2.2 O DESIGN E A CADEIA PRODUTIVA DA MODA
2.2.5 O design de moda e sua cadeia produtiva no Brasil
O design é um amplo sistema estratégico de gestão de desenvolvimento de novos produtos, como já exposto. Os produtos de vestuário (peças de roupa e acessórios) estão atrelados a um sistema maior, a moda, que envolve o ser humano e suas necessidades estéticas, socioculturais, econômicas, etc. (RECH, 2002). O modelo de fluxo vertical de
Figura 15 – Modelo de fluxo vertical de Behling
Fonte: Adaptado de Costa (2013, p. 25)
O modelo da Figura 15 demonstra como acontece a direção da mudança da moda levando em conta a saúde econômica do país, a idade média da população e a presença ou ausência de regulamentações do governo. Dessa maneira, a saúde econômica da população, quando em depressão, pode gerar regulamentações do governo com mudanças lentas ou, então, distorcendo e acelerando a mudança para gerar prosperidade.
Rech (2006) destaca que a indústria têxtil e do vestuário constitui a quarta maior atividade econômica mundial, depois da agricultura, turismo e informática. A cadeia produtiva da moda divide-se, basicamente, em dois setores, ambos interdependentes: a indústria têxtil e a indústria de confecções, cujas atividades estão entre as mais antigas da humanidade. O fluxograma inicia-se pela primeira, que produz a matéria prima, seguindo-se para o planejamento, desenvolvimento, venda e distribuição de produtos confeccionados. Assim, “A cadeia é extremamente heterogênea no que diz respeito às matérias primas utilizadas, processos produtivos existentes, padrões de concorrência e estratégias empresariais” (MENDONÇA et alii, 2013, p. 87).
A cadeia produtiva da moda expressa o sistema têxtil e de confecção, governada pelo comprador e caracterizada por elevado grau de complementaridade, da qual depende boa parte do sucesso que o produto obtém no mercado. Engloba diversos setores produtivos, desde as atividades manufatureiras de base até os serviços avançados de distribuição, e apresenta certas especificidades: heterogeneidade estrutural e tecnológica; segmentação produtiva; relações de subcontratação; bifurcação entre as atividades produtivas (materiais) e as funções corporativas (imateriais). Atualmente atravessa um período de profundas mudanças, face ao processo de globalização e a abertura de novos mercados. Os componentes mais sensíveis dessas transformações são: o deslocamento da produção devido aos altos custos operacionais; a exasperação da concorrência; a redução do ciclo de vida dos produtos de moda; o incremento veloz das tecnologias e modificações complexas na estrutura dos mercados (BRASIL, 2012, p. 8).
Vogt (2003) explica que a indústria têxtil foi uma das primeiras a se instalar no estado e no país durante as primeiras décadas do século XX, exercendo a liderança na indústria de transformação e destaca sua importância no desenvolvimento da economia brasileira, principalmente entre 1914 e 1950. Esta cadeia heterogênea, que possui aproximadamente duzentos anos de história (SINDITÊXTIL, 2012), é a segunda maior empregadora da indústria de transformação, perdendo apenas para alimentos e bebidas (juntos). É, também, a segunda maior geradora do primeiro emprego. As trinta mil empresas registradas no país possuem um parque produtivo de confecção que é o quarto maior do mundo. Mendonça et alii (2013) apontam o Brasil como o quinto maior produtor têxtil do mundo, representando 16,4% dos empregos e 5,5% do faturamento da indústria de transformação. A moda brasileira está entre as cinco maiores semanas de moda do mundo. Além disso, de acordo com Sebrae (2013b) o Brasil é o maior país do mundo em quantidade de cursos superiores de moda, já ultrapassando 40 cursos segundo o Ministério da Educação. O segmento têxtil/vestuário é o segundo setor maior empregador do país, oferecendo cerca de 1,5 milhões de empregos. É a quinta mais importante cadeia têxtil do mundo, fica atrás apenas da China, Índia, Estados Unidos e Taiwan. Outro dado importante é que 90% dos estabelecimentos do setor são compostos por micro e pequenas empresas, sendo que as líderes de grande porte estão nos elos da cadeia de tecelagem e fiação, que exigem maior tecnologia (ABDI e UNICAMP, 2008). A indústria química, grande responsável por abastecer a indústria têxtil, principalmente com as fibras artificiais e sintéticas e os produtos para estamparia, é o elo da cadeia que mais investe em pesquisa e desenvolvimento e é composta por grandes empresas transnacionais. Quanto aos maquinários utilizados na indústria têxtil e de confecção, os grandes fornecedores são Alemanha, Japão, Suíça e Itália (VOGT, 2003).
