4. Apresentação dos Resultados
4.2 Perspetivas dos Profissionais do Sistema Prisional
4.2.4. Atividades e programas de reinserção social
O artigo 5º do Código de Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade, determina a intervenção no sistema prisional como:
“ (...) um conjunto de atividades e programas de reinserção social que visam a preparação do recluso para a liberdade, através do desenvolvimento das suas responsabilidades, da aquisição de competências que lhe permitam optar por um modo de vida socialmente responsável, sem cometer crimes e prover às suas necessidades após a libertação, favorecendo a aproximação progressiva à vida em liberdade” (Artigo 5.º).
Dada a variedade de respostas obtidas no que respeita a esta questão, prevalece a ideia de que o Plano Individual de Readaptação (PIR) não está preparado para uma pessoa a partir dos 60 anos. A este respeito, o Técnico de Reeducação refere:
T4: Eu fiz um PIR para uma pessoa com essa idade (60/70 anos) e o que eu propus foi um trabalho adequado à idade dele, por e.g, fazer limpeza da biblioteca, não dá muito mas, sei lá, trabalhar numa copa, entregar o guardanapo
105 ou o pão a quem passa mas isso implica se calhar estar duas horas de pé ou então estar na cozinha sentado a fazer os reforços para a noite. Eles recebem um saquinho, com um sumo, uma sande e fruta. Sentados a embalar isto é um trabalho manual que não cansa. Não há condições no PIR (para uma pessoa mais velha). Temos que nós adaptar o PIR às pessoas”.
É responsabilidade do Técnico de Reeducação adaptar o PIR às particularidades de cada recluso, sendo este revisto todos os anos. Porém, se existir ao longo do ano um programa, atividade e formação, é perguntado ao recluso se eventualmente quer participar.
T4:“Cada caso é um caso diferente, as atividades de A, não são as mesmas de B ou C, aqui é uma casa muito mais fechada. Eles generalizam o PIR e nós adaptamos. O PIR é revisto de ano a ano (o PIR deste EP, o geral, não é revisto há anos) e se não estiver a ser cumprido na íntegra temos o cuidado e nós mesmo, temos anotações no próprio processo a dizer se precisa de trabalho, que precisa disto etc. o PIR no fundo é o que guia vida do recluso aqui dentro”.
Procedemos, no âmbito deste estudo, à análise geral do PIR no E.P. considerado, verificando as suas principais caraterísticas e planos de readaptação37 (ver em anexo 7 o documento na íntegra).
Figura 7 -Plano Individual de Readaptação
37
106 Não obstante, o Técnico de Reeducação referiu-se a todos os reclusos em geral e não, somente, aos envelhecidos. Não há na prisão atividades, formação e programas que englobem o envelhecimento, nomeadamente, envelhecimento ativo. O técnico de reeducação afirma que na entrada dos reclusos:
T4: “(...) Fazemos a entrevista e vemos as qualificações que ele tem, se fizer falta ir para a escola, propomos que ele vá para a escola”, se o recluso não tiver condições económicas para sobreviver na prisão, propomos a curto prazo colocá-lo a trabalhar. Se por exemplo está cá por violência doméstica, ou problemas de álcool, aconselhamos um programa adequado para o problema mais específico que ele tem”.
Confrontando os reclusos considerados idosos com o delito criminal de violência doméstica, em nenhuma entrevista consta que frequentaram algum tipo de programa inerente a esse crime. Somente um recluso entrevistado frequentou um programa de estrada segura na prisão de XXX. Ainda que o número de idosos seja diminuto em relação aos mais jovens poderá vir a aumentar nos próximos anos, ou seja, os que estão na prisão continuam e há novas entradas de reclusos com 60 e mais anos. Entretanto, os que tinham 55/58 anos já terão mais de 60 anos. Os técnicos encontram certos obstáculos e inconvenientes, na medida em que as políticas são exíguas. No entanto, e segundo o Especialista dos Sistemas Prisionais, parte do trabalho da reeducação, compete aos Técnicos de Reeducação e à sua criatividade.
T1: “Faz parte dos técnicos arranjar atividades que se adaptem à capacidade dos mais velhos. Eu fui técnico de reeducação durante muitos anos e tive abertura para realizar programas e projetos”.
