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3 O CONTROLE DIFUSO DE CONSTITUCIONALIDADE

3.2 A efetividade dos direitos fundamentais pela via do controle difuso:

3.2.1 O Estado Democrático e Social de Direito

3.2.1.2 Aspectos constitucionais do Estado Democrático e Social de Direito

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Para uma definição do Estado brasileiro, atualmente, impõe-se apreender a noção de Estado Democrático e Social de Direito, assinalada nas últimas notas do item anterior, merecendo destaque a missão estatal de atingir objetivos sociais e a atribuição conferida aos indivíduos de exigir a observância dos direitos previstos na Lei Maior, pautados sob uma perspectiva democrática,72 ou seja, que preveja uma efetiva participação popular nos processos decisórios.

A Constituição documenta uma realidade e imprime uma pauta de idéias e valores a serem preservados ou alcançados, cuja leitura correta impõe um permanente diálogo com o texto criado e vigente na busca da sua intencionalidade normativa.73 Esta sofre a interferência de fatores culturais, temporais e espaciais, sendo, ao mesmo tempo, repositório e objeto de idéias e valores.

No próprio texto constitucional, há que se buscar uma concepção básica que o fundamente e lhe conceda uma unidade de sentido, em face da multiplicidade de normas que o compõe, a fim de se alcançar a respectiva intencionalidade normativa. A Constituição de 1988 preconiza uma ordem jurídica com base em valores, idéias e cultura democráticos, voltados para o desenvolvimento e a promoção da justiça social.

O preâmbulo da Constituição Federal de 1988 já indica a sua intencionalidade normativa e, via de conseqüência, dimensiona o alcance político e jurídico que se pretende com o texto constitucional que precede, ao prever a instituição de “um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade”.

No Brasil, tem-se um desenho constitucional de um Estado Democrático e Social de Direito. Com efeito, o Estado Democrático e Social de Direito, preambularmente anunciado na Constituição, fixa os seus fundamentos na soberania, na cidadania, na dignidade da pessoa humana, nos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e no pluralismo político, destaca que todo o poder emana do povo, e é exercido através de representantes eleitos ou diretamente, nos termos estipulados já no art. 1º da Carta Magna. Tais elementos principiam a constituição de um Estado Democrático e Social de Direito e plantam as condições basilares

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Essa perspectiva democrática, ao tempo em que encerra um pressuposto para a caracterização de um Estado Democrático e Social de Direito, sinaliza para a sua não realização, onde não estiverem concretizados os valores da liberdade e igualdade previstos na Constituição, presididos pelo princípio da dignidade humana.

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SILVA, José Afonso da. Interpretação da constituição e democracia. Interesse Público, São Paulo, v. 7, n. 34, p. 13-25, nov./dez. 2005. p. 15.

para o exercício da democracia, ao lado da repartição de poderes (art. 2º, da Constituição Federal)74 e dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, conforme definido no art. 3º da Constituição de 1988.

Observa-se, outrossim, que a Constituição de 1988 prevê a realização de plebiscito e referendo, bem como, a possibilidade de iniciativa popular das leis.75 Detecta-se a criação de mecanismos de participação popular efetiva nos processos de elaboração de normas, decisão e defesa da Constituição.

Nessa mesma perspectiva, é imperioso pontuar que a previsão de direitos e garantias fundamentais na Constituição de 1988 (art. 5º, da Constituição Federal),76 igualmente, concorre para a formatação do Estado Democrático e Social de Direito brasileiro, uma vez que se integram ao patrimônio do cidadão, escudando-o contra investidas autoritárias e ilegítimas - eivadas de inconstitucionalidade freqüentemente patrocinadas pelo próprio Estado -, merecendo realce o direito de acesso à justiça77 e de participação nas decisões políticas.

Atualmente, os direitos fundamentais ocupam posição destacada no cotidiano da jurisdição constitucional, o que se explica a partir de uma visível mudança do próprio conceito de Constituição, antes identificado com a ênfase nas normas organizacionais e, agora, privilegiando as normas protetivas de indivíduos e grupos em face do poder. Os direitos fundamentais encerram um mínimo conteúdo referencial, implicando, em muitos casos, na substituição dos debates políticos pela interpretação constitucional e incorporando aos discursos de verve política o argumento da (in)constitucionalidade:78 em muitos casos, se é constitucional, tudo bem; se é inconstitucional, não há nem que se falar.

Sem dúvida, a Constituição de 1988 materializa um sistema de idéias e valores essenciais à convivência social e democrática que informa todo o ordenamento jurídico. Verifica-se, pois, um condicionamento, tanto na elaboração de novas normas, como na interpretação das normas e princípios existentes, em face do que propõe um Estado Democrático e Social de Direito, modelado segundo a forma e o conteúdo definidos no texto constitucional, cujo ideal é erradicar os males mais característicos e conhecidos das

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BRASIL, 1988. 75

BRASIL, loc. cit. 76

BRASIL, loc. cit. 77

Na concepção do presente trabalho, pontua-se que no Estado Democrático e Social de Direito é possível identificar uma proeminência do Poder Judiciário em relação ao Executivo e ao Legislativo. Sem dúvida, inércias do Executivo e falta de atuação do Legislativo podem ser supridas pela via judiciária, mediante a utilização de mecanismos jurídicos previstos na Constituição que formatam o Estado Social e Democrático de Direito.

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SANTOS, Gustavo Ferreira. Constituição e democracia: reflexões sobre a permanência e mudança da decisão constitucional. Revista da ESMAPE, Recife, v. 10, n. 22, p. 117-135, jul./dez. 2005. p. 126-127.

dominações políticas: a arbitrariedade, o autoritarismo, a exclusão política e a exclusão social.79

É nesse passo que os valores encerrados na Constituição autorizam o controle de constitucionalidade pela via difusa, como forma efetiva de fiscalização constitucional, cujos efeitos devem se orientar pela concretização desses mesmos valores.