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ASPECTOS GERAIS DO COMPORTAMENTO DO SOLO NO CONTEXTO DE MOVIMENTOS DE MASSA

TIPO DE MATERIAL SOLO

2.3. ASPECTOS GERAIS DO COMPORTAMENTO DO SOLO NO CONTEXTO DE MOVIMENTOS DE MASSA

Segundo Leroueil et al. (1996) e Leroueil (2001) para um bom entendimento do comportamento de movimentos de massa, envolvendo uma variedade de materiais e contextos, é necessário um significativo conhecimento a respeito do comportamento tensão-deformação-tempo dos solos. As características do comportamento da maioria dos solos e rochas brandas podem ser descritas utilizando-se os conceitos de estado crítico e a curva de escoamento. Este fato já foi provado por Leroueil & Vaugan (1990) aplicado a solos saturados e estruturados (solos moles, rochas brandas).

Considerando-se a curva de escoamento de um solo saturado ilustrada no diagrama de tensões representado na Figura 2.3, alguns aspectos podem ser abordados. A princípio, admitia-se que na área delimitada pela curva de escoamento ocorriam apenas

deformações predominantemente elásticas. Estudos realizados por Jardine et al. (1991); Jardine (1992); Hight & Higgins (1994) (a partir de Leroueil & Hight, 2003) descobriram que apenas na Zona 1 representada pelas condições iniciais de tensões, o solo apresenta comportamento elástico-linear caracterizado por pequenas deformações. Na Zona 2 o material apresenta comportamento elástico não-linear, e na Zona 3 ocorre o desenvolvimento de deformações visco-plásticas até ocorrer a ruptura ao atingir a envoltória de resistência de pico de um material pré-consolidado. O tamanho destas zonas é influenciado pela velocidade de deformação e pelo grau de microestruturação do solo. Quando o solo é cisalhado a grandes deformações, o mesmo atinge a linha de estado crítico (CSL), correspondendo a resistência de um material normalmente consolidado. A acumulação de deformações pelo “creep” com o tempo resulta num deslocamento aparente da curva de escoamento, e em particular, numa redução da envoltória de resistência de pico do solo pré-adensado (Tavernas & Leroueil, 1981) (a partir de Leroueil et al. 1996).

Figura 2.3. Elementos básicos do comportamento do solo (Leroueil, 2001).

Tavernas & Leroueil (1981) (a partir de Leroueil, 2001) aplicaram os conceitos acima descritos para análise de comportamento de movimentos de massa em argilas saturadas. O ponto D representado na Figura 2.4 representa num talude perfeitamente estável, com as condições de tensão num domínio pré-adensado. Como o lençol freático num talude varia sazonalmente, as condições de tensão flutuam entre os limites Lw (correspondente a rebaixamento do lençol freático) para o limite Hw (correspondente à condição elevação do lençol freático). De acordo com o exposto, a velocidade de deformação no

creep varia sazonalmente, sendo maiores quando ocorre elevação do lençol frático. A ruptura local é iniciada quando o estado de tensão Hw (Figura 2.4), atinge a envoltória de resistência de pico. Depois de atingido o pico, as condições de tensão se movem progressivamente até atingir a linha de estado crítico (CSL), onde parte das tensões são transferidas para os elementos vizinhos do solo. Este fenômeno é chamado de ruptura progressiva o qual se estende dentro de uma contínua superfície de cisalhamento dentro da massa de solo e conseqüentemente podendo vir a acionar um deslizamento.

Figura 2.4. Efeito esquemático do creep e condições de tensão efetiva em encostas naturais por ocasião de oscilações do nível d´água (Leroueil et al., 1996).

A parte superior da curva limite de estado, correspondendo à envoltória de pico no domínio pré-consolidado, tem significativa importância no desenvolvimento de rupturas em encostas; sendo influenciada por diversos fatores tais como: velocidade de deformação, anisotropia, rotação das tensões aplicadas, índice de vazios, do tamanho das amostras ensaiadas, fadiga, desestruturação, intemperismo e variação na sucção para o caso de solos não saturados (Leroueil, 2001).

Outro aspecto a ser comentado diz respeito a solos microestruturados, existindo várias características particulares no comportamento destes solos. Como indicado por Burland (1990) e Leroueil & Vaughan (1990) entre outros, a maioria dos solos naturais e rochas brandas são microestruturados. Isto significa que a um dado índice de vazios, estes solos podem sustentar tensões maiores do que o mesmo material não-estruturado. Existem várias causas para o desenvolvimento da microestrutura em solos e rochas brandas:

compressão secundária, tixotropia, cimentação, etc. Uma das características do comportamento deste tipo de solo é que sua envoltória de resistência de pico situa-se acima da envoltória do mesmo material quando não estruturado. O estado de tensões atingido nestes solos, a grandes deformações (ponto C da Figura 2.3) situa-se dentro da curva de escoamento do mesmo material no estado intacto.

