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2.1 REFLEXÕES SOBRE O DESENVOLVIMENTO

2.1.5 O desenvolvimento sob o olhar da Teoria da Complexidade

Ao se observar as mais diversas situações de desenvolvimento, cases de sucesso ou modelos e padrões de gestão, depara-se com uma heterogeneidade de situações, surgindo o questionamento se seria possível importar soluções de uma realidade para outra, a fim de potencializar determinada capacidade local. Antes de qualquer coisa, convém analisar os processos históricos deste local, além de seguir uma metodologia adequada para uma investigação mais séria e aprofundada. Nesse sentido, as análises de situações de desenvolvimento podem ser norteadas por alguns procedimentos metodológicos baseados na Teoria da Complexidade, que pode auxiliar na compreensão das realidades locais para a busca de uma possível intervenção no processo de desenvolvimento.

Nesta nova forma de se fazer ciência o objetivo do conhecimento deve ser o de propor a dialogar com o mundo e suas incertezas, em vez de procurar desvendar todos os segredos do mundo, pressupondo um universo regido por leis matemáticas e invariantes numa visão determinista que promete prever os efeitos a partir do conhecimento das causas (BASSO, 2012, p. 106-107).

Dessa maneira, para se compreender os processos do desenvolvimento local e propor novas estratégias, deve-se ter em mente que é necessário, baseado na Teoria da Complexidade, partir de uma premissa maior: a compreensão da realidade através de uma análise que parte da observação direta. O estudo deve analisar as esferas da realidade em níveis hierárquicos, ou seja, da situação mais ampla para a mais particular, dos aspectos mais gerais da realidade, para os mais específicos, realizando uma síntese dos aspectos mais relevantes de cada nível. Essa análise sistemática dos fenômenos reais deve buscar, também, através de um enfoque histórico, uma explicação e não uma mera descrição da fotografia observada. Como as situações são compostas por uma diversidade de mecanismos, deve-se ter o cuidado de não cair em generalizações, evitando as médias estatísticas que acabam homogeneizando o panorama, impedindo que se detectem características únicas e importantes para a compreensão desta realidade (BASSO, 2012).

Para que se possa explicar uma realidade complexa, deve-se compreendê-la e ter um contato direto com a mesma. Ao se caracterizar um dado processo de desenvolvimento, busca-se entender a evolução da região em questão, aconselhando-se, nesse caso, a se definirem tipologias de atores ou agentes econômicos, sociais e políticos, passo esse que já deve ter sido estruturado na etapa histórica anteriormente realizada, pois assim se identificam os processos de diferenciação. Dessa forma, conforme Basso (2012), se procura fazer uma caracterização técnica e econômica dos sistemas produtivos e observar como evoluíram ao longo do tempo. Feita esta caracterização, poderá ser definida uma estratégia de desenvolvimento, buscando melhorar as condições de reprodução social dos atores e agentes econômicos e da sociedade como um todo.

A cena contemporânea tem colocado em xeque muitos paradigmas amplamente aceitos pela comunidade acadêmica, apresentando um panorama permeado de incertezas e caos, bifurcações e mudanças de trajetórias, imprevisibilidades e irreversibilidades, algo que Ilya Prigogine5 já afirmava ao dizer que qualquer sistema é normal na instabilidade e no caos, pois a natureza é aberta, imprevisível e indeterminista, tornando-se cada vez mais difícil determinar leis gerais para a mesma. Esta contínua construção do universo, que envolve destruição e criação aparentemente infinita, é a premissa maior que Prigogine tenta demonstrar, em uma tentativa de aliar ciência e filosofia (WHEATLEY, 2006).

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“Na química, Ilya Prigogine recebeu o prêmio Nobel de 1977 por seu trabalho que demonstrava como certos sistemas químicos se reorganizam numa ordem de nível mais elevado quando se vêem diante de mudanças ambientais. [...] Ele demonstrou que todo sistema aberto tem a capacidade de reagir à mudança e à desordem reorganizando-se num nível mais elevado de organização. A desordem passa a desempenhar um papel fundamental, torna-se um aliado capaz de levar um sistema a se auto-organizar em novas formas de existência” (WHEATLEY, 2006, p. 34).

