2 POLÍTICAS DE SAÚDE E O MOVIMENTO DA REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA
3 O PROGRAMA QUALISUS
3.1 ASPECTOS HISTÓRICOS E POLÍTICOS
O QualiSUS é embasado nos princípios e diretrizes do movimento de Reforma Sanitária de 1986, formalizados na criação do Sistema Único de Saúde (SUS) pela Constituição Brasileira de 1988 (BRASIL, 1988).
Com base nos princípios6 acima mencionados e com o objetivo principal de subsidiar o Modelo Assistencial de Vigilância da Saúde aos usuários do SUS, buscou-se fortalecer o respeito à vida humana, aos valores éticos e morais vigentes e à melhoria do relacionamento entre profissionais de saúde e os usuários do sistema. Assim, foi instituído, no âmbito do SUS, o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH), mediante a Portaria nº 881, de 19/06/2001 (BRASIL, 2001a).
Ainda se ressalta, quanto ao PNHAH e sua importância para o QualiSUS, que este programa tem como objetivos criar, desenvolver e manter iniciativas humanizadoras dentro das organizações hospitalares. É um Programa de caráter progressivo e permanente, com
6 Os princípios norteadores do SUS, tais como Universalidade, Integralidade e a Participação Social (BRASIL,
vistas a estabelecer, gradativamente, a cultura da atenção humanizada aos usuários do SUS.
Mais, tarde, o PNHAH deu origem à Política Nacional de Humanização (HumanizaSUS), que propunha ampliar a sua prática, anteriormente centralizada na atenção hospitalar, para as práticas de atenção e gestão em todas as instâncias do SUS. Nesse contexto, está contemplado o Programa QualiSUS, que, assim como o HumanizaSUS, atua de forma sistematizada em todos os níveis de atenção às urgências
O HumanizaSUS7 se formalizou como política em 2003, com o objetivo de concretizar os princípios do SUS nas práticas diárias de atenção e de gestão, seja entre gestores, entre gestores e trabalhadores, ou entre trabalhadores e usuários dos serviços (BRASIL, 2004b).
Sendo o HumanizaSUS uma política que perpassa todas as políticas e todos os níveis de atenção à saúde, pode-se inferir que está também vinculada como à Política Nacional de Atenção às Urgências (PNAU).
A PNAU, assim como a Política de Humanização, visa a universalidade, a equidade e a integralidade na atenção aos usuários das unidades de urgência/emergência e tem sua base de atenção sincronizada com os princípios da humanização (BRASIL, 2003).
Pesquisas realizadas em 2002 e 2003 pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS), respectivamente, apresentaram os principais motivos da insatisfação dos usuários com relação aos serviços prestados pelo SUS, e as mais relatadas pela população estão atreladas aos serviços de urgência/emergência.
Segundo a mesma pesquisa, o cenário nos serviços de urgência/emergência contempla pequena quantidade de leitos de atendimento, usuários em demanda eletiva ocupando os leitos de urgência, grande demora no atendimento, atendimento não priorizando a gravidade ou grau de sofrimento do usuário, falta de organização da rede de atendimento para o devido encaminhamento dos casos, baixa resolubilidade da rede básica, além do baixo acolhimento existente nas unidades, bem como a não responsabilização da equipe pelos usuários (OPAS, 2005).
Considerando tal situação e a proposta do Ministério da Saúde de qualificar a Atenção Hospitalar de Urgência prestada aos usuários do SUS, surge o Programa QualiSUS, que prioriza o planejamento da reorganização dos hospitais de urgência/emergência, a partir
das premissas das políticas públicas do SUS e, em particular, das Políticas de Atenção às Urgências, de Humanização e de Educação Permanente. O Programa foi instituído por meio da Portaria nº 3.125, de 7 de dezembro de 2006 (BRASIL, 2006b).
O conhecimento do cenário supracitado e dos objetivos de qualificar a Atenção às Urgências de forma sistematizada motivou o Ministério da Saúde a definir a qualificação da atenção a saúde no SUS como uma prioridade do governo no Plano Nacional de Saúde (Pacto pela Saúde).
Em um primeiro momento, o programa QualiSUS é então considerado, pelo Ministério da Saúde do Brasil, uma das suas principais ações em face de se ter um programa conectado com atividades, tanto na área de saúde federal, como nas esferas dos governos estaduais e municipais.
Em um segundo momento o QualiSUS traz a reboque o “engajamento” desses governos para a melhoria de atendimento, em nível nacional, do usuário do SUS. A importância desse programa leva o Governo Federal a se solidarizar com os governos estaduais e municipais celebrando convênios8 que somam, estimadamente, um custo de quase meio bilhão de Reais.
Em um terceiro momento, comemora-se a internacionalização desse programa com a participação do Banco Mundial (BIRD) e com o apoio de sua diretoria, que, no início do ano de 2009, aprova financiamento da ordem de US$ 230 (duzentos e trinta milhões de dólares).
Segundo Diop e Makhtar (2009), esse empréstimo do Banco Mundial tem como propósito “apoiar um novo conjunto de mudanças com o objetivo de proporcionar aos municípios e estados [...] planejar e organizar a sua assistência de saúde de acordo com as condições locais, como bases para um sistema de gestão, e que este resulte em melhor integração das redes”.
