4.4 Figura¸c˜ oes e Causalidade
4.4.1 Atividade e passividade
A distin¸c˜ao previamente apontada entre a configura¸c˜ao e a quantidade de uma qualidade ´e relevante n˜ao somente face `a discuss˜ao sobre como opera a representa¸c˜ao de uma qualidade;34ela torna-se relevante tamb´em no ˆambito da aplica¸c˜ao da disciplina a fenˆomenos naturais, uma vez que por meio dela ´e poss´ıvel explicar como podem duas qualidades ter a mesma quantidade total (i.e., serem designadas por figuras de ´areas iguais), e ainda assim afetarem de modo diverso o sujeito que informam. A qualidade “calor”, por exemplo, pode ser igualmente intensa em dois corpos diferentes e ainda assim ser mais ativa em um que no outro, devido `a diferen¸ca de sua configura¸c˜ao ou disposi¸c˜ao em cada um desses corpos.35 Assim:
Se existe uma qualidade cujas part´ıculas s˜ao proporcionais em intensidade a pequenas
34 Isto ´e, n˜ao somente enquanto impede a conclus˜ao de que Oresme n˜ao diferencia qualidades de
quantidades.
35 “Pois se tornou conhecido por experiˆencia que uma qualidade uniformemente estendida por um
sujeito, e.g., calor, age diferentemente e altera o tato diferentemente do que faz uma qualidade igual [cu-
jas part´ıculas variam como se segue:] uma de suas part´ıculas ´e acrescida em intensidade, uma segunda,
decrescida em intensidade, uma terceira acrescida e assim por diante, alternadamente, pelas part´ıculas
do sujeito, de modo que esta qualidade seria disforme e, de acordo com a imagina¸c˜ao proposta, seria
figurada por meio de pequenas pirˆamides.” / “Nam expertum est qualitatem uniformiter extensam
in subiecto, ut puta caliditatem, alitera gere et tactum aliter immutare quam equalis qualitas cuius una particula esset intensa, alia remissa, alia intensa, et sic alternatim secundum particulas subiecti, ita ut illa qualitas esset difformis et iuxta ymaginationem positam ad modum parvarum pyramidum figurata.” De configurationibus, I.xxii.
pirˆamides, ela ´e conformemente mais ativa, outras coisas sendo iguais, que uma quali-
dade igual que seja simplesmente uniforme, ou que seja proporcional `a outra figura n˜ao
t˜ao penetrante. Ou, se existem duas qualidades e as part´ıculas de uma forem proporcio-
nais a pirˆamides mais agudas que as part´ıculas da outra, a qualidade correspondente `as
pirˆamides mais agudas seria mais ativa, outras coisas sendo iguais, e similarmente para
outras figuras.36
Oresme conclui que assim seja por meio de uma analogia com a atividade dos corpos materiais: do mesmo modo que esta varia de acordo com a varia¸c˜ao das figuras dos corpos materiais – fato este que seria manifesto e teria levado os antigos a postularem a existˆencia de ´atomos37 – ´e razo´avel falar conformemente, das qualidades, que sua atividade varia de acordo com a varia¸c˜ao de suas figura¸c˜oes.
Um exemplo disso pode ser fornecido pela imagina¸c˜ao de qualidades contr´arias, diversamente distribu´ıdas por seus sujeitos. Oresme estabelece, no cap´ıtulo xix da pri- meira parte do De configurationibus, que a figura¸c˜ao de qualidades contr´arias agregadas em um mesmo corpo pode ser imaginada por uma ´unica figura.38 Por exemplo, caso as
36“Videlicet sit aliqua qualitas cuius particule sint in intensione proportionales parvis pyramidibus,
et propter hoc illa sit activior, ceteris paribus, quam equalis qualitas uniformis simpliciter aut que esset proportionalis alteri figure non ita penetrative. Vel si forent due qualitates quarum particule unius essent proportionales acutioribus pyramidibus quam particule alterius, illa qualitas que corresponderet acutioribus pyramidibus esset activior, ceteris paribus, et sic de aliis figuris.” De configurationibus, I.xxii.
37“ ´E manifesto que corpos podem agir de diferentes formas como resultado da varia¸c˜ao das figuras
deses corpos. Por esta raz˜ao os antigos, postulando corpos compostos de ´atomos, disseram que os
´
atmos eram piramidais em figura devido a sua atividade vigorosa; assim corpos podem penetrar mais
ou menos dependendo da diferen¸cas existentes entre as pirˆamides.” / “Manifestum est corpora in
actionibus suis diversimode [variari] secundum varietatem figurarum eorundem corporum, propter quod antiqui ponentes corpora componi ex athomis dixerunt athomalia ignis fore pyramidalia proter eius activitatem fortem. Unde secundum diversitatem pyramidum possunt corpora magis aut minus pungere.” De configurationibus, I.xxii.
