Em 1992, Brasier relata que carvalhos das espécies Q. suber e Q. ilex estão a morrer subitamente ou sofrem de declínio em Portugal e Espanha. A descrição baseia-se nos resultados da investigação realizada pela equipa da Universidade do Algarve, liderada por Ferraz que tinha vindo a observar a existência de árvores que apresentavam exsudações no tronco, desfoliação da copa, presença de rebentos epicórmios e que morriam subitamente, numa ou duas estações. Como os sintomas apresentados pelas árvores indicavam um mau funcionamento ao nível do sistema radicular, suspeitou-se do envolvimento na doença, de agentes patogénicos presentes no solo. Com base nesta hipótese, foram observadas as raízes dos sobreiros de locais de acentuado declínio, verificando-se que apresentavam necroses e que estavam desprovidas das raízes mais finas. O possível envolvimento, no declínio do sobreiro, de um fungo patogénico, veio a confirmar-se com o isolamento de Phytophthora cinnamomi a partir das raízes de sobreiro e do solo dos locais de declínio. P. cinnamomi é um fungo exótico extremamente agressivo, indígeno da região de Celebes, na Nova-Guiné e é parasita de mais de 900 espécies de plantas lenhosas (Brasier, 1992; Brasier et al., 1993).
Nos últimos 10 anos foi feita uma caracterização mais detalhada da doença do declínio de Q. suber e Q. rotundifolia. Os trabalhos desenvolveram-se no sentido de provar que P. cinnamomi é um agente patogénico do sobreiro e da azinheira, capaz de colonizar os tecidos e também, no sentido de saber quais as condições de stress edafo-climáticas que contribuem para que P. cinnamomi seja considerado o factor principal da causa de morte do sobreiro e da azinheira, no nosso país.
Segundo Marcelino (2001), a doença do declínio manifesta-se, de um modo geral, nos povoamentos de sobreiro e azinheira, atinge indivíduos de todas as idades e é um fenómeno que pode ocorrer em árvores isoladas, em grupos de duas e três árvores ou em grandes extensões. O declínio pode ser lento, denunciado por uma redução do
crescimento da árvore, aparecimento de exsudações no tronco, clorose das folhas seguida de queda gradual e presença de ramos, parcial ou totalmente, desfolhados. Na denominada “morte súbita das árvores”, a árvore seca normalmente a seguir ao Verão e as folhas de cor castanha permanecem durante algum tempo presas aos ramos secos. P. cinnamomi foi isolado, com sucesso, em várias regiões do país, a partir de amostras de raízes finas de sobreiros e azinheiras, bem como de amostras de solos associados. No Algarve, o fungo foi isolado em 79 % dos locais analisados e foi encontrada uma relação entre o grau de desfoliação apresentado pelas árvores e a presença do fungo. Ao estudar a relação entre P. cinnamomi e a exposição das árvores, a autora refere que “Apesar de se observarem árvores doentes localizadas em todas as orientações, os resultados evidenciaram que os locais expostos a Sul, apareciam mais infestados e com maior número de árvores infectadas comparativamente com os locais expostos a Norte” (Marcelino, 2001).
Em Espanha, o declínio de Q. ilex foi avaliado na região de Huelva, nos locais de El Cuco, La Pizarra e Los Manantiales. Nesta região, o declínio está distribuído na forma de foco de doença que pode atingir até 10 hectares, verificando-se que, em cada foco, os sintomas de declínio apresentados pelas árvores diminuem do centro para a periferia (Sánchez et al., 2002). Os sintomas de enfraquecimento geral que caracterizam o declínio, a queda das folhas ou a “morte súbita” das árvores, mostram-se relacionados com a presença de necroses nas raízes das árvores doentes e com os isolamentos de P. cinnamomi obtidos a partir de raízes com necrose (Sánchez et al., 2002).
A doença do declínio do sobreiro e da azinheira enquadra-se no panorama descrito para muitas florestas da Europa e doutras partes do mundo, em que se observa um enfraquecimento das plantas lenhosas persistentes. Este enfraquecimento designa uma doença complexa, causada por mais de um agente simples biótico ou abiótico, actuando simultaneamente ou em diferentes ocasiões. Devido à multiplicidade de factores em questão, as linhas de investigação desenvolvidas para caracterizar a doença têm sido dirigidas no sentido de explorar a importância a atribuir a factores relacionados com o meio ambiente e à presença de agentes patogénicos.
Em 1996, Jung et al. fizeram um rastreio das espécies de Phytophthora presentes em raízes de árvores doentes de Q. robur e Q. petraea, no solo envolvente, em tecidos com cancro e em cursos de água localizados nas regiões em declínio do Centro e Sul da Europa. O declínio destes carvalhos caracteriza-se pela diminuição da copa, perda de vitalidade e morte das gemas e dos ramos da parte superior da copa, presença de grupos
de folhas na forma de tufos na extremidade dos ramos, amarelecimento ou descoloração das folhas, redução do tamanho das folhas, existência de ramos epicórmios, exsudações no tronco, presença de necroses no cortéx e no câmbio e redução no diâmetro de crescimento. Na pesquisa das espécies de Phytophthora foram identificadas, no solo e em raízes finas que apresentavam necroses, oito espécies de Phytophthora que não incluíam P. cinnamomi. Após a realização de testes de patogenicidade com os isolamentos obtidos em plântulas, os autores verificaram que a maior parte deles provocava a morte das extremidades das raízes e o aparecimento de necroses no córtex das raízes. As inoculações nos ramos resultaram em lesões necróticas na região cortical e as lesões radiculares provocaram a obstrução dos vasos do xilema, reduzindo a capacidade de condução de água e nutrientes. Os problemas que levam ao mau funcionamento das raízes foram apontados como factores responsáveis pelos sintomas que se observam na parte superior das árvores e, portanto, indicadores do envolvimento das espécies de Phytophthora como principais responsáveis (Jung et al., 1996).