O efeito da microestrutura pode ser observado ao se comparar às curvas de compressão de um solo no estado natural (indeformado) com as deste material reconstituído (remoldado). Conforme ilustra a Figura 2.5, observa-se que a pressão de pré- consolidação deste solo (Ponto P) é maior no seu estado natural em relação à amostra remoldada; indicando que este solo é realmente estruturado quando da formação do depósito (Cottechia & Chandler, 1997; Cotecchia, 2002) (a partir de Leroueil and Hight, 2003). Por causa da microestrutura, este solo pode atingir um domínio no espaço e - logσv que não é permitido para o mesmo solo quando não microestuturado.

Figura 2.5. Compressão unidimensional da argila Pappadai no estado natural e reconstituída (Cotecchia & Chandler, 1997; Cotecchia, 2002) (a partir de Leroueil & Hight, 2003).

Para caracterizar a microestrutura de solos em termos de compressibilidade, Burland (1990) mostrou que a relação entre índice de vazios e a tensão vertical para depósitos normalmente consolidados (linha de compressão sedimentar - SCL) é diferente da linha

de compressão obtida em laboratório (linha de compressão intrínseca - ICL) utilizando amostras de argila reconstituídas. O termo “intrínseca” refere-se a toda propriedade básica, ou herdada, de um dado solo preparado em uma maneira especificada, que são independentes do estado natural deste solo. Segundo Burland (1990), estas propriedades podem ser obtidas a partir de uma amostra reconstituída com uma umidade entre LL e 1,5 LL (de preferência 1,25 LL) e consolidada, preferencialmente, sob condição unidimensional. A curva de consolidação para esta amostra será denominada de linha de compressão intrínseca (ICL), sendo considerada uma referência para o solo no estado natural. Como ilustrado na Figura 2.6, sob uma dada tensão efetiva, o índice de vazios do solo no estado natural é maior do que o mesmo solo quando reconstituído.

Figura 2.6. Comparação entre as curvas de compressão unidimensional de argilas normalmente adensadas no estado natural e a curva obtida em laboratório através de amostras reconstituídas (Burland, 1990).

Por definição, desestruturação corresponde à quebra de ligações entre partículas ou agregados, induzindo a um decréscimo na resistência do material. Em solos ou rochas brandas microestruturadas, o limite da curva de escoamento reflete o índice de vazios do material, sua história de tensão e a resistência das ligações entre partículas ou

agregados. Quando a trajetória de tensões efetivas atinge o limite da curva de escoamento, uma grande parte das ligações são quebradas e o material é, conseqüentemente, desestruturado. Como conseqüências da desestruturação temos o decréscimo na rigidez do solo dentro do limite da curva de escoamento, o decréscimo na envoltória de resistência de pico e na pressão de pré-consolidação e o decréscimo do índice de compressão (Leroueil, 2001).

A desestruturação pode ser obtida por compressão, por cisalhamento, por expansão, por intemperismo e por fadiga. Desestruturação por compressão pode ser verificada na Figura 2.7, onde se pode observar o fenômeno de desestruturação progressiva. A argila de Laviano foi carregada e descarregada ciclicamente num ensaio edométrico, com aumento das tensões a cada ciclo (Picarelli, 1991) (a partir de Leroueil & Hight, 2003).

Figura 2.7. Resultados de ensaios edométricos na argila de Laviano (Picarelli, 1991) (partir de Leroueil & Hight, 2003).

O efeito da desestruturação também pode ser observado no cisalhamento. É relativamente difícil de quantificar por causa da possível formação de descontinuidades em ensaios triaxiais, com possível orientação de partículas. A Figura 2.8 ilustra o efeito da desestruturação de argilas no cisalhamento. A argila desestruturada apresenta menor rigidez e atinge uma menor resistência a grandes deformações, resultando em envoltórias de ruptura menores do que as envoltórias no estado intacto.

Figura 2.8. Relação tensão-deformação obtidas de ensaios triaxiais não drenados em argilas intactas e desestruturadas (Tavenas & Leroueil, 1987) (a partir de Leroueil & Hight, 2003).

A Figura 2.9 mostra envoltórias de resistência obtidas de um solo intacto e deste mesmo solo primeiramente seco ao ar. A envoltória de resistência do solo quando seco ao ar situa-se abaixo da envoltória do mesmo solo no estado intacto, indicando algum efeito de desestruturação.