38 Ele faz isso, entretanto, sem estabelecer se de fato ´e poss´ıvel que duas qualidades contr´arias
existam simultaneamente, pois esta discuss˜ao fugiria ao tema do De Configurationibus. De acordo com
Shapiro, a admiss˜ao de que qualidades contr´arias possam existir simultaneamente em um mesmo sujeito
marca a diferen¸ca entre a explica¸c˜ao da altera¸c˜ao dos te´oricos da adi¸c˜ao e dos te´oricos da mistura, pois
o movimento de um contr´ario a outro poderia ser explicado de duas maneiras: “ou (1) a destrui¸c˜ao
sucessiva de parte ap´os parte da qualidade pr´e-existente precisa ocorrer antes que a indu¸c˜ao, parte ap´os
parte, de seu oposto ou contr´ario ocorra; ou (2) o rec´em-induzido contr´ario deve ser induzido de alguma
maneira em ou com seu oposto, de modo que os dois sejam obtidos simultaneamente. Claramente os
te´oricos da adi¸c˜ao adotaram a primeira op¸c˜ao. Tamb´em claramente, os te´oricos da mistura defendiam
a segunda” SHAPIRO, H. “Walter Burley and the Intension and Remission of Forms”, Speculum, Vol.
34, No. 3 (Jul., 1959). Oresme, embora n˜ao procure defender uma posi¸c˜ao quanto a essa quet˜ao no De
qualidades lineares “calor” e “frieza” existam simultaneamente em um sujeito, ambas uniformemente disformes, segue-se a figura¸c˜ao:
∆ADC — calor ∆ABC — frieza
Figura 4.6
Assim, tomando a figura¸c˜ao dos contr´arios “calor” e “frieza” como exemplo, por meio da distin¸c˜ao entre configura¸c˜ao e quantidade ´e poss´ıvel explicar como dois corpos igualmente mornos39 podem ser diversamente ativos: dados os corpos (a) (Fig. 4.7a) e (b) (Fig. 4.7b), ´e poss´ıvel que A aja mais vigorosamente para esfriar algo quente, ou esquentar algo frio, do que B40.
Tamb´em a explica¸c˜ao da passividade de uma qualidade depende de sua configura¸c˜ao, e ´e feita por meio de uma analogia com corpos materiais. Por passividade entende-se a capacidade de uma qualidade ser afetada por sua qualidade contr´aria:
Assim, outras coisas sendo iguais, aqueles corpos cujas qualidades, na figura¸c˜ao pre-
viamente posta, s˜ao como que porosas quanto `a inser¸c˜ao da qualidade contr´aria pelas
part´ıculas impercept´ıveis do sujeito ser˜ao, ao lugar de outras, mais capazes de serem
rapidamente afetadas e ser˜ao mais suscet´ıveis `a penetra¸c˜ao por altera¸c˜ao.41
Esta analogia entre a densidade material e a densidade qualitativa de um corpo permite explicar tamb´em por que raz˜ao `as vezes um corpo materialmente denso ´e mais suscet´ıvel `a altera¸c˜ao que um corpo materialmente poroso. Como exemplo, Oresme cita madeira e prata: muito embora prata seja mais densa que madeira, nota-se que um
seja poss´ıvel, o que contradiz sua inclus˜ao entre os te´oricos da adi¸c˜ao.
39Isto ´e, nos quais existe a mesma quantidade total de “calor” e “frieza”.
40Cf. De configurationibus, I.xxii.
41 “ita illa corpora, ceteris paribus, erunt pro aliis velocius passibilia et alteratione magis penetra-
bilia quorum qualitates erunt secundum figurationem prius positam quase porose per interpositionem qualitas contrarie secundum particulas subiecti imperceptibiles [...]” De configurationibus, I.xxiii.
(a) (b)
Figura 4.7
copo de madeira ret´em calor e frio, enquanto que um copo de prata esfria e esquenta facilmente. Isto se deve ao fato de que a figura¸c˜ao qualitativa da prata ´e mais porosa que a figura¸c˜ao qualitativa da madeira, de tal modo que, mesmo sendo mais material- mente densa, a prata sofre altera¸c˜ao com respeito `a temperatura mais facilmente que a madeira.42