2.1 REFLEXÕES SOBRE O DESENVOLVIMENTO
2.1.7 Aspectos gerais dos planos de desenvolvimento
Além da criatividade que permeia o processo de desenvolvimento, outros aspectos estão envolvidos na questão, principalmente quando um plano estruturado de desenvolvimento se transforma em importantes projetos de desenvolvimento.
7 “Quando afirmou que a Terra se move em torno do Sol, em 1543, o cientista Nicolau Copérnico não apenas
divulgou um novo postulado científico. O que Copérnico provocou foi uma revolução no pensamento ocidental, ao tirar pela primeira vez o homem do centro do Universo. Até então, a teoria geocêntrica de Ptolomeu, em que tudo gira em volta da Terra, era a verdade que guiava a filosofia, a ciência e a religião” (Fonte: <http://educacao.uol.com.br/biografias/nicolau-copernico.jhtm>).
8 Criatividade é a geração de novas ideias. Inovação é a exploração de novas ideias. O design, por sua vez, é
Pode-se conceituar projeto de desenvolvimento um conjunto coerente de intervenções destinadas a reorientar a evolução de determinada atividade de uma localidade, conforme os objetivos de interesse coletivo (DUFUMIER, 2007). Um plano estruturado de desenvolvimento, portanto, transforma-se em um projeto (CASAROTTO FILHO e PIRES, 2001). Todo projeto deve contemplar uma gama de situações, dependendo da situação econômica e das relações sociais dos envolvidos, sendo que a iniciativa pode partir do Estado ou de instituições privadas.
Normalmente a iniciativa deveria caber ao Estado ou às “organizações locais” (prefeituras, conselhos municipais...) em nome do interesse coletivo. Todavia não é raro ver agentes financiadores externos e agências de cooperação internacional conceberem e promoverem tais projetos em função de princípios que lhes são próprios. Vê-se que é cada vez maior a quantidade de organizações não- governamentais (ONG) que empreendem e realizam, elas próprias, projetos [...] para compensar a ausência da ação dos Estados. Nesses casos, entretanto, os projetos mobilizam os esforços e a capacidade de muitos parceiros em torno de objetivos comuns. Eles se traduzem por uma multiplicidade de intervenções, tornando-se necessário verificar uma convergência de interesses capaz de garantir a sua coordenação (DUFUMIER, 2007, p. 41).
A Figura 2 ilustra os aspectos relacionados aos ambientes e processos que levam ao desenvolvimento, segundo Casarotto Filho e Pires (2001).
Figura 2 – Processos e desafios para o desenvolvimento
Fonte: Casarotto Filho e Pires (2001, p. 107)
Para estes autores as estratégias de desenvolvimento devem ser sustentáveis, ou seja, englobar os aspectos econômicos, sociais e políticos dos ambientes, possuir uma visão ampla
e de longo prazo, analisando as prioridades imediatas e futuras, bem como serem descentralizadas, com participação social e planejamento participativo para sua implementação. A visão globalizada e regionalizada, juntamente com os desafios da competitividade, buscaria a cooperação para alcançar, como resultado, a qualidade de vida.
Ao se compreender as etapas de um projeto de desenvolvimento propostas por Dufumier (2007), adquire-se uma visão abrangente das várias questões envolvidas, melhorando a percepção de que todo projeto engloba inúmeros intervenientes. Realizar projetos requer uma série de dados e conhecimentos, bem como um olhar atento às diversas categorias sociais, em especial aquelas que não se encontram em situação favorável à competitividade com outras. Partindo desse princípio, pergunta-se: existe uma multiplicidade e/ou dispersão de esforços que comprometem uma ação mais eficaz? Existe muita burocracia na execução dos projetos? Existem pesquisas confinadas em academias sem relação ou aplicação prática? Existem linhas de crédito específicas para todos os setores da economia? Com relação a essas questões, Dufumier (2007) lembra que se torna necessário:
- aperfeiçoar desde o início os métodos empregados na elaboração dos diagnósticos que precedem a formulação dos projetos;
- introduzir maior rigor na elaboração das intervenções e mais flexibilidade na sua execução;
- realizar ações de acompanhamento e avaliação que permitam aos diferentes executores administrar as suas intervenções e reagir aos eventuais imprevistos com todo o conhecimento de causa; e
- avaliar com realismo as evoluções ecológicas, os resultados econômicos e as transformações sociais que resultam efetivamente da execução dos projetos. (DUFUMIER, 2007, p. 38).
