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8 DISCUSSÃO, INTERPRETAÇÕES E CONCLUSÕES

8.1 ASPECTOS GERAIS DAS INDÚSTRIAS ANALISADAS

Os conjuntos líticos provenientes da Concentrações 1 e 2 do Serrote não apresentaram características técnicas que permitissem uma diferenciação em termos de autoria ou grupos produtores. Dessa forma, é correto afirmar que a indústria analisada é resultado de apenas uma autoria ou grupo que desenvolveu regras e comportamentos tecnológicos no âmbito de um

savoir-faire tradicional, cujo valor cronológico situa-se entre 1.000 +/- 30 e 2.000 +/- 30 AP.

Os principais elementos que levam à sustentação dessa afirmação dizem respeito aos sistemas de produção de artefatos líticos empreendidos em ambos os setores analisados e que refletem aspectos da identidade do grupo autor. No que concerne à tecnologia, esses aspectos de identidade correspondem a, pelo menos, sete modalidades de produção, operantes quantitativa e qualitativamente: a) debitagem bipolar sobre bigorna; b) debitagem não padronizada do tipo C; c) debitagem fatiada; d) debitagem laminar; e) façonagem lateral/distal; f) façonagem unifacial; g) façonagem bifacial.

Vale ressaltar que as cadeias operatórias identificadas no âmbito de cada um desses sistemas são relativamente curtas e definem uma preocupação bastante expedita em relação ao lascamento de materiais líticos. Contudo, há de se mencionar que, mesmo em face dessa tecnologia bastante dinâmica, identificou-se, em cada um desses sistemas, certa coerência e similaridade na gestão dos objetivos e das decisões técnicas por parte dos artesãos durante o desenrolar das cadeias operatórias, o que significa dizer que, mesmo aplicando métodos diferenciados no lascamento dos materiais, não se percebeu tratamento diverso no sistema de organização mental dos objetivos técnicos. Nesse sentido, a condução do lascamento no Serrote, goza de uma relativa padronização técnica dos procedimentos adotados antes e durante a fabricação dos produtos. Nesse sentido, constata-se que, em ambos os setores, não só os

sistemas operantes de produção correspondem a métodos estabelecidos culturalmente por força do hábito ou da tradição, mas, também, os projetos conceituais podem apresentar uma origem cultural comum resultando nos mesmos tecnotipos de instrumentos.

Figura 73 - Instrumentos identificados nas C1 e C2.

Quanto às especificidades no tocante a cada sistema de produção, percebeu-se a busca por produtos pré-determinados, tanto na debitagem bipolar sobre bigorna, em que os objetivos era a obtenção de splits e gomos de laranja, quanto nas outras modalidades de debitagem, como a não padronizada do tipo C, fatiagem e laminar em que se buscavam produtos como lascas delgadas, ou espessas iniciais, lascas meia-lua, que servissem como suportes, ou lascas que tivessem condições de serem postas em esquemas de utilização imediatos. A utilização de lascas brutas é bastante conveniente à conformação de uma indústria lítica expedita.

0 2 4 6 8 10 12 14 Façonados sobre superfície plana Façonados bifacialmente Façonagem lateral/distal Retocado sobre bloco natural Façonados e retocados em plaquetas Façonados e retocados sobre lascas Lascas retocadas Lâminas de machado polidas Instrumentos C1 e C2/Serrote Concentração 1 Concentração 2

Figura 74 - Relação dos produtos de lascamento C1 e C2.

Especialmente no caso da debitagem não padronizada do tipo C, verifica-se certa variabilidade morfológica nos produtos, ainda que obtidos sob a regência do mesmo método. Tais diferenças morfológicas, nesse caso, refletem muito mais a herança de características anatômicas dos núcleos do que transformações propriamente ditas impostas durante o trabalho técnico. Em alguns casos, elas correspondem a aspectos retilíneos como nervuras ou formas retangulares resultantes de núcleos sobre blocos angulosos, minerados ou coletados oportunisticamente. Em outros, revelam aspectos de convexidade, como formas mais ovaladas ou arredondadas provenientes de núcleos com anatomia mais ogival, oblonga ou redonda, como os seixos selecionados dos conglomerados da Formação Camocim.

A façonagem apresenta-se no Serrote a partir de três variantes muito bem definidas, sendo, duas delas, a bifacial e a unifacial, bastante características e documentadas em diversas regiões do Nordeste. Essas duas façonagens foram percebidas operantes tanto em blocos angulosos quanto em seixos e lascas iniciais ou intermediárias, utilizadas como suporte de instrumentos que, geralmente, fornecem produtos como as lâminas de machado polidas, bifaces com UTF transformativa em bisel duplo concentrado nas extremidades, além dos unifaces façonados sobre superfície plana.

