaldo político suficiente para a implantação do MRAM no Brasil foi desfeito pela negociação com a CONTAG, a qual deu origem ao CFCP, dando seqüência à experiência dos programas anteriores. Para a CONTAG, o CFCP representou a possibilidade de viabilizar uma demanda mais antiga da entidade, embora secundária e trazida à tona num momento político bastante adverso aos movimentos sociais. Segundo o discurso da entidade, o Cédula da Terra e o Banco da Terra integrariam a “reforma agrária de mercado”, ao passo que o CFCP seria uma resposta à sua reivindicação por uma linha de crédito fundiário complementar à política de reforma agrária.

X. A criação do CFCP enfraqueceu a luta do Fórum contra a implantação dos programas orientados pelo MRAM do Banco Mundial, na medida em que a CONTAG deixou de apoiar a luta contra o programa que dá seqüência ao MRAM no Brasil, o CFCP.

XI. O CFCP sofreu resistências no interior do governo Cardoso, mesmo tendo sido negociado de maneira tripartite (Banco Mundial, CONTAG e governo federal) e sido o objeto de divisão política do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo.

Tais resistências vieram do setor do governo Cardoso interessado em expandir o Banco da Terra em detrimento dos demais programas existentes. A disputa entre o Banco da Terra e o CFCP foi favorável ao primeiro e desfavorável ao segundo. Porém, embora fossem programas sustentados por forças políticas distintas e guardassem especificidades, ambos seguiam os princípios centrais do modelo de reforma agrária de mercado do Banco Mundial. Foi a dinâmica da luta política – e não uma mudança de pressupostos e diretrizes – que forçou o Banco Mundial a não mais apoiar o Banco da Terra, criando junto com o governo federal o CFCP.

O objetivo deste capítulo foi esboçar um quadro abrangente da luta política travada no Brasil em torno da implantação dos programas orientados pelo MRAM. Destacou-se a unidade do governo Cardoso e do Banco Mundial para esse fim, em detrimento das posições das organizações de representação de trabalhadores rurais. Enfatizou-se o processo de articulação promovido pelo Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo em nível nacional, reunindo todas as entidades de representação contra o modelo do Banco Mundial até 1999. Focalizou-se o processo de dispersão das entidades do Fórum em relação à luta contra o MRAM por força da negociação da CONTAG com o Banco Mundial e o governo Cardoso no ano de 2000. Por fim, mostrou-se como no interior do próprio governo a lógica unitária de aplicação do MRAM sofreu uma dispersão relativa em termos de instrumentos utilizados, devido à criação de um novo programa apoiado pela CONTAG, o CFCP. No próximo capítulo, procede-se à análise do processo de implantação e dos resultados alcançados pelos programas aqui discutidos.

CAPÍTULO VIII

Modo de funcionamento e avaliação de resultados

Do ponto de vista do Banco Mundial e do governo Cardoso, os programas orientados pelo MRAM foram implementados no Brasil segundo a estratégia de se promover políticas compensatórias aos efeitos socialmente negativos provocados pelas políticas de ajuste estrutural. Com o objetivo de aliviar a pobreza rural, programas desse tipo são desprovidos de qualquer pretensão e capacidade de transformar as relações de poder político e econômico que garantem a reprodução da estrutura agrária, ou mesmo de impactar positivamente no crescimento do produto agrícola. Os programas orientados pelo MRAM ganharam espaço no Brasil a partir do rebaixamento prévio da política de reforma agrária a uma política social compensatória, deslocada do núcleo da política econômica e de qualquer reorientação do modelo de desenvolvimento vigente. Este foi o eixo que unificou a implementação de todas as experiências orientadas pelo MRAM neste país. Por outro lado, como se viu no capítulo anterior, tanto o Cédula da Terra como o Banco da Terra fizeram parte da estratégia do governo Cardoso de disputar com os movimentos sociais a primazia na definição do sentido e da dinâmica da política de reforma agrária no Brasil.

O objetivo deste capítulo é fazer um balanço da experiência brasileira com os projetos e programas orientados pelo MRAM. Evidentemente, devido à abrangência, à escassez de trabalhos significativos sobre o tema e à insuficiência de dados oficiais disponíveis à consulta pública, qualquer sistematização ainda guarda um caráter preliminar e aproximativo. A universidade segue sendo a principal personagem ausente desse debate.

Em termos de pesquisa acadêmica, não houve até o presente momento nenhuma iniciativa de envergadura sobre o tema.