Um projeto consiste basicamente em conceber, executar e avaliar as diversas etapas envolvidas. De uma maneira mais específica, podem-se delimitar as seguintes etapas envolvidas em um projeto de desenvolvimento, conforme Dufumier (2007):
- diagnóstico / identificação de um problema;
- elaboração / escolha de estratégias / objetivos do projeto / coordenadores; - tomada de decisão;
- gestão / execução;
- acompanhamento / monitoramento / constante redefinição de ações;
- resultados / benefícios à sociedade/empresa / análise financeira / avaliação social; - liquidação.
Já segundo Casarotto Filho e Pires (2001), os objetivos principais de um plano ou projeto estratégico de desenvolvimento englobam:
- cuidados para evitar a degeneração social, cultural, política e econômica; - a qualificação dos envolvidos no processo;
- a identificação das potencialidades regionais ou locais;
- a promoção da qualidade, valorização e formação da consciência cultural; - a associação de diferentes instâncias de poder e representatividade; - alternativas de desenvolvimento que consolidem os polos;
- formação do ambiente através de sistemas de captação, gestão, análise e elaboração estratégica;
- ampliação da oferta de serviços sociais locais que atendam às exigências macrorregionais;
- a garantia da sustentabilidade ambiental do desenvolvimento; - construção de ambientes atrativos de investimentos externos;
- proporcionar a implementação de estratégias que ampliem ou mantenham uma posição de mercado sustentável;
- uma coesão política de barganha das estruturas macrorregionais com os planos locais ou regionais.
A rapidez e a incerteza do mercado exigem flexibilidade em todas as etapas, além do investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Além disto, é importante ter clara a noção de riscos e incertezas envolvidos:
O risco refere-se a situações nas quais certos resultados dependem de parâmetros cujas variações podem ser flutuantes mas a sua lei de probabilidade é relativamente conhecida [...]. A incerteza refere-se às situações nas quais torna-se impossível associar a evolução das variáveis a uma função de probabilidade. É sempre delicado tomar uma decisão em relação a um futuro incerto, pois não se dispõe, a priori, das informações necessárias para se prever quais podem ser as variações de parâmetros considerados essenciais [...]. Impõe-se, assim, a realização de análises de sensibilidade de modo a orientar como os resultados podem ser modificados em função da evolução eventual das variáveis em questão (DUFUMIER, 2007, p. 181).
Além das incertezas que permeiam um projeto de desenvolvimento, outros obstáculos devem ser superados, como as dificuldades técnicas, a falta de tecnologias apropriadas, os conflitos de interesse, etc. A Figura 3, a seguir, retrata um modelo ideal teórico para um plano de ação regional de desenvolvimento, proposto por Casarotto Filho e Pires (2001).
O desenvolvimento de projetos como uma atividade empresarial responde às mudanças do meio ambiente dinâmico, seja com relação aos seus produtos, processos ou padrões administrativos. Novos projetos respondem a demandas emergentes, trazendo um diferencial competitivo (CASAROTTO FILHO e PIRES, 2001).
Figura 3 – Esquema para o plano de ação regional (modelo ideal teórico)
Fonte: Casarotto Filho e Pires (2001, p. 127)
Muitas ações públicas procuram orientar o processo de industrialização e, por consequência, a mudança estrutural de um território e seu ambiente. As políticas industriais dão o direito de participação no mecanismo de crescimento, articulando os diferentes catalisadores do desenvolvimento, bem como os atores que possam especializar ou complementar o processo como um todo.
Essa situação pode ser também interpretada como o crescimento ‘endógeno’, isto é, a capacidade de criar condições locais, as regras que permitam a cooperação entre atores com o objetivo do desenvolvimento dos conhecimentos individuais e comuns, para possibilitar um acúmulo de conhecimentos suficientes para o crescimento coletivo (CASAROTTO FILHO e PIRES, 2001, p. 116).
O processo de desenvolvimento sustentável é visto, segundo Casarotto Filho e Pires (2001) em quatro grandes dimensões, determinadas tanto através da evolução do conhecimento social quanto pelas suas necessidades e prioridades, sendo:
- dimensão econômico-social: cria condições para o crescimento econômico, com inclusão social e distribuição equitativa;
- dimensão científico-tecnológica: estimula a inovação através do incremento do conhecimento e sua aplicação prática;
- dimensão geoambiental: assegura os recursos do ambiente sociocultural e natural; - dimensão político-institucional: promove a articulação das diferentes dimensões no processo de desenvolvimento, de forma consistente e com a participação social que lhe
garante legitimação pelo exercício da cidadania.