Na opinião do Adjunto do Diretor, a reinserção está inerente aos problemas de cada país e à visão que a sociedade dará ao recluso quando este sair da prisão. Afirma ainda, que faz parte do Estado adotar políticas que exerçam competências de reinserção.
T3: “(...) as questões da reinserção social têm muito a ver com as condições dos países. Vai um preso para a rua em que o desemprego no país é uma ferida social muito grande e o patrão prefere dar emprego ao que nunca esteve preso em lugar do que esteve na cadeia, não é? Isto é uma pescadinha de rabo na boca. Se não
107 tivermos políticas sociais eficientes e de grande importância, as questões da reinserção acabam por se misturar com as sociais”.
O guarda prisional trabalha no sistema prisional estudado há 32 anos. Acarreta consigo um longo período de observação e introspeção e afirma que não acredita na reinserção. Sustenta que, quem não tem família e apresenta um comportamento positivo, deveria desfrutar de uma saída condicional como os demais. Por isso, não acredita na Reinserção Social:
T2: “Eu não acredito na reinserção hoje em dia, muito fácil. Quando alguém não foi de saída precária e quando tem todas as condições para ir a casa e não vão. Eu pergunto assim, imaginemos que um tal recluso até tem família em França e que até tem um comportamento super exemplar, não merece ir a casa porque não tem uma casinha para ficar, mas tem um comportamento exemplar”.
Por outras palavras, o guarda prisional refere certas fragilidades advindas do Sistema Prisional inerentes às saídas precárias. Certos reclusos idosos lamentavam-se pela mesma situação. Aliás, evidencia-se nas expressões faciais um desconforto relacionado com as saídas precárias.
Questionando certas atitudes e envolvência no terreno dos Técnicos de Reinserção, na opinião do Especialista dos Sistemas Prisionais:
T1: “Pensei sempre que a parte da reinserção está muito ocupada com a burocracia e penso que não disponibiliza tempo suficiente para o trabalho no terreno, com vista à reinserção e a prevenção da reincidência. Há muito trabalho a fazer e a progredir nas comunidades que vão receber o recluso após o cumprimento da pena ou durante a liberdade condicional”.
O Técnico de Reeducação chama a atenção para a necessidade de admissão de mais técnicos para suprir certas necessidades existentes na prisão e compreende as queixas por parte dos reclusos idosos, mencionando que necessitam de mais atenção.
T4:“O problema é que é um técnico, às vezes, para 100/200 pessoas e depois além disso é a burocracia e os papéis e as estatísticas, estou a ser o mais sincero possível, faz-se o atendimento, tem que se colocar o registo no SIP e depois faz-se o atendimento e é
108 preciso fazer três ou quatro diligências. O ideal seria arranjar mais técnicos, ou seja um menor número de reclusos por técnico. Os idosos são mais apelativos e então precisam mais de atenção é natural que se queixem que não falamos com eles todos os dias”.
O Técnico de Reeducação refere também a importância da prática de exercício físico, adequado, na prisão para os reclusos mais velhos com vista à melhoria de funções sensoriais e cognitivas.
T4: “Seria ideal, não há, um tipo de ginástica duas horas ou três semanais para atividades desportivas dedicadas só a pessoas daquela idade. Não vamos pôr uma pessoa de 70 anos a jogar futebol com rapazes de 20. Atividades terapêuticas, por e.g, temos aí na clínica uma atividade que uma empresa traz as tampinhas, as tampas das garrafas, todas misturadas e eles têm que separar isso por cores e se calhar para as pessoas de idade, adaptava-se e não é um trabalho pesado e estimula o cérebro e o pensamento e acabam por estar ocupados”.
O técnico afirma que o regime comum sofre com a inexistência de atitudes que visam o desenvolvimento do ser humano. Do outro lado, temos o trabalho na prisão que segundo Wester (1997) é indispensável. No entanto, os reclusos idosos com reforma não podem trabalhar, se o fizerem não podem auferir da reforma, não obstante poderem fazer trabalho voluntário.
T4: Os reclusos na reforma não podem trabalhar, desde que façam de maneira livre e
voluntária”.
Sendo que os reclusos idosos não concordam com esta imposição como já foi referido na análise dos dados. Existem programas direcionados a pessoas jovens ou com idade média. Mais uma vez o sistema prisional carece de políticas, programas e legislação para as pessoas mais velhas.
T4: “Temos programas de prevenção para os mais novos que é feito 12 meses antes
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