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2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 O AGRIBUSINESS E A AGROINDÚSTRIA SUCROENER GÉTICA

2.1.4 Aspectos Ambientais do Setor Sucroenergético

A partir da década de 1980, o debate ambiental passou a ser fortemente influenciado pelo conceito de desenvolvimento sustentável. No setor agrícola, esse conceito aponta para uma nova direção do padrão tecnológico da agricultura e pode ser entendido como forma de aliar a eficiência econômica à eficiência socioambiental, exigindo mudanças de comportamento dos envolvidos na cadeia produtiva desse setor (GARSIDE, 2003; PAULILLO et al., 2007).

Até os anos 1970, no Brasil, a cana-de-açúcar foi processada com o único objetivo de produzir açúcar; após esse período, o setor sucroalcooleiro passou por um processo de diversificação da industrialização, tornando-se possível também utilizar a matéria-prima para a produção de outros coprodutos, principalmente o etanol (BURNQUIST, 2011).

O Brasil destaca-se na produção do etanol, combustível denominado “limpo”, uma vez que deriva de fontes renováveis (da produção e uso do combustível originado da biomassa), que, em complementação ou substituição aos combustíveis fósseis, contribui para diminuir os efeitos do aquecimento global (GOLDEMBERG, 2007; RISSARDI JÚNIOR; SHIKIDA, 2007; GALLARDO; BOND, 2010).

Perante este cenário, embora haja preocupação de vários pesquisadores quanto às implicações das mudanças no uso da terra em grande escala, ao considerarem que a monocultura pode trazer desvantagens sociais, econômicas e ambientais (GUEDES et al., 2002; PAULILLO et al., 2007; BRAGATO et al., 2008; GALLARDO; BOND, 2010), a expectativa atual é a de que essa expansão da cultura

tende a continuar (CAMARGO, 2008), dentre outras demandas, impulsionada pela procura do etanol no mercado interno, em virtude do aumento do uso de carros movidos a álcool (LANA; GUIMARÃES, 2010).

Além da produção do etanol, durante a extração do caldo da cana são gerados aproximadamente 30% de bagaço – biomassa da cana-de- açúcar – que vem sendo aproveitado pelas usinas como fonte de energia na produção de calor industrial e de energia elétrica (MACEDO, 2004; MACEDO, 2007; PAULA et al., 2009). O aproveitamento do bagaço e do excedente da palhada da cana-de-açúcar representa grande potencial como fonte renovável de energia, pois, além de serem usados em caldeiras para geração de calor e eletricidade durante o processo industrial do setor sucroenergético, há geração de excedentes de energia elétrica, os quais podem ser comercializados no mercado, com o propósito de complementar a demanda energética atual (que é predominante da energia hídrica) e alternativa aos derivados de petróleo e outros combustíveis fósseis (SOUZA; AZEVEDO; 2006; MACEDO, 2007a; GOLDEMBERG, 2008; GOES; MARRA, 2008).

Nas últimas décadas, as pesquisas científicas, aliadas aos avanços tecnológicos, a receptividade do setor pelas inovações e aos conceitos de desenvolvimento sustentável, transformaram a canavicultura em uma atividade que tem contribuído para a conservação do solo, gerando poucos resíduos e, ou, reutilizando-os no sistema de produção, por exemplo, a vinhaça, bagaço, torta de filtro, cinza de caldeiras etc. (ROSSETO, 2002; GOLDEMBERG, 2008; FARINA, 2013; OLIVEIRA et al., 2013).

No Brasil, as usinas sucroalcooleiras são autossuficientes em energia e produzem o correspondente a 3% (1.800 MW médios) da capacidade de geração brasileira (UNICA, 2013). Uma tonelada de bagaço de cana pode gerar aproximadamente 400 kWh e uma tonelada de palhada, 500 kWh. Considerando que o consumo médio de uma residência brasileira é de aproximadamente 150 kWh, a quantidade de bagaço e de palhada de cana produzida em um hectare pode abastecer oito residências durante um ano (OLIVEIRA, 2009).