O segmento da moda é muito amplo e complexo e envolve diversas cadeias produtivas: a cadeia produtiva do vestuário, a têxtil e as de diversos outros produtos tais como joias, bolsas, calçados, chapéus e acessórios. Nesse contexto, as atividades de design recebem o nome de fashion design e abrangem toda a extensão das cadeias produtivas, numa abrangência que não encontra paralelo em nenhum outro segmento. A demanda por design existe não apenas na indústria que desenvolve o novo produto, mas também no fornecedor que desenvolve estampas, fivelas, botões e dezenas de outros itens, e desce por toda a cadeia envolvendo o design de vitrines, a produção de desfiles, a arquitetura de lojas, o design de embalagens e muito mais (CENTRO DE DESIGN PARANÁ, 2006, p. 10).
A Figura 16 ilustra, de modo sintetizado, as etapas da cadeia produtiva da moda, composta por diferentes setores da economia, sendo “[...] impossível dissociar cadeia produtiva têxtil e cadeia produtiva da moda, pois estão interligadas e conectadas” (MENDONÇA et alii, 2013, p. 91). Pode-se perceber, nesta figura, que a cadeia têxtil
atravessa o setor econômico primário (agricultura – beneficiamento de fibras naturais), secundário (transformação industrial – produção de fibras químicas, fios e confecção de peças) e terciário (distribuição e serviços), ramificando-se em cada elo em inúmeras empresas. Assim, conforme Sebrae (2013a), as principais etapas da cadeia são: a produção de matéria prima básica (fibras), a fiação, a tecelagem, o beneficiamento dos tecidos, a confecção (abrange criação, modelagem, corte, costura e acabamento) e o mercado (canais de distribuição). Costa (2013) coloca, ainda, o setor de aviamentos como parte da cadeia de suprimento da moda, que produz uma extensa gama de botões, zíperes, ganchos, etiquetas e demais produtos que compõem o vestuário, além do tecido.
Figura 16 – A cadeia produtiva da moda
Fonte: Uniethos (2013, p. 35)
O Brasil é autossustentável em sua principal cadeia, que é a do algodão, com produção de 1,5 milhão de toneladas, para um consumo de 900 mil toneladas. “Apesar de ser um dos grandes produtores mundiais, em especial de tecidos de jeans e malha de algodão, o Brasil apresenta ainda baixa participação na corrente de comércio internacional” (MENDONÇA et
alii, 2013, p. 89). Com a descoberta do Pré-sal, o país deixará de ser importador para se tornar
potencial exportador de fibras para a cadeia sintética têxtil mundial.
Como destaca Rech (2006), esta cadeia é um dos pilares da industrialização nos países pobres ou em desenvolvimento, pois suas unidades de produção não requerem vultuosos
custos iniciais. Muitas etapas produtivas têm sido deslocadas para regiões onde o custo de trabalho é menor e as grandes empresas que comandam a cadeia globalmente focam suas atividades para aspectos como marca, desenvolvimento de produto, canais de distribuição e comercialização. Assim, com a “[...] concorrência internacional mais acirrada, a indústria têxtil e de confecção brasileira enfrenta o desafio de elevar sua competitividade de maneira a aumentar sua inserção no mercado internacional e preservar espaços no mercado doméstico” (ABDI e UNICAMP, 2008, p. 15).