No caso dos instrumentos façonados sobre superfície plana, os mesmos apresentam-se de várias formas, desde superfícies planas com façonagem estruturando UTF transformativa apical a peças de secção piramidal. Contudo, há grande diversidade de formas e técnicas, como a percussão interna com percutor duro de pedra com retiradas justapostas ou convergentes.

0 5 10 15 20 25 30 35 Lascas de debitagem fatiada Lascas não padronizadas do tipo C

Lascas laminares Lascas bipolares lascas de

façonagem

Lascas de retoque

Produtos de lascamento da C1 e C2/Serrote

No caso da terceira variante da façonagem, a lateral/distal, a mesma pode representar o sistema mais característico e particular à produção de instrumentos no Serrote. Esse sistema foi percebido num conjunto de instrumentos sobre seixos que compartilharam a mesma maneira de aplicação da façonagem. Os volumes podem ser tanto achatados ou discoides como redondos, ogivais ou oblongos. Essa forma de façonagem traduz uma noção de intervenção/utilização dos instrumentos, em decorrência de uma setorização de partes dos volumes explorados que, no caso específico, corresponde aos flancos e/ou extremidades, cujos negativos estendem-se por toda a sua espessura. Dessa forma, essa façonagem se difere, em alguma medida, dos unifaces propriamente ditas, pois nas façonagens unifaciais, a transformação tende a se incidir, quase totalmente, ao longo de toda uma face do volume explorado. Contudo, no caso específico, a façonagem tende a se expandir em séries de retiradas que se restringem ao comprimento da espessura dos seixos. Nesse sentido, as UTFs transformativas apresentam planos de penetração abruptos ou com inclinação de até 30º. Além disso, no interior dos negativos que estruturam as UTFs transformativas ocorrem retoques que, muitas vezes, apresentam marcas de utilização. Como não chegam a ser unifaces e nem bifaces propriamente ditas, as peças produzidas pela façonagem lateral-distal poderiam ser denominadas “laterofaces”.

Muitos dos laterofaces assemelham-se a núcleos do sistema C, mas apresentam certo grau de diferença, na medida em que a façonagem a eles imposta não cria uma lógica de retirada de lascas para utilização imediata ou para compor suportes. Outrossim, os gumes demonstram, às vezes, reavivamentos e marcas de utilização visíveis macroscopicamente que extinguem a dúvida quanto à possibilidade dessas peças serem núcleos. As principais características dos laterofaces, além da aplicação da façonagem nos flancos é uma UTF transformativa abrupta com plano de penetração pouco declinado, com retoques e marcas de utilização em gumes delineados de forma curva ou retilínea. Ressalta-se que, o mesmo princípio dessa façonagem foi observado em alguns instrumentos sobre lascas, em que esse sistema figura numa fase intermediária da cadeia operatória seguida de uma fase de finalização por retoques que se estendem a partir de uma das laterais das lascas até uma das extremidades.

Com a percepção desses modos de exploração e das formas pelas quais operam, reconhece-se um nível de especialidade na produção de instrumentos no Serrote, o que, de certa forma, fundamenta a hipótese de uma polivalência técnica e econômica do grupo autor. Significa dizer que, apesar da grande diversidade de instrumentos, cada um dos sistemas de

produção operantes reflete uma especialização no âmbito do savoir-faire da cultura autora, ligada à definição de tecnofunções e esquemas de utilização nos sistemas técnico e econômico. Além do grau de especialização producional reconhecido nos métodos identificados, a polivalência é também evidenciada nos instrumentos que têm mais de uma unidade tecnofuncional transformativa, cuja estruturação das UTFs transformativas reflete atribuição de diferentes funcionalidades, justificando diferentes esquemas de utilização reservados ao mesmo volume. Nesse caso, as UTFs transformativas estruturadas em diferentes setores de um mesmo volume podem apresentar diversos planos de penetração, podendo ser mais abruptos ou mais declinados, com a definição de uma projeção apical etc., além de fios cortantes delineados também de maneira diversa. Tais características articulam esquemas de utilização igualmente distintos, furar, raspar, percutir, moer, polir, descamar, triturar, cortar, fraturar etc., assegurando a versatilidade de um único instrumento e comprovando a interseção entre atividades de natureza técnica e econômica.