Nas reflexões de seus diretores, o Banco Mundial teve, como motivação para assinatura e apoio de financiamento para o programa QualiSUS, a seguinte síntese de dados vinculados aos propósitos do programa QualiSUS e do BIRD: A organização de rede hospitalar federal, estadual e municipal voltada para os mesmos princípios e diretrizes; o programa tem um “volume de 2,2 milhões de pessoas beneficiadas”, e se estima, internacionalmente, que se deve evitar “mais de 10 mil mortes relacionadas às doenças não
transmissíveis”, o que promoverá, consequentemente, a redução de doenças/agravos à saúde no território brasileiro.
Economicamente, essa redução de doenças e agravos à saúde traz como contribuição uma economia de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos dez anos. Para o Banco Mundial, haverá benefício em quinze regiões, sendo dez em regiões metropolitanas e cinco em regiões não metropolitanas. Estima-se que se atenderá a áreas específicas com população em torno de 350 mil habitantes.
Por último, para o Banco Mundial, o programa QualiSUS é tanto singular para o Brasil, como um exemplo no âmbito mundial, agregando também como propósito: “Capacitar seus profissionais e modernizar instalações e equipamentos para atendimento a todos os níveis de atenção à saúde”.
No plano operacional, o Ministério da Saúde recomenda que se faça a avaliação organizacional da porta hospitalar de urgência de cada organização, considerando as suas especificidades, as relações com as unidades internas do hospital e com os serviços de saúde da região de abrangência, bem como o estágio de incorporação de estratégias constantes das políticas públicas vigentes nas unidades federadas.
Atenta-se que o QualiSUS, instituído mediante portaria ministerial, tem como finalidade qualificar a Atenção Hospitalar de Urgência no Sistema Único de Saúde (BRASIL, 2006b).
Esse programa representa a síntese das aspirações e necessidades da população quanto à acessibilidade, organiza a rede prestadora de serviços de saúde (federal, estadual ou municipal), atende o usuário conforme seu critério de gravidade e/ou grau de sofrimento, presta atenção à saúde humanizada, com base no Princípio de Integralidade e nas diretrizes do SUS.
Na esfera estadual, a gestão do QualiSUS na Bahia se compõe de um comitê gestor instituído por meio da Portaria nº 571, publicada no Diário Oficial do Estado da Bahia em 8 de março de 2007, e nomeado pelo Secretário da Saúde do Estado da Bahia, para a implantação do Programa (BAHIA, 2007).
No Estado da Bahia, para a implantação gestionária e operacional do programa QualiSUS, foram contempladas nove unidades hospitalares: cinco em Salvador e quatro outras distribuídas nos municípios de Lauro de Freitas, Feira de Santana, Ilhéus e Vitória da Conquista (BRASIL, 2005b).
dispositivos de classificação de risco, vínculo, resolutividade, integralidade e responsabilização entre trabalhadores, gestores e usuários na rede de serviços (BAHIA, 2007). Segundo Massaro e Abbês (2007), as singulares ações de acolhimento deverão ser realizadas por profissionais do serviço administrativo ou técnico, desde que tenham minimamente a capacidade de ouvir e de orientar o usuário para a melhor e mais rápida forma de atendimento, enquanto a distinção da ação de classificação de risco é privativa da enfermeira. Esta profissional reúne, entre outros atributos, a capacidade técnica na avaliação do risco, obedecendo aos protocolos assistenciais previamente estabelecidos.
Os mesmos autores ainda traduzem, em suas reflexões, que a proposta da metodologia QualiSUS prevê não só a melhoria da atenção nos sistemas de atendimento a urgência/ emergência, mas a melhoria de toda a estrutura, que envolve o atendimento ao usuário, contemplando desde o atendimento pré-hospitalar até a total reabilitação deste usuário. A implantação desse programa tem como resultado previsível serem os usuários adequadamente atendidos, com prioridade centrada na sua condição de risco/ sofrimento.
Infere-se que os usuários submetidos à classificação de risco e configurados como sem risco e assintomáticos, serão direcionados de forma adequada para o local da rede assistencial capaz de resolver seus problemas de saúde de forma preventiva. O usuário sintomático, e mesmo sem risco, será atendido na unidade que procurou inicialmente. Assim sendo, ocorreriam não apenas a minimização da demanda desnecessária nas unidades de urgência/emergência, mas também a sobrecarga dos profissionais, e, consequentemente, a diminuição da possibilidade de erros. Agregar-se-ia também valor qualitativo aos profissionais dessas unidades assistenciais, os quais, participando da política de educação permanente, estariam mais bem qualificados para atender os usuários classificados como de urgência/emergência.
Em termos de gestão do QualiSUS, a determinação de objetivos estratégicos na alocação e otimização de recursos humano-sociais, tecnológicos e metodológicos deve levar a estabelecer, com eficácia, a gestão do programa supracitado de forma sustentável, cumprindo seu papel social e mantendo interface com a ambiência na área de saúde.
Nos âmbitos ideológico e de continuidade desse programa, o Governo Federal, em 2008, ratifica a continuidade do QualiSUS quando formaliza, por meio da Portaria nº 2.972, de 9 de dezembro, como prioridade, a organização e a qualificação de redes locorregionais de atendimento às urgências (BRASIL, 2008). Ainda pela mesma Portaria, são estabelecidos nos anexos os pré-requisitos para que outros serviços de urgência/emergência possam ser contemplados com esse programa.