• Nenhum resultado encontrado

ATIVIDADE: Leitura de panfleto Data: 06/03/

DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS DADOS

M: não, leitura convencional seria a leitura alfabética mesmo De conseguir ler por completo, né

1- ATIVIDADE: Leitura de panfleto Data: 06/03/

Participantes: N., M., P. e E. Objetivo Função social

de comunicação

Descrição da atividade Suporte textual - Permitir, através da leitura, identificar informações contidas no panfleto. - Comunicar as características principais do que se quer divulgar.

Sentadas em semi-círculo, no chão, as crianças procuram identificar o que está escrito em um panfleto da XUXA, trazido por um dos integrantes do grupo. O panfleto era uma propaganda da bolsa e sandália nova, que a criança estava usando. A professora aproveita para incentivar as crianças a descobrirem a marca impressa no panfleto e na bolsa – palavra XUXA.

Panfleto

Quadro 15. GÊNERO PROPAGANDÍSTICO Continuidade(...)

(23) N.: (levanta e pega a bolsa de plástico transparente que acompanha a sandália. Nela havia a escrita da palavra XUXA em relevo)

(24) S.: Nossa! Que legal ! O que será que está escrito aqui? (aponta para escrita da palavra XUXA na bolsa e mostra para as crianças). Eu tô vendo alguma coisa escrita aqui. Você conhece ? (mostra a palavra para E.) O que será que tem aqui ?

(25) E.: (usa a dactilologia para fazer o traçado das letras no ar, soletra X-U-X-A)

(26) S.: É, que legal, você conhece as letras ! Você sabe o que é que ta escrito aqui? (olha para E.)

(27) E.: [NÃO] (apenas fica olhando par S.)

(28) S.: Priscila, você sabe o que está escrito aqui (aponta a palavra na bolsa)?

(29) P.: (balança a cabeça, dizendo que sim, porém não fica claro se compreende o que estava sendo solicitado)

(30) N.: (faz uso de vocalizações concomitante à soletração da palavra X-U-X-A)

Ao serem questionados, percebendo que sua resposta não estava sendo suficiente para atender a minha solicitação, E. opta por observar as respostas de seus colegas, que, a princípio, demonstraram ter o mesmo conhecimento sobre o ato de ler, quando fazem o uso do alfabeto datilológico, para soletrar a palavra escrita:

(28) S. : Priscila, você sabe o que está escrito aqui (aponta a palavra na bolsa)?

(29) P.: (balança a cabeça, dizendo que sim, porém não fica claro se compreende o que estava sendo solicitado)

(30) N.: (faz uso de vocalizações concomitante à soletração da palavra X-U-X-A).

Observando que a soletração não seria suficiente para corresponder o meu pedido, E. recorre à verbalização do escrito, como outra opção na leitura. Nesse momento, parece recorrer à estratégia enfatizada em sala de aula, como um recurso para obter o sucesso. A pronúncia para ele, mesmo que de forma incompreensível, talvez pudesse satisfazer-me, cumprindo assim a sua tarefa:

(31) E. : (puxa a bolsa para perto dele e vocaliza de maneira ininteligível, como se estivesse lendo oralmente a palavra escrita) (passa o dedo indicador sob a letra X),

Não obstante, logo em seguida, abandona a sua primeira estratégia, para sinalizar a compreensão do que estava na bolsa, referindo-se à palavra nadar [NADAR]. Embora o que estivesse escrito não fosse a palavra sinalizada, mas sim XUXA, apoiando-se em pistas do contexto e no seu conhecimento prévio, de que o tipo de bolsa apresentada ao grupo serviria para as pessoas levarem objetos pessoais aos clubes e praias etc., E. levanta uma hipótese perfeitamente plausível, para a construção do sentido naquele momento.

Com o meu auxílio, E. parece iniciar um processo de desconstrução dos comportamentos aprendidos e valorizados pela escola, substituindo-os por aqueles que podem de fato levá-lo à produção da leitura. Assim, ler, nesse contexto, significaria fazer previsões, eliminar as alternativas improváveis, na direção da construção do sentido do texto, a partir de informações não-visuais organizadas no cérebro do leitor.

Ainda que durante nas situações de leitura propostas, não enfatizasse o uso do alfabeto datilólogico no programa de leitura, como sinônimo de leitura, tal fato não o impediu de partilhar esse recurso e utilizá-lo, durante as primeiras atividades desenvolvidas no programa de intervenção pedagógica no CEES. Conforme demonstrado nos discursos dos professores o alfabeto datilológico, ainda é muito utilizado em sala de aula, como um recurso substituto da leitura oral:

(Profa. V.)