Há de se mencionar que, no âmbito de comportamentos econômicos e tecnológicos polivalentes, o reaproveitamento e/ou reciclagem de matérias-primas e volumes é também outro comportamento característico, pois denota uma espécie de gestão de materiais e tecnologias ligada à possibilidade das múltiplas funções sobre um mesmo volume, seja para a aquisição, seja para o processamento de recursos ou, ainda, para compor as tecnologias de lascamento. Muitos dos volumes analisados, sejam eles percutores, núcleos, lascas ou instrumentos, apresentaram marcas de utilização que denotam ações de percussão e polimento, além de estigmas de lascamento em muitos casos. Essas evidências comprovam a versatilidade que os artesãos depositavam aos mesmos volumes, impondo-lhes finalidades diversas ligadas a atividades de aquisição e consumo de vegetais, moluscos, peixes, crustáceos, répteis e mamíferos terrestres e marinhos, até o desenvolvimento de técnicas particulares de produção.

A façonagem lateral/distal de seixos pode ser considerada uma das modalidades mais características da produção de instrumentos no Serrote durante o Holoceno Recente. Esse modo traduz uma grande praticidade na produção de unidades tecnofuncionais transformativas associadas às características anatômicas dos seixos. Além disso, adequa-se bem ao processamento de recursos alimentares provenientes dos ambientes aquáticos como tartarugas, peixe-boi e peixes de maiores dimensões, em processos de descamação para o consumo, ou de recursos provenientes de ambientes terrestres. Contudo, no que diz respeito às funções, alguns instrumentos podem ser considerados como característicos de atividades de pesca, como as

pontas e lamelas que, provavelmente, integravam lanças ou flechas, enquanto outros podem ser mais sugestivos à utilização em ambientes terrestres, como os laterofaces e unifaces sobre superfície plana.

Figura 75 - Instrumentos com façonagem lateral/distal da C1 e C2.

A existência de múltiplas unidades tecnofuncionais transformativas imprime uma notável versatilidade aos instrumentos que poderiam ser utilizados em várias atividades. Contudo, os graus de especialização ensejam funções mais propícios a determinados tipos de atividades, como percutores de pequenas dimensões utilizados para realizar fraturas em conchas, sobretudo para abrir o canal sinfonal dos gastrópodes, especialmente o Turbinella

laevigata, espécie bastante consumida no Nordeste setentrional. Nessa atividade, alguns gestos

simples de percussão em pontos específicos poderiam provocar fraturas como em C. Entretanto, para a desarticulação das valvas, é provável que outros instrumentos pudessem ser utilizados,

como as próprias lascas de fatiagem que apresentam morfologia circular à semicircular, e outras lascas não padronizadas do Tipo C, além de plataformas de penetração entre as valvas.

A ausência de determinados tipos de fauna no registro arqueológico do Serrote, como peixes, mamíferos, aves, répteis e crustáceos não exclui, de todo, a hipótese do seu consumo, pois as características técnicas e funcionais de determinados instrumentos, em alguns casos, convergem para utilizações em determinados ambientes e em espécies de maior dimensão, além dos gastrópodes. É o caso dos laterofaces e dos unifaces sobre superfície plana.

A presença de pontas e lamelas bastante finas pode estar ligada à sua utilização na pesca, pois, além das lâminas de machado polidas, esses instrumentos foram os únicos que apresentaram-se mais propícios ao encabamento, o que confere outras condições aos esquemas de utilização a eles inerentes, dada a separação entre as unidades tecnofuncionais preensiva e a receptora de energia que, no resto do conjunto analisado, têm sido percebidas sempre sobrepostas nas mesmas porções dos volumes. Dadas as características morfotécnicas desses instrumentos, como a pouca espessura e o adelgaçamento, é muito provável que tenham sido utilizados em ações de pesca em ambientes aquáticos, em águas calmas e cristalinas, como as que se concentram nos sistemas lacustres interdunares da planície costeira no primeiro semestre do ano, quando o nível do lençol freático aumenta relacionado ao regime pluvial.

Outro elemento bastante característico da cultura formadora do registro arqueológico do Serrote, as lâminas de machado polidas apresentam elementos estruturais que indicam que foram encabadas quando eram ativas. Trata-se das chanfraduras proximais, duas reentrâncias laterais ou uma faixa em baixo relevo que circunda a lâmina na sua parte proximal e que cria condições de apoio e ligação a um cabo, facilitando o uso em atividades como a aquisição de combustível para a queima da indústria cerâmica, ou mesmo como armamento bélico. Muitas dessas lâminas apresentam pequenas dimensões e polimentos conferidos pela produção e pela utilização, mas ainda não puderam ser verificados em detalhe.