A energia originária do bagaço da cana-de-açúcar tem seu maior potencial concentrado entre os meses de abril e novembro – época coincidente com a safra da cana-de-açúcar e com o período mais crítico para o sistema elétrico nacional, devido à pouca incidência de chuvas –, ou seja, quando o nível dos reservatórios das hidrelétricas diminui e são acionadas termoelétricas de alto custo econômico e ambiental que

utilizam como matéria-prima combustíveis fósseis, poluentes e formadores de gases do efeito estufa (GEE), como gás natural e carvão mineral (JANK, 2011; ZIMMERMAN, 2011). As emissões diretas de GEE estão associadas principalmente à liberação de CO2 durante a queima do bagaço e fermentação do caldo da cana, mas essas emissões não são consideradas na quantificação dos GEE, porque o carbono liberado será novamente fixado pela vegetação (cana-de-açúcar) durante o próximo cultivo (GARCIA; SPERLING, 2010).

O principal aproveitamento do bagaço tem sido no processo de produção de energia (térmica e elétrica), conhecido como cogeração; porém, Souza e Azevedo (2006) realçam que o bagaço também é utilizado como composto na ração animal, fertilizante, biogás, matéria- prima para compensados e indústria química em geral, como combustível substituto da lenha. Existe uma nova tecnologia que está sendo aperfeiçoada no Brasil, denominada “etanol de segunda geração”, que é o uso do bagaço e da palhada para a obtenção do etanol biocelulósico ou bioetanol (BURNQUIST, 2011; GOES; MARRA, 2008; HOLLANDA, 2008) para substituir parte do diesel fóssil por o de cana-de-açúcar nos ônibus (30% de diesel vegetal, produzido a partir da cana-de-açúcar, e 70% de diesel mineral) (COPPE-UFRJ). Assim, esses resíduos tornaram-se matéria-prima nobre, uma vez que uma tonelada de cana contém energia equivalente a 1,2 barril de petróleo, pois cerca de 1/3 dessa energia está armazenada quimicamente no caldo (açúcares) e o restante encontra-se na biomassa da cana, aproximadamente metade no bagaço e metade na palhada da cana (HOLLANDA, 2008).

Estudos comprovam que a cinza do bagaço da cana tem potencial para ser utilizada como adição mineral, substituindo parte do cimento em argamassas e concretos, atendendo, portanto, à crescente demanda por tecnologia alternativa de construção segura, econômica e sustentável (ZARDO et al., 2004; PAULA et al., 2009).

A composição da matriz energética brasileira apresenta vantagem comparativa por utilizar parcela significativa de energia limpa e renovável, uma vez que, na atualidade, a cana-de-açúcar é a segunda maior fonte primária de geração de energia no país, sendo superada apenas pelo petróleo e seus derivados. Enquanto no Brasil a energia renovável representa mais de 45% da matriz energética do país, no mundo a média é de 13% nos países desenvolvidos e de apenas 6% nos países considerados ricos. Cerca de 17% dessa matriz vêm da cana-de- açúcar, por meio do etanol e da bioeletricidade (FINEP, 2010; GARCIA; SPERLING, 2010; ZIMMERMAN, 2011).

Na atualidade, a realização da colheita de cana sem a prévia despalha a fogo, em grandes áreas, tem contribuído para que haja maior retenção do carbono atmosférico no solo, uma vez que é mais lenta a mineralização dos restos culturais (OLIVEIRA, 2007). Estima-se que o corte mecanizado da cana-de-açúcar proporcione redução da ordem de 20% dos custos de produção, quando comparado com o corte manual. Contudo, o corte mecanizado da cana encontra-se, ainda, em estágio incipiente de mecanização ou com deficiências tecnológicas. Existem limitadores que restringem o corte mecanizado no Brasil, pois as soluções tecnológicas disponíveis não são suficientemente competitivas e o sistema ainda precisa ser aprimorado (BRAUNBECK; OLIVEIRA, 2006; EMBRAPA-CNPTIA, 2013).

Segundo Macedo et al., (2004), ainda que durante o plantio, colheita, transporte, processamento e no uso dos produtos da cana-de- açúcar seja consumida grande quantidade de energia e gerados Gases do Efeito Estufa (GEE) ou Green House Gas (GHG), a agroindústria canavieira é apontada como importante atividade na produção de energia e, em consequência, na mitigação de GEE, em razão de os seus produtos energéticos serem utilizados em substituição aos combustíveis fósseis (derivados de petróleo e carvão) e ao gás natural.

2.1.5 Atividades e Insumos Utilizados no Processo de Implantação e