Não obstante a relação encontrada entre Phytophthora spp. e o declínio destes carvalhos, manteve-se a questão de saber que factores do meio ambiente contribuem para este processo ou, por outras palavras, que alterações ambientais se processaram na Europa que levaram ao desequilíbrio da relação hospedeiro-parasita, mantida entre os carvalhos e os fungos Phytophthora spp., que são habitantes naturais e largamente disseminados nos solos Europeus.
Recentemente, Thomas et al. (2002) investigaram a acção de vários factores abióticos (poluição do ar, eutroficação por azoto, stress químico dos solos, condições climatéricas extremas, condições edáficas) e bióticos (desfoliação por insectos, infecção por fungos patogénicos e microorganismos) no declínio de Q. robur e Q. petraea na Europa Central. Em termos gerais, estes autores consideram que as causas do declínio devem ser atribuídas mais a factores abióticos do que bióticos. A desfoliação provocada pelos insectos em dois anos consecutivos, combinada com invernos com muito gelo e verões muito secos, são apontados como sendo os principais factores a contribuir para a doença do declínio nos dois carvalhos estudados. Os tipos de solos foram considerados factores adicionais de stress, principalmente os argilosos, onde não existe uma distribuição contínua da humidade e que apresentam tendência para alagamento. O excesso de azoto que, em situação de falta de água resulta numa diminuição de fenóis e seus derivados nas folhas, tornando as árvores mais susceptíveis à desfoliação provocada por insectos, foi considerado como outro factor de stress. De entre o
complexo número de factores que contribuem para o declínio estão excluídos os gases poluentes (SO2, O3, NO2) existentes na atmosfera. Quanto aos factores bióticos, Thomas et al. observaram que a infecção das raízes finas por Phytophthora spp., em particular P. quercina, pode enfraquecer as árvores em locais ricos em CaCl2, com pH > 3,4 e que em combinação com condições locais que favorecem o encharcamento, condições climatéricas extremas (gelo; seca) ou desfoliação provocada por insectos, também contribuem para o declínio.
Alguns autores defendem que existem dois tipos de doenças complexas em carvalhos, apelidadas de “declínio dos carvalhos” e a diferença entre elas reside nas condições edáficas dos locais. Nos locais em que os solos são ricos em CaCl2, têm um pH > 3,5 e uma textura areno-argilosa ou só argilosa, é comum o isolamento de espécies de Phytophthora da rizosfera dos solos. Nesta situação, a transparência da copa das árvores está correlacionada com a diminuição dos valores de vários parâmetros medidos nas raízes (comprimento da raiz principal, comprimento das raízes finas, densidade da extremidade das raízes) e portanto, a presença de Phytophthora spp. representa um factor que contribui para a doença do declínio. No entanto, nos solos arenosos ou areno-argilosos com pH ≤ 3,9 não foram isoladas espécies de Phytophthora e nesta situação os factores abióticos são os que mais contribuem para o declínio dos carvalhos (Jung et al., 2000; Thomas et al., 2002).
As espécies de Phytophthora isoladas com mais frequência em regiões com carvalhos doentes no Centro (Alemanha, Suiça, Hungria) e Sul da Europa (França, Itália), foram P. quercina, P. cambivora, P. citricola e P. gonapodyides (Jung et al., 1996; Hansen e Delatour, 1999; Jung et al., 2000). Em 2002, registaram-se mais isolamentos de P. cambivora, P. cinnamomi e P. cactorum no Centro e Sul da Itália e de P. quercina no Norte e Centro deste país, obtidos a partir de amostras de solo retirado da base de carvalhos de cinco espécies diferentes, em locais de declínio (Vettraino et al., 2002). No Norte e Centro da Europa e no Norte da Itália, P. quercina é apontada como a espécie que aparece com mais frequência associada a carvalhos com sintomas de declínio (Vettraino et al., 2002, Jung et al., 2000).
P. cinnamomi aparece relacionado com o declínio que afecta três espécies de Quercus no México. Os sintomas do declínio de Q. glaucoides, Q. peduncularis e Q. salicifolia são semelhantes aos que foram descritos para as outras espécies de Quercus, com a diferença relativa do tempo que medeia entre o aparecimento dos sintomas na parte exterior da árvore e a morte, que varia de espécie para espécie. Q. glaucoides,
após o aparecimento dos primeiros sintomas nas folhas, começa a enfraquecer e no espaço de semanas a alguns meses, morre, enquanto que Q. salicifolia entra em declínio e pode permanecer assim durante muitos meses ou até anos, antes de morrer. A outra espécie de Quercus tem um comportamento intermédio. Algumas árvores afectadas apresentam cancros que se caracterizam por regiões do floema de cor vermelha escura, delimitada por uma zona negra (Tainter, 2000). Um dos aspectos interessantes deste trabalho foi a observação de que o declínio tinha tido origem num local específico, tinha alastrado na forma de mancha e que a expansão dessa mancha tinha sido travada pela mudança no tipo de solo e vegetação. Os cancros descritos por Tainter são semelhantes aos produzidos por P. cinnamomi na “doença da tinta”. Esta doença afecta Quercus rubra L., uma das principais plantas ornamentais em França. O fungo, para além de provocar o aparecimento de cancros no tronco, também infecta as raízes e provoca grandes danos quando coloniza os tecidos corticais do tronco, principalmente o floema secundário e o câmbio (Robin et al., 1994).