Se a ciência é uma metamorfose, assim é a vida, algo que a Teoria da Complexidade tem buscado demonstrar e enfatizar, através de abordagens históricas e sociológicas, os aspectos circunstanciais e imprevisíveis do comportamento social, colocando “[...] sob suspeita a simetria, a coerência, a estabilidade e a precisão” (CARVALHO, 2003, p. 217- 218). Conforme Baumgarten (2006a), o paradigma da ciência moderna amplamente baseado na razão e no controle vem sendo discutido pela complexidade como uma alternativa ante as incertezas do mundo contemporâneo, considerando-se que a natureza e a sociedade sempre foram complexas.

Enfim, a perspectiva da complexidade, com seus diálogos e práticas interdisciplinares e seu pensamento estratégico parece ser uma boa forma de lidar com as incertezas do mundo contemporâneo que é, sem a menor dúvida, complexo. O essencial é não perder de vista que os poderes preditivos da ciência são limitados pelas características complexas da própria realidade empírica social e/ou natural (BAUMGARTEN, 2006a, p. 22).

Prigogine buscou compreender a dinâmica dos sistemas longe do equilíbrio, descobrindo a ordem na desordem, que o tempo é irreversível e indica probabilidades, nunca certezas, em virtude dos desvios e bifurcações que acabam gerando novas ordens (ALMEIDA, 2004). A indeterminação do futuro do universo, imerso na incerteza, como acreditava Prigogine, é a mesma da história humana, pois possuem a mesma dinâmica, desvios e flutuações: “Eu diria que a criação do mundo é a criação da liberdade. A liberdade, porque essas moléculas reais podem ir em todos os sentidos, criar estrutura, especialmente estruturas dissipativas, logo, a vida e o homem, as culturas humanas” (ALMEIDA, 2004, p. 78-79). Seguindo esta linha de pensamento, surgem as propriedades emergentes, ou seja, estados já presentes nos sistemas que se manifestam e formam bifurcações. Como o ser humano é consciente, “[...] sobre nós recai o peso de assumir ‘a escolha, a liberdade e a responsabilidade’ diante da trajetória incerta das sociedades humanas. ‘A condição humana reside em abrir-se à possibilidade da escolha. Pensar o incerto é pensar a liberdade’, diz Prigogine” (ALMEIDA, 2004, p. 79). Dessa maneira,

Os conceitos de bifurcação (o que é da ordem do acontecimento novo) e o de flutuação (o que diz respeito ao não previsível que está em potencial) constroem as bases epistemológicas do pensamento prigoginiano e se constituem em ferramentas para a emergência das ciências da complexidade (ALMEIDA, 2004, p. 79).

Para Prigogine, a história é uma sucessão de bifurcações, ou seja, de rupturas, mudanças de direção, “[...] é do impulso da bifurcação que advém o fenômeno novo, a nova interpretação, a originalidade da pesquisa [...]”, reafirmando a descontinuidade (ALMEIDA, 2004, p. 84). Assim, pode-se dizer que fazer ciência é provocar bifurcações, mudar a rota dos

pensamentos, quebrar paradigmas. Só assim o homem poderá ser criativo e inovador, afinal, se continuar fazendo a mesma coisa, sempre obterá os mesmos resultados.

Como a bifurcação é um ponto de mudança de comportamento observado ao longo de uma evolução, é necessário que se faça uma análise histórica para buscar a compreensão das continuidades e descontinuidades de um sistema. Sabe-se que existem momentos de ordem, equilíbrio e certezas, os quais possibilitam certas previsões, até o momento quando ocorre uma bifurcação, ou seja, o sistema torna-se instável e desordenado. São justamente esses acontecimentos que geram “[...] momentos de instabilidade, que precisam ser compreendidos para que se possa produzir uma explicação coerente sobre a evolução de qualquer sistema vivo” (BASSO, 2012, p. 108).