A desestruturação por expansão ocorre em materiais em que as ligações entre as partículas não são fortes o suficiente para resistir às forças de expansão geradas quando as tensões efetivas são reduzidas. A desestruturação por intemperismo está geralmente associada com os fenômenos climáticos ou ações químicas. Estes fatores conduzem a uma degradação das ligações entre partículas e agregados resultando também em uma diminuição da resistência (Leroueil, 2001).

Figura 2.9. Envoltórias de resistência de amostras intactas, secas ao ar e reconstituídas (Rampello, 1991) (a partir de Leroueil & Hight, 2003).

Outro aspecto de grande relevância no entendimento de movimentos de massa em geral diz respeito à resistência residual. Ao serem atingidos grandes deslocamentos, as partículas de forma lamelar tendem a se orientarem na direção paralela do cisalhamento, atingindo a resistência residual. Este comportamento é influenciado principalmente pela mineralogia e pela forma das partículas, e por uma série de fatores entre os quais destacam-se as tensões aplicadas, o tipo e a velocidade de cisalhamento e a composição química do fluido da água presente no solo (Skempton, 1985; Di Maio, 1996a, b; Tika et al., 1996).

O modo de cisalhamento de solos a grandes deformações foi estudado por Lupini et al. (1991). As principais conclusões são ilustradas na Figura 2.10 a qual apresenta o ângulo de atrito residual φ´r e o ângulo de atrito no estado crítico de misturas de areia-bentonita.

Quando a percentagem de partículas de forma lamelar (bentonita) é pequena, não ocorre reorientação das partículas, o cisalhamento é descrito como turbulento, apresentando ângulo de atrito residual um pouco inferior ao ângulo de atrito no estado crítico. Quando a percentagem de partículas de forma lamelar é grande, ocorre uma reorientação dessas partículas, o cisalhamento é descrito como deslizante, apresentando ângulo de atrito residual significativamente menor do que o ângulo de atrito no estado crítico. Entre os dois modos de cisalhamento encontra-se o modo transicional, o qual apresenta

partículas de forma arredondada impedindo o desenvolvimento de uma contínua e orientada superfície de cisalhamento.

Figura 2.10. Ensaios ring shear em misturas de areia-bentonita (Skempton, 1985; baseado no trabalho de Lupini et al., 1981).

Com relação às tensões aplicadas, para a maioria dos solos argilosos, a relação entre resistência residual e tensão normal efetiva é não-linear (Bishop et al, 1971; Skempton, 1985; Stark & Eid, 1994); ou seja, ocorre decréscimo do ângulo de atrito residual com o aumento das tensões impostas. Esse decréscimo em φR′ foi presumidamente associado

com o aumento do grau de orientação das partículas de argila sob tensões normais mais elevadas. Este fato é ilustrado pelos dados obtidos por Picarelli (1991) ilustrados na Figura 2.11.

Observou-se também que a resistência residual de amostras da argilas de Laviano amolgadas, medidas por ensaios de cisalhamento direto e ensaios “ring shear”, eram significativamente menores do que as das amostras indeformadas (Figura 2.11). Esses resultados discordam dos encontrados anteriormente por Skempton (1964), onde este autor afirmou que o ângulo de atrito residual era independe da condição inicial da amostra. De acordo com Chandler (1969), os resultados obtidos por Picarelli (1991) são atribuídos à distribuição granulométrica dos grãos grossos das amostras indeformadas, onde a superfície de cisalhamento era constituída de agregados de argila, fazendo com

que o tamanho efetivo dos grãos presentes nas amostras indeformadas sejam considerados mais grossos do que os das amostras amolgadas. Fazendo referência a Figura 2.10, o comportamento da argila de Laviano provavelmente passa do modo deslizante, quando na situação amolgada, para o modo transicional, quando na situação indeformada.

Figura 2.11. Resistência residual da argila de Laviano (Picarelli, 1991).

Com relação à velocidade de cisalhamento, Skempton (1985), avaliou o efeito de baixas velocidades de cisalhamento na resistência residual em solos argilosos. Para tanto, foram realizados testes com velocidades 100 vezes maiores e 100 vezes menores que a faixa usual de velocidade de 0,005mm/min utilizada em laboratório. Pode-se concluir que a variação na resistência residual é menor do que 2,5 % / ciclo logarítmico; e para velocidades usuais de laboratório de 0,002 a 0,01mm/min esta variação era desprezível. Segundo Leroueil (2001) o efeito da velocidade na resistência residual deve se levado em consideração especial quando considerados movimentos de massa em estágio de reativação.