Conforme Jones (2005) a indústria química de fios e pigmentos precisa fazer uma definição com, pelo menos, dois anos de antecedência de suas propostas, visto que estão no topo da cadeia têxtil. Na sequência, a indústria de confecção e os designers definem suas propostas aproximadamente um ano antes de os produtos entrarem no mercado, pois quando uma nova estação do ano se inicia, os produtos de vestuário já devem estar plenamente produzidos e prontos para serem distribuídos ao varejo. Dessa forma, a pesquisa deve estar sempre em estágio mais avançado, pois os produtos que entram no mercado consumidor devem trazer novidades que irão estimular o consumo.
Figura 17 – Timing da moda
Com relação ao tempo que decorre ao longo desta cadeia, entre o lançamento de um novo produto até sua substituição, é necessário conhecer essa dinâmica, que acontece cada vez mais rapidamente e de acordo com os desejos dos consumidores, que é incerto e vulnerável (RECH, 2006). Para Cietta (2012) há um elevado risco nesse tipo de sistema de produção, por ser muito longo em termos temporários, em virtude da rapidez do consumo contemporâneo e do desejo por novidade.
Costa (2013) coloca que, tradicionalmente, as coleções de moda aconteciam em um ciclo de duas coleções ao ano (primavera/verão e outono/inverno). Atualmente, não há uma designação sazonal para o desenvolvimento de novos produtos, ele acontece constantemente, a fim de satisfazer as crescentes necessidades de consumo da população. Nesse sentido, “A tendência em direção a um número maior de coleções com períodos de vigência trouxe considerável volatilidade à moda, gerando problemas no planejamento do sortimento [...]” (COSTA, 2013, p. 28).
O Brasil é, ainda, a última cadeia têxtil completa do ocidente, conforme Sinditêxtil (2012). Considera-se cadeia têxtil completa aquela que vai da produção das fibras (como a plantação do algodão) até os desfiles de moda, passando por fiação, tecelagem, beneficiamento, confecção e varejo. O país também é referência mundial nos segmentos de moda praia, jeanswear e decoração, tendo crescimento significativo também no fitness e na
lingerie. “Esses dados demonstram o forte posicionamento ocupado pelo país no setor da
moda, estimulando o enfoque às pesquisas que busquem a melhoria dos processos de gestão e de produção” (MENDONÇA et alii, 2013, p. 89).
Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT, 2011), o faturamento da cadeia produtiva da moda, referente ao ano de 2011, foi de US$ 67 bilhões, as exportações giraram em torno de US$ 1,42 bilhão, contra US$ 6,17 bilhões de importações. O saldo da balança comercial, portanto, foi de US$ 4,74 bilhões negativos. Os investimentos no setor foram de US$ 2,5 bilhões e a produção média de confecção (vestuário, cama, mesa e banho) foi de quase 10 bilhões de peças.
A ABIT (2011) aponta dados significativos do setor, através de alguns pontos: a relevância do setor, os desequilíbrios e ameaças, as barreiras à competitividade e as mobilizações possíveis para o desenvolvimento.
Com relação à relevância do setor, segundo A ABIT (2011), o Brasil participa com 0,6% do comércio têxtil e de confecção mundial e o consumo interno terá um aumento de cerca de 50% entre 2011 e 2016. Além disto, nenhum setor da indústria de transformação tem maior potencial de gerar empregos do que o setor têxtil e de confecção, bem como nenhum
outro setor da economia brasileira contribuiu mais para o controle da inflação desde o início do Plano Real em 1994. Ainda de acordo com a ABIT (2011), a moda representa quase 5% do PIB da indústria de transformação e mais de 10% dos empregos nesta atividade econômica, sendo 8 milhões de empregos diretos e indiretos, com trinta mil empresas registradas.