Dessa forma, a Teoria da Complexidade ajuda a compreender as incertezas do mundo, apresentando as propriedades emergentes dos sistemas, que geram as bifurcações e tornam o mundo imprevisível. É isso que Basso (2012) tenta explicar quando diz que não se pode prever a evolução certeira de um sistema, mas se pode compreender sua evolução histórica, a partir das propriedades que emergem nos pontos de bifurcação, provocadas por instabilidades estruturais e pela própria dinâmica do sistema.

Os processos evolutivos, caracterizados por mudanças, inovação, diversidade e surpresas, são, portanto, tipicamente abertos. [...] Na medida em que os processos evolutivos representam o surgimento de características novas no sistema, inclusive por meio de mudanças das relações entre seus componentes, a projeção do seu comportamento futuro como uma simples extensão do passado torna-se problemática (BASSO, 2012, p. 110).

A desordem observada nos sistemas, portanto, pode ter um aspecto tanto negativo, quanto positivo. Negativo, pois pode ser destrutivo e dificultar o funcionamento do sistema; positivo, pois faz com que esse mesmo sistema aprenda a se auto organize, o que o torna cada vez mais complexo.

[...] as estruturas dissipativas demonstram que a desordem pode ser uma fonte de nova ordem, e que o crescimento surge do desequilíbrio, e não do equilíbrio. As coisas que mais tememos nas organizações – rupturas, confusão, caos – não precisam ser interpretadas como sinais de destruição iminente. Em vez disso, essas condições são a fonte primordial da criatividade (WHEATLEY, 2006, p. 43).

Para que se possa pensar em estratégias de desenvolvimento, é fundamental a compreensão do funcionamento dos sistemas a partir desses conceitos, observando que nem todas as possibilidades de desenvolvimento se realizam efetivamente. Vive-se em um mundo flutuante, que pode caminhar em diferentes direções, pois ele é livre, errante. Assim é a criatividade humana, que vislumbra caminhos dos mais diversos, nunca o mesmo, nunca segue uma ordem, uma receita, uma certeza. A ciência discute os paradigmas, pois não faria

sentido segui-los, mas buscar novas situações potenciais de desenvolvimento e entendimento do mundo através de uma liberdade exploratória. Se uma partícula é instável, assim o é o ser humano e suas atividades, como demonstrou o pensamento de Prigogine.

[...] só a liberdade humana pode dar limites aos empreendimentos da razão: liberdade transcendental do sujeito kantiano, que dá sentido ao “dever” em que as ciências só podem descrever o homem como sujeito ao encadeamento das causas e dos efeitos; liberdade das sociedades humanas, que devem escolher seus fins ali onde as ciências só podem definir os meios (PRIGOGINE e STENGERS, 1992, p. 194).

A realidade dos sistemas sociais existe independente do conhecimento que se tenha sobre ela, ou seja, o mundo natural ou social está aí e é o mesmo para todos, o que muda são as teorias e interpretações que se faz sobre ele. Constata-se, assim, uma assimetria histórica entre estruturas e prática sociais – as estruturas existem antes das ações, as sociedades existem antes dos indivíduos – isso condiciona ou constrange as ações humanas, pois já se entra em um sistema dado (mesmo podendo subvertê-lo). É o que explica Resende (2009, p. 28): “[...] as estruturas com as quais um ator social lida hoje foram conformadas em ações anteriores de atores sociais que o antecederam”. Talvez aí se possa buscar uma compreensão de práticas arraigadas nas ações humanas, muitas vezes difíceis de serem abertas e transformadas, mais ainda quando se fala em atividades criativas, em um mundo dominado pela produção e resultados numéricos. Pode-se destacar, outrossim, que a transformação social se dá na coletividade, no interesse compartilhado de grupos sociais, e não na esfera pessoal e isolada (BASSO, 2012).

