CAPITULO V APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4. Funcionamento do Conselho
4.4. Assuntos discutidos dentro do conselho
No que respeita aos assuntos discutidos pelo conselho, os representantes dos professores apontaram desde o comportamento dos alunos até à relação entre professores e alunos. Alguns dos RPEE (RPEE.1, RPEE.2) referiram que o conselho tem priorizado os assuntos relacionados com o comportamento dos alunos, porque os membros do conselho e a direção tem notado a existência de muitos alunos que infringem o regulamento interno e cometem vários atos de indisciplina que contrariam a cultura da escola. Os representantes dos pais e DE também referiram que têm discutido os assuntos relacionados com o regulamento interno, precisamente pelo facto de os alunos não o cumprirem, e procuram em conjunto refletir em torno dos motivos que levam os atores escolares a não cumprirem com o regulamento. Estas reflexões do conselho sobre o regulamento parecem não ter uma grande influência na alteração do regulamento, pois, de acordo com as observações feitas, foi possível constatar que membros como os representantes dos pais e dos alunos apresentaram propostas como cobrança de multas para alunos com excessos de faltas e o diretor pedagógico reagiu dizendo que o regulamento já prevê as sanções para estes casos. Assim, podemos perceber que, apesar dos membros apresentarem as suas
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posições relativas ao regulamento, parece que os mesmos não conseguem influenciar ao ponto de mudá-lo e isto poderá significar que a escola não pode contornar as normas estabelecidas e/ou que ela quer manter o regulamento como ele foi concebido, demonstrando assim uma certa centralização do poder nas mãos da direção (Formosinho, 2005).
O RA também referiu que existem muitos alunos que demostram comportamentos indesejáveis. Este referiu que tais alunos chegam mesmo a consumir bebidas alcoólicas, razão pela qual o conselho tem centrado a sua atenção nestas questões. Esta preocupação por parte dos representantes dos pais e dos alunos em discutir os assuntos relacionados com o comportamento dos alunos mostra que estes estão inteirados dos problemas vividos pelos alunos na escola e que percecionam o conselho como um espaço onde se pode discutir e encontrar possíveis soluções para tais problemas.
Outros membros entrevistados, o RPEE.3 e RPEE.4, apontaram como assuntos discutidos dentro do conselho a relação professor-aluno, a relação entre professores e membros da escola, os modos de ensinar e o aproveitamento escolar dos alunos. Os representantes dos pais disseram que a direção tem apresentado ao conselho relatórios semestrais sobre o aproveitamento escolar dos alunos e procura discutir com os membros as soluções possíveis para os alunos que apresentam um baixo aproveitamento. Nas observações feitas nas reuniões e pelos testemunhos de alguns membros do conselho foi possível constatar também que os membros do conselho têm avançado com algumas propostas de solução para o problema do baixo aproveitamento escolar dos alunos:
“Temos um relatório de como o semestre funcionou, quais foram as dificuldades e procurarmos formas de como sanar aquelas dificuldades relacionadas com o aproveitamento pedagógico dos alunos.” (RPEE.4)
A diretora da escola e o diretor pedagógico referiram, como assuntos discutidos pelo conselho, o acompanhamento dos educandos, o balanço do semestre e a melhoria da escola. A DE disse que conta com a ajuda do conselho para a identificação das necessidades da escola, pois nem tudo o que precisa ser melhorado deve partir da direção, os pais e encarregados e a comunidade devem ser envolvidos para que as decisões reflitam a sensibilidade da maioria. Contudo, os dados das
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observações e das atas das reuniões não confirmam que os membros em algum momento apresentaram propostas de melhoria da escola.
Foi possível também constatar nas observações e atas das reuniões que os assuntos discutidos prendem-se com aspetos ligados às aprendizagens e aproveitamento escolar dos alunos, ao envolvimento dos pais na vida da escola e a questões financeiras e organizacionais. Esta restrição dos assuntos discutidos no conselho poderá estar ligada ao facto da escola estar dependente de um poder central e ter que cumprir muitas das orientações provenientes do ministério da educação, como os métodos de ensino, o tipo de aluno e o currículo. Esta situação parece indicar que, apesar do conselho ser um órgão descentralizado com poderes de tomada de decisão na escola, muitos dos assuntos relacionados com ela estão dependentes do ministério. Assim, esta funciona mais como um serviço local do Estado (Formosinho, 1981), mas com participação de membros da comunidade, sobretudo pais e mães, na gestão de aspetos do seu funcionamento diário. Esta dependência da escola em relação ao poder central parece cercear a autonomia que supostamente o conselho de escola tem em relação à tomada de decisão e deixa claro que estamos perante um sistema de gestão centralizada desconcentrada. Formosinho (2005) apresenta duas ordens de razão para esta dependência de poderes: uma primeira prende-se com o facto dos poderes delegados aos agentes inferiores pertencerem por direito ao superior, que pode alterar a decisão tomada por estes a qualquer momento e até retirar os poderes delegados; a segunda razão consiste no facto de que tais poderes referem-se a tarefas predominantemente técnicas, mantendo-se concentradas no centro todas as decisões de natureza política, legislativa ou regulamentar.
Quando questionamos os membros sobre a forma de discussão dos assuntos dentro do conselho, os representantes dos pais afirmaram que os assuntos são discutidos com base na agenda que é previamente formulada. O RPEE.1 e o RPEE.3 disseram que a diretora da escola e o presidente do conselho, antes de cada reunião, distribuem uma convocatória acompanhada da agenda da reunião e, quando inicia a reunião, os assuntos são discutidos com base nos pontos constantes na agenda e, no final, nos "[assuntos] diversos", os membros são convidados a exporem os problemas identificados para discussão:
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“Mas também existem outros assuntos que vão surgindo à medida que as discussões vão avançando.” (RPEE.2)
Também podemos ver pelo testemunho acima que existem outros assuntos que vão emergindo à medida que as discussões vão sendo geradas, ou seja, parece que não existe um formato padrão para discussão dos assuntos dentro do conselho. Nalgumas vezes, os membros seguem de forma rígida os pontos da agenda e, noutras vezes, há assuntos que surgem e que não estavam previstos na agenda, mas que são discutidos. Parece assim que a ordem de trabalho aqui é definida pelos membros não numa forma determinista onde os pontos da agenda são seguidos rigidamente, mas a definição dos assuntos a discutir dentro do conselho de escola acontecem de modo desarticulado e de acordo com a necessidade ou a importância do assunto que os indivíduos lhe atribuem no momento em discussão e, portanto, permite a compreensão do outro lado da organização em que os processos e as ações são orientados pelo lado informal como no modelo da anarquia organizada (Lima, 2008).
Nas observações feitas e na análise das atas das reuniões, foi possível constatar que os assuntos, primeiro, são tratados mediante os pontos da agenda e também existem outros assuntos que os membros vão colocando à medida que os pontos da agenda vão sendo discutidos, para além dos "diversos" onde aos membros é dada a oportunidade de colocarem os assuntos que lhes são colocados pelos alunos, pais e professores.