Figura 18 – Relevância econômica do setor têxtil e de confecção
Fonte: ABIT (2011)
Os desequilíbrios e ameaças apontados pela ABIT (2011) relacionam-se à entrada de produtos oriundos da Ásia, que aumentou dezesseis vezes entre 2003 e 2011. A forte penetração de importados seria fruto da falta de isonomia nos fatores sistêmicos de competitividade. Em síntese, os limitadores da competitividade brasileira seriam: a carga tributária, a deficiência na defesa comercial, o custo de capital elevado, o custo da infraestrutura, o crescimento das importações e o desequilíbrio cambial. As saídas para esse panorama seriam o fortalecimento do elo confecção, a defesa comercial, as negociações internacionais, a tributação, as compras governamentais e o custo da infraestrutura.
A ABIT mantém convênios e programas estratégicos que buscam promover o posicionamento e a internacionalização da indústria da moda brasileira, com a implementação de ações de desenvolvimento da cadeia produtiva têxtil e de confecções. Infelizmente, esses
programas não chegam às regiões que não são oficialmente consideradas polos industriais (no caso do Rio Grande do Sul, além da serra gaúcha), embora se constate a enorme quantidade e variedade de indústrias instaladas no interior, como é o caso da região Fronteira Noroeste do Estado.
A fim de cumprir a missão de promover o desenvolvimento industrial e tecnológico brasileiro, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI, 2010) apresentou um programa de competitividade setorial, para contribuir com a articulação, construção, coordenação, monitoramento e avaliação de uma estratégia competitiva para a cadeia têxtil e de confecção, em um prazo de quinze anos, ou seja, até 2023. Dessa forma, partiu-se de um panorama setorial atual e de análises prospectivas para se traçarem rotas estratégicas e tecnológicas para o setor.
Rubbo (2013) relembra que há muitos polos de moda no Brasil, especializados em diferentes setores, desenvolvendo capacidades competitivas específicas. Esses polos são dependentes de situações macroeconômicas e acabam sendo afetados pela concorrência com outros produtos importados, o que ocorreu com muita ênfase na década de 1990, com a liberação das importações, que teve grande impacto na indústria da moda, fazendo com que muitas empresas se deslocassem para o nordeste do país. Já o sudeste perdeu força na década de 2000 em virtude dos incentivos fiscais dos outros estados. No sul e centro-oeste as malharias tiveram uma queda no crescimento. Conforme Sebrae (2013a) pelo menos 773 empresas fecharam entre 1992 e 1997 e mais de 1 milhão de pessoas perderam o emprego. “Depois de muito rebuliço, de amargar planos econômicos, temporadas de falência e aperto, muito amadorismo e improvisação, o país parece ter despertado para um novo tempo” (DISITZER e VIEIRA, 2006, p. 11). Não há mais espaço para improvisos, mas sim para profissionalização.
Conhecer a cadeia produtiva permite que se distingam os pontos positivos e negativos da mesma, minimizando falhas ao longo do processo, enxergando novos mercados e possibilidades. Kontic (2012) expõe que a realidade da moda vai muito além que seus setores e sua cadeia, há um mecanismo de funcionamento de forte interação social entre os atores empresariais e entre o mundo e a sociedade, que criou redes sociais que devem ser analisadas na organização da atividade econômica. Assim, os processos de inovação na moda teriam relação direta com seus laços sociais, geradores de novas ideias e impulsos criativos. Já conforme Rech (2006), a partir de uma ampla análise da cadeia produtiva, a competitividade das indústrias de confecção se daria na melhoria da qualidade dos produtos, com modificações nos processos de projeto e produção, com oferta de produtos melhorados e
introdução de estratégias de marketing. O planejamento de produtos, neste caso, se torna fundamental, como apresenta o item a seguir.