[...] o desenvolvimento pode ser entendido como um processo aberto e evolutivo, que ocorre em sociedades interpretadas como estruturas dissipativas, o que implica reconhecer que as estruturas sociais emergem fundamentalmente a partir das interações locais entre seus constituintes, e que sua trajetória não pode ser prevista, o que descarta a possibilidade de um planejamento centralizado eficaz (SILVA NETO e BASSO, 2010, p. 322-323).

Moraes (2008) relaciona moda e design com a complexidade afirmando que a mudança de cenários estáticos para ambientes dinâmicos, imprevisíveis e repletos de códigos tem dificultado a compreensão da contemporaneidade. Nesse sentido, abre-se espaço para que o design possa revelar novas experiências de consumo, colocando-se como estratégia de estímulo de vendas e de diferenciação. Assim, as áreas do conhecimento sustentadas por interpretações de cenários estáticos com dados previsíveis e exatos “[...] entram em conflito com a realidade do cenário mutante atual, que se apresenta permeado de mensagens híbridas e códigos passíveis de interpretações” (MORAES, 2008, p. 156-157). O consumidor, nesse caso, é mais difícil de ser detectado e as pesquisas mercadológicas devem ter maior

capacidade de interpretação de sinais ao invés da busca por dados estatísticos. O caráter holístico, transversal e dinâmico do design torna-se uma alternativa na decodificação da realidade contemporânea, interagindo com áreas menos objetivas e exatas e mais relacionadas no âmbito do comportamento humano em fatores estéticos e psicológicos, tradicionalmente pouco envolvidos na concepção de artefatos industriais.

A moda do Brasil, dentro desse contexto, pode apresentar uma nova abordagem transversal de estética, que pesquisa, interpreta e produz novos significados e significâncias de estilo e comportamento, que metaboliza diferentes saberes e sabores e ainda promove novas linguagens e conteúdos (MORAES, 2008, p. 160).

Conforme Basso (2012), a compreensão da realidade busca, através de métodos científicos adequados na compreensão de sua complexidade, identificar linhas estratégicas de desenvolvimento, bem como uma intervenção nestas, a partir da promoção das propriedades sistêmicas que fazem com que as sociedades evoluam. Compreendendo esse sistema da vida, compreende-se também a criatividade humana, que nunca segue as certezas, pois já se sabe que elas não existem efetivamente. A criatividade é o combustível da vida, o olhar que ao mesmo tempo guia e acompanha as bifurcações, propõe saídas e instiga rupturas. Isso só é possível se o indivíduo possui liberdade e coragem de quebrar conceitos e percorrer novos caminhos. Para Sen (2000), a expansão das liberdades substantivas das pessoas é o principal fim e o principal meio do desenvolvimento.

O desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agente. A eliminação de privações de liberdades substanciais, argumenta-se aqui, é constitutiva do desenvolvimento (SEN, 2000, p. 10).

A necessidade de segurança faz o homem buscar a estabilidade e a certeza – talvez por isso seja tão difícil romper amarras. Por isso, vive-se em um mundo ora certo, ora incerto, com teorias estruturadas e verdades desmentidas. É isso que Almeida (2004, p. 83) propõe: “Podemos e devemos sair da linha, inventar novos caminhos, anunciar conhecimentos proibidos, discutir hipóteses não plausíveis, ideias inacabadas, impertinentes, ou ir no contrafluxo do estabelecido”. Da mesma forma pensa Wheatley (2006):

Para ser inventores e descobridores, precisamos ter a coragem de nos desapegar do velho mundo, de renunciar a muita coisa que temos prezado até agora, de abandonar as nossas interpretações sobre o que funciona e o que não funciona. É necessário aprender a ver o mundo de uma maneira nova e revigorada (WHEATLEY, 2006, p. 28-29).

Portanto, nenhuma organização se modifica baseada na imposição de algum modelo importado; é necessário o envolvimento entre os indivíduos, em um apoio mútuo pela sua

essência inventiva, através de experiências que mostrem o que pode ou não funcionar para cada situação (WHEATLEY, 2006). A criatividade, nesse caso, é fator imprescindível para que o desenvolvimento possa ser estudado e ampliado, como se verá na sequência.