5 MITIGAÇÃO DO PROCESSO OBJETIVO OU SUA APROXIMAÇÃO
5.1 Aspectos da mitigação do processo objetivo de controle de constitucionalidade
5.2.3 Da designação de perito ou comissão de peritos
O art. 9º, parágrafo primeiro, da Lei 9.868/99, encerra indicação clara da mitigação do processo objetivo ou aproximação entre este e o subjetivo, no sistema de controle concentrado de constitucionalidade brasileiro. Diz o referido comando que
em caso de necessidade de esclarecimento de matéria ou circunstância de fato ou de notória insuficiência das informações existentes nos autos, poderá o relator requisitar informações adicionais, designar perito ou comissão de peritos para que emita parecer sobre a questão, ou fixar data para, em audiência pública, ouvir depoimentos de pessoas com experiência e autoridade na matéria.213
É interessante observar que, em um processo, onde, em tese, discute-se apenas a compatibilidade da norma infra-constitucional com a própria Constituição, em nível abstrato,
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BOVERO, 2002, p. 21-38. 213
possa-se requisitar a participação de peritos, uma vez que o respectivo parecer equivale à prova pericial para esclarecimento da questão trazida a juízo.
A designação de peritos no curso de um processo judicial atende à necessidade de esclarecimento de matéria de fato; a exemplo da realização de provas periciais, constitui tema próprio de processos onde há direitos subjetivos envolvidos. Assinale-se que, nem em sede de controle difuso de constitucionalidade, no que toca ao Recurso Extraordinário, poderia o Supremo Tribunal Federal examinar questões de fato, sendo vedado o chamado reexame de prova, que é restrito às instâncias inferiores.
Se o referido parecer a que alude o texto aspeado da Lei 9.868/99214 tem a mesma natureza de uma prova pericial, importa transcrever o pensamento de Rogério Lauria Tucci, a dizer que
prova pericial é aquela em que o juiz, à falta de conhecimento técnico ou científico especializado, se vale da atuação de pessoa ou de pessoas habilitadas à verificação dos fatos controvertidos no processo, para, examinando-os, transmitir-lhe o respectivo parecer, em prol do aperfeiçoamento da solução do litígio submetido à sua apreciação.215
A verdade é que, apesar de habilitado, não se pode esperar que o Supremo Tribunal Federal, através do seus ministros, seja por lhe faltar conhecimentos técnicos especializados ou científicos, seja mesmo por carência sensorial, em face da questão constitucional, esteja em condições de exaurir a matéria a ele confiada. Moacyr Amaral Santos entende que
A natureza das coisas e dos fatos, a necessidade de perscrutar suas causas e conseqüências impõem possua o observador qualidades ou conhecimentos técnicos especiais. Como o observador deverá ser o juiz e como este não possui tais conhecimentos, mesmo porque não são próprios de sua formação científica ou técnica, ele, para que a observação da coisa e dos fatos se faça por forma útil, se utiliza de pessoas entendidas na matéria, as quais lhe transmitem as suas observações.216
É, pois, a perícia objeto de mister desempenhado pelo perito, consistente em uma modalidade de prova em que um expert é instado a coletar elementos instrutórios, cuja análise efetiva dependa dos respectivos conhecimentos técnicos ou científicos. Sem dúvida, o apoio em pareceres periciais concederá à decisão a ventura dos fundamentos necessários ao entendimento nela veiculado. O direito a uma decisão fundamentada constitui instrumento
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BRASIL, 1999a 215
TUCCI, Rogério Lauria. Prova pericial. In: FRANÇA, R. Limongi. Enciclopédia Saraiva do Direito. São Paulo: Saraiva, 1977. v. 62, p. 372.
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SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil. São Paulo: Saraiva, 1977, p. 413-414.
jurídico eficaz contra práticas autoritárias e corruptas, constituindo corolário dos regimes democráticos.
Assim, a previsão do art. 9º, § 1º da Lei 9868/99,217 da possibilidade que tem o relator de designar perito ou comissão de peritos para esclarecimento de matéria ou circunstância de fato, já indica, por si só, uma mitigação do processo objetivo que não fica apenas no exame abstrato da norma em face da Constituição, passando a examinar, também, questões de fato que possam interferir no julgamento.
A estruturação de um sistema de controle de constitucionalidade, mesmo na esteira dos modelos implantados em outros países, destacando-se os mencionados modelos austríaco (europeu-kelseniano) e norte-americano, reflete o desenvolvimento de todo um processo histórico-político experimentado em cada país, cumprindo assinalar que a mitigação do processo de controle objetivo de constitucionalidade ou sua aproximação com o controle subjetivo, nos diversos sistemas de fiscalização constitucional, é também corolário de situações enfeixadas em cada realidade.
Decerto que a constatação da assertiva contida no parágrafo anterior não decorre ou alcança apenas fatores passados, mas traz implicações nas perspectivas que se elaboram em torno dos sistemas de controle de constitucionalidade. A pluralidade que marca a sociedade atual requisita cada vez mais participação social (e até individual) nos processos decisórios, em busca de representatividade dos diversos segmentos, classes, interesses, e consolidação dos espaços democráticos já existentes. Tem-se a necessidade de legitimação de instrumentos, atos e procedimentos nos processos decisórios.
Nesse passo, a intersecção entre o processo objetivo de controle de constitucionalidade e o subjetivo, mediante a integração de elementos que atraem a defesa de interesses, possibilitam a apresentação de versões ou opiniões e justificam a participação no processo de fiscalização constitucional, afirma-se como fenômeno de promoção dos valores democráticos, tão caros à sociedade ocidental, na medida em que permite o acesso ou interferência do sujeito de direito ou de pessoas ou entidades interessadas nos debates ou decisões sobre a matéria constitucional, preconizando o suprimento de uma verificada carência de legitimidade.
5.2.4 Da repercussão geral nos recursos extraordinários
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