V.: Eu faço gestos. Os nomes das palavras... S.: Como assim, ah, o alfabeto datilológico? V.: É, tem o alfabeto de sinais. Tem na sala um. S.: E ela sabe todas as letras?

V.: Ela sabe

V.: Ela sabe ... e ... Se tem uma palavra, porco, cachorro, a gente sinaliza e indica a palavra. Faço muito desenho pra ela. A lista de palavras que dá pra desenhar eu faço o desenho do lado, pra ela identificar, porque é uma referência. O que aquela palavra quer dizer...

(Profa. L2)

L2.:Surdo. Tem assim, vai falando do jeito dele, né. Ele quer ler falando do jeito dele.

Agora tem surdo que vai lendo e ele não tem uma fala, então vai sinalizando na ordem do português e usando o alfabeto datilológico. Aí eu vejo dois tipos de surdos: tem surdo que consegue falar, lê a palavra mas não entende, não entendeu o que é, ele só falou, mas não entendeu o significado das frases. Agora, tem surdo que não fala nada, que ele entendeu a frase inteira “A mamãe pegou... é, o bolo”. Então ele não fala nada, a gente aponta mamãe, ele faz o sinal mamãe. Pegou, ele faz o sinal de pegou, né...

(20) J.: algumas crianças usam sinal para ler. Também lê usando alfabeto datilológico junto com sinal, fala e desenho. Se ele não fala e não sinaliza... eu não consigo entender o que leu, então... ele vai até a lousa e desenha pra mim.

A esse respeito, pode-se acrescentar que o uso do alfabeto datilológico de maneira equivocada pelos professores, isto é, desvinculado do processo de construção do sentido, na leitura, faz com que o aluno surdo demore a perceber a sua verdadeira função social, ou seja, de que a sua aprendizagem servirá para auxiliá-lo em algumas situações específicas, no contexto de produção da linguagem, como: soletrar um nome ou endereço para alguém, indicar um número de telefone para um colega etc. O pressuposto pedagógico que corrobora para manter tal prática parece basear-se na visão equivocada sobre a natureza da leitura e de como esta competência se forma na criança.

Embasados em uma perspectiva de linguagem como código, que é ensinada em etapas às crianças, de acordo com a complexidade formal das estruturas lingüísticas (BUENO, 1982; COUTO, 1988; COSTA, 1994), tais procedimentos enfatizam o uso da rota fonológica (ascendente), juntamente com o auxílio da leitura oro-facial, como estratégia de leitura. Na rota fonológica, o acesso ao significado ou a construção da pronúncia de uma palavra dependeriam da utilização dos conhecimentos da conversão gráfica e fônica (com apoio da leitura oro-facial), quer dizer, do desenvolvimento da capacidade de perceber e diferenciar letras nas palavras, conforme descrito no estudo de Fragoso (2000). Dessa forma, parecem desconsiderar as especificidades da surdez, no processo de apropriação da leitura pelos surdos.

Vários autores (CÁRNIO, 1995; ALMEIDA, 2000; PEREIRA, 2003;) alertam que a transcodificação da palavra escrita em sinal gestual dificilmente permitirá aos surdos compreender o escrito. O surdo que aprende a fazer tal correspondência, ou seja, a sinalizar as letras nas palavras ou até mesmo o texto, colocam-se no mesmo nível dos ouvintes que são capazes de verbalizar o escrito. Tais práticas pedagógicas parecem apenas continuar (des)focando o aluno do desenvolvimento de estratégias e/ou uso de pistas, que possam, de fato, levá-lo à apropriação da leitura como um sistema de linguagem, valorizado culturalmente.

4.2.2 Os primeiros sinais de alerta para a revisão dos paradigmas de leitura na educação dos surdos

Embora o programa de leitura do CEES, para as crianças surdas, objetivasse a sua produção de maneira diferente das atividades oferecidas pela escola, descritas no tópico anterior, quero chamar atenção para os momentos em que a criança E. manifestou sinais de esquiva, desânimo, desinteresse e cansaço, em relação ao que estava sendo proposto.

Na atividade descrita abaixo, o aluno foi convidado a escolher um livro na estante da Biblioteca para ler. Talvez, motivado pelos desenhos da capa e pelo tamanho do livro - que se destacava dos demais, na estante, faz sua opção: AS MAIS BELAS FÁBULAS. Demonstrando-se à vontade com o livro, inicialmente, procurou manipulá-lo, ver suas imagens, nomeando as figuras, relembrando os fatos ocorridos a partir dos personagens conhecidos, conforme registrado na seqüência dos turnos abaixo:

37- Atividade: Leitura de contos de fadas