4. Apresentação dos Resultados
4.2 Perspetivas dos Profissionais do Sistema Prisional
4.2.1. O envelhecimento dos reclusos
Cruzando as perspetivas dos reclusos com as dos técnicos, há um entendimento comum no que concerne à interpretação do conceito envelhecimento. Tanto os reclusos, como os técnicos, revelam várias incertezas face à questão, não sendo, portanto, linear uma explicação concreta do envelhecimento, fundamentando-se em aspetos situacionistas e exemplos. Apresentamos, de seguida, uma das respostas do Adjunto do Diretor da EP, a respeito da questão do envelhecimento.
T3:“ Eu não fico muito constrangido com o envelhecimento dos reclusos e por uma razão simples: os tribunais portugueses não mandam prender idosos por bagatelas penais. Os idosos com que tenho trabalhado no EP e que vêm presos pela primeira vez, ou cometeram homicídios, ou abuso sexual de menores, fraudes de uma dimensão importante e de forma que vêm presos por meros mecanismos de restauro social, ou seja, não podiam ficar em liberdade”.
Nesse sentido, como substituição à prisão, o Adjunto do Diretor foi questionado sobre a opção da pulseira eletrónica, considerando que os reclusos idosos entrevistados sofrem de patologias graves e o EP é considerado “obsoleto”, podendo isso prejudicar a sua permanência (dos reclusos idosos).
T3:“Depende do crime, pode não garantir a segurança do cidadão, depois de ter cometido um homicídio na comunidade. O crime do colarinho branco cria um forte impacto nas comunidades a aplicação de uma pena de execução na residência ou uma pessoa que roubou bastante mais do que esses jovens que estão aí a cumprir penas por furtos. Os tribunais, grosso modo, não as conheço a todas, atribuem as penas para atingirem paz social. Não vejo negligência relativamente ao ser humano, não vejo abuso, na aplicação da pena de prisão. Só tenho trabalhado com idosos em situações de crimes com grande impacto na sociedade”.
Relativamente à visão do guarda prisional relativamente ao envelhecimento, este referiu aspetos essencialmente do dia-a-dia na prisão e do modo como interage com os reclusos em idade sénior. Foi possível verificar a diferença de tratamento entre um recluso mais jovem e um recluso mais velho por parte do guarda prisional.
98 T2: “Eu tenho aqui um velhote, um senhor idoso que tem 91 ano que na hora da refeição é sempre o primeiro (...) quando dão ordem para ir para o refeitório, ele é o primeiro a ir e faço outra coisa, quando vejo alguém de muletas, ou alguém mais idoso, não é só este, eu chamo-os para a frente e ponho-os cá fora e são os primeiros a sair com os outros a ficarem lá dentro. Portanto, eu dou prioridade às pessoas mais idosas que vêm para o refeitório e para qualquer outra coisa”.
Na perspetiva do Especialista em Sistemas Prisionais, o envelhecimento sempre existiu no sistema prisional e tem tendência a agravar-se com a entrada na prisão, uma vez que as pessoas quando entram na prisão, grande parte já vem com patologias que se agravam ao longo da pena. Outro aspeto importante é o drástico envelhecimento, durante o tempo de permanência não prisão. Não se pode comparar uma pessoa com 60 anos na prisão a uma pessoa com 60 anos em liberdade. Como refere Aday (2003), na prisão os reclusos têm um envelhecimento muito acelerado decorrente de diversos fatores inerentes à situação da reclusão. Há patologias que desenvolvem depois da entrada na prisão, em conjunto com as que já traziam.
T1: “O envelhecimento é um facto, as pessoas duram muito mais tempo e as doenças inerentes ao envelhecimento, também. A título de exemplo: demências, mobilidade, entre outros. Tudo isto, não é exceção no sistema prisional. Porém, as pessoas envelhecem mais rapidamente se estiverem inativas e as patologias mentais que acontecem depois de serem presos. O desenvolvimento cognitivo e sensorial dos reclusos idosos passa pela prática desportiva, ter estímulos para se ocuparem e revitalizarem os laços familiares, ter uma alimentação adequada, ter atenção às questões psicológicas e mentais”.