O processo de desenvolvimento econômico local, na visão de Casarotto Filho e Pires (2001), é algo que exige a participação de várias pessoas, através de uma rede de relações integradas que permitam a evolução do sistema produtivo pelo conhecimento mútuo em uma sintonia coletiva. A elaboração de políticas industriais, nesse sentido, deve ser orientada de
cima e de baixo: organizando-se uma base de princípios gerais que devem ser aceitos em
consenso e integrando os atores de modo que complementem as ações. Iniciativas espontâneas e individuais podem, muitas vezes, levar à fragmentação e à falta de coordenação.
No Rio Grande do Sul, especialmente após a promulgação da Constituição Estadual de 1989, debateu-se intensamente os rumos do desenvolvimento no Estado, movimentando o processo de desenvolvimento regional de caráter endógeno e participativo. Tal fato culminou com a criação dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes) em 1994.
A missão e a visão dos Coredes é ser um espaço de construção de parcerias sociais e econômicas, buscando articular interesses locais com estratégias próprias e específicas, colaborando na organização de segmentos desorganizados e no auxílio aos atores sociais, políticos e econômicos na formulação de suas próprias estratégias, tornando-os construtores de seu próprio modelo de desenvolvimento regional (GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, 2014). Os seus objetivos, basicamente, são:
[...] promover o desenvolvimento regional harmônico e sustentável, integrar os recursos e as ações do governo na região, melhorar a qualidade de vida da população, distribuir de forma equitativa a riqueza produzida, estimular a permanência da população em sua região e preservar e recuperar o meio ambiente (SIEDENBERG, 2004, p. 136).
A regionalização que se instituiu através dessa proposta demonstra a tendência de gestão e regulação do desenvolvimento que o governo federal passou a assumir, em detrimento de seu papel de indutor direto. Dessa maneira, os representantes da população civil das diferentes regiões ganharam “[...] uma posição igualitária ao governo na definição das estratégias de desenvolvimento” (SIEDENBERG, 2004, p. 152). Na prática, entretanto, os Coredes encontraram um série de entraves político-partidários no exercício de suas atividades. Eles auxiliam no levantamento das demandas sociais da população e apontam as deficiências econômicas e estruturais de suas 28 regiões (Anexo B), porém não são capazes de neutralizar as decisões do mercado global, subjugado por políticas macroeconômicas nacionais, nem de concorrer com todos os outros Estados. Da mesma forma, as disparidades entre a alocação de investimentos públicos e privados também prejudicam as ações. Outra questão é a de que “Os Coredes já sabiam que seriam fáceis presas da síndrome da descontinuidade administrativa
tão presente na gestão pública brasileira” (ALLEBRANDT, 2010, p. 120). Apesar desses pontos negativos, Siedenberg (2004, p. 155) acredita que os Coredes são uma “[...] experiência bem sucedida de organização social em prol do desenvolvimento regional, apesar dos processos, mecanismos e instrumentos ainda carecerem de muitos ajustes”.
Quanto à divisão do recorte regional adotado pelos Coredes, Allebrandt (2010, p. 107) lembra que “[...] do ponto de vista do planejamento ou da programação administrativa o fato de existirem tão diferentes formas de delimitar as regiões torna mais complexa a atividade de mobilizar a sociedade regional com vistas ao desenvolvimento endógeno”. Nesse sentido, para que uma região tenha bem delimitado seu planejamento do desenvolvimento, o sentimento de pertencimento dos municípios que integram uma comunidade é um elemento crucial, ou seja, o protagonismo local e as ações humanas é que irão resultar no desenvolvimento. “O desenvolvimento é feito pelas pessoas, depende do sonho, do desejo, da vontade, da adesão, das decisões e das escolhas das pessoas” (id., p. 108).
Para esta pesquisa, cuja linha de pesquisa está na gestão empresarial, englobando a gestão da inovação e do design, o universo amostral escolhido será o de empresas da região Fronteira Noroeste, conforme a subdivisão dos Coredes, como será melhor apresentado no capítulo 3.