Porém, a prática de desporto, segundo a opinião da maioria dos reclusos entrevistados, passa por caminhadas no EP porque não simpatizam com o ginásio ou porque as máquinas não são adequadas. O técnico de reeducação menciona a importância da formação na área da gerontologia.
T4:“Era bom termos formação nessa área para estarmos preparados para quando viesse alguém. Mesmo ter uma terapeuta só para essas pessoas”.
99 Na mesma ótica, este técnico acredita que, a partir de uma certa altura, quando não há apoio familiar, os idosos pensam que a prisão é possivelmente um “lar” e cometem delitos criminais.
T4:“ Muita gente (a partir dos 60) começa a não ter muito apoio familiar e depois a ideia que passa lá para fora é de comida e roupa lavada, não estou a dizer que são muitos, mas muitos pensarão que é melhor estar aqui dentro do que estar lá fora”.
Nos meios de comunicação tem-se falado numa prisão na Guarda só para reclusos idosos. Na perspetiva do técnico de reeducação, estes não devem estar todos juntos porque os mais jovens, em certas situações, ajudam os mais velhos.
T4: “Às vezes há quem queira separar as pessoas mais idosas num só sítio ou só numa casa e eu acho que eles deviam estar como estão, misturados com os outros”.
T3: “Nos refeitórios, a realidade é que as filas são muito grandes e às vezes os próprios presos resolvem isso com facilidade. Eles próprios dão lugar aos mais velhos”.
Portanto, na visão dos técnicos é importante no dia-a-dia dos reclusos idosos a presença dos mais jovens para possíveis ajudas que os reclusos idosos necessitem. Por outro lado, alerta-se para um envelhecimento dos trabalhadores do sistema prisional.
T3:“É necessário quando as sociedades entram em crise económica, é necessário repensar algumas coisas e esta do envelhecimento dos trabalhadores prisionais é uma. Relativamente aos guardas, isso já está garantido. O guardas reformam-se aos 60 anos, mas o staff prisional: técnicos de reeducação, médicos, enfermeiros que trabalham uma vida em ambiente prisional, não está pensado e era necessário”.
Com a idade de reforma a aumentar, na mesma perspetiva a Adjunta do Diretor, não está a ver um técnico com 67 anos a realizar planos individuais de reabilitação para um jovem de 20 anos, até porque há uma fatídica exaustão dos técnicos a nível emocional ao longo dos anos. Entende-se, nesse sentido, que o sistema prisional carece
100 de políticas, formação e programas de modo apoiar os reclusos considerados idosos e os técnicos do sistema prisional.
4.2.2 O papel da familia e dos laço afetivos
Como mencionam Granja, Cunha & Machado (2013), é inexplicável não constar nas estatísticas um método de ligação à família. Como podemos intervir sem uma explicação fidedigna e holística no que concerne aos laços familiares na prisão? Nesta investigação, a maioria dos reclusos a partir dos 60 anos refere a importância primordial da família, mas será que há políticas de aproximação da família aos reclusos idosos?
T3: “Olhe é o que é possível com a sobrelotação dos EP para garantir que todos tenham acesso (telefone)”.
As sobrelotações dos estabelecimentos prisionais são um problema transversal e, ainda que essa pergunta tenha sido realizada, foi rapidamente respondida por alguns quando referem que estão quatro numa cela. Na mesma linha, o Adjunto do Diretor considera o seguinte:
T3:“ Antigamente (os telemóveis) tinham livre acesso mas eram filas enormes e alguns não conseguiam telefonar. O que o legislador fez foi: garantir oportunidades de acesso tendo em conta as circunstâncias dos EP. Portanto ninguém acha que eles devem falar 5 minutos. As pessoas não se importavam que falassem uma hora, desde que tivesse condições para todos falarem”.
No seguimento da entrevista, foi questionado se o sistema prisional adotava alguma medida tendo em vista a aproximação do laços familiares e afetivos dos reclusos. Contudo, parece não fazer parte das intenções do sistema prisional, pelo menos a partir dos depoimentos obtidos, homologar sobre o aumento do tempo das chamadas telefónicas.
T3: O que é certo, é que no Natal não redobram o número de equipamentos. Todos nós sabemos que é muito pouco. A grande questão é que é preciso dotar os EP de equipamentos que não existem neste momento para poderem mudar isso”.