3.6 PROCESSAMENTO DO INPUT (IP) POR VANPATTEN (2004)
3.6.1 Atividades de Input Estruturado (SI) por Lee e VanPatten (2003)
Como é possível identificar itens linguísticos que (não) são bons candidatos para a abordagem PI? Os professores estão preparados para usar essa ferramenta em sala de aula? (LIGHTBOWN, 2004, p. 74). Pensando nessas questões, Benati (2017, p. 379) afirma que professores de LE precisam fazer uso de atividades que destaquem estruturas gramaticais no input e, ao mesmo tempo, ofereçam oportunidades de o aprendiz focar na forma e fazer relações corretas entre forma e significado. Nas pesquisas que envolvem PI, utilizam-se atividades de Input Estruturado (SI – Structured Input), que são atividades com técnica de foco na forma (WONG, 2004, p. 53) e têm o objetivo de alterar uma estratégia de processamento ineficaz feita pelo aprendiz. É necessário, para tanto, identificar o problema no processamento ou na estratégia para poder elaborar atividades de SI que ajudem o aprendiz a alcançar seu objetivo.
Por isso, o primeiro passo para elaborar atividades de SI é exatamente identificar por que os aprendizes estão tendo dificuldade de processar uma determinada forma. Que estratégias estão usando que os está fazendo processar essa forma de maneira errada (WONG, 2004, p. 36)? Após a identificação do problema de processamento, o input nas atividades deve ser estruturado de forma que o aprendiz use estratégias eficazes para completar as atividades com êxito.
Para criar atividades de SI, Wong (2004, p. 37) sugere que o professor siga seis diretrizes propostas por Lee e VanPatten (2003, p. 154). A diretriz 1 é apresentar uma função/regra ou forma por vez, pois quanto menos o aprendiz tiver que dividir sua atenção, mais fácil será prestar atenção na informação. A diretriz 2 é manter o foco o tempo todo no significado que está sendo veiculado (o input deve conter significado referencial ou intenção comunicativa, do contrário, será um exercício mecânico e não uma atividade de SI). A diretriz 3 é iniciar as atividades de SI com frases e logo passar a textos (narrativas, diálogos etc).
A diretriz 4 é usar tanto input oral quanto escrito, pois os aprendizes devem receber todos os tipos de input. A diretriz 5 é fazer os aprendizes responderem algo sobre o input, pois os aprendizes têm que entender a atividade e encontrar um propósito nela para prestar atenção no input; se os aprendizes não processam bem a forma do input, não conseguem fornecer informações sobre o mesmo. Como exemplo, Wong (2004, p. 41) apresenta uma atividade intitulada “Chez les Le Blanc”, que tem
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como objetivo mostrar ao aprendiz de francês (L2) que o verbo avoir é usado com os artigos un, une, des em frases afirmativas e com o artigo de em frases negativas. Os alunos recebem uma lista de mais de dez coisas que um casal supostamente tem e não tem. Cada item da lista está escrito com um artigo un, une, des ou de e, com base no artigo, os alunos devem preencher as lacunas escrevendo nous avons (nós temos) ou nous n’avons pas (nós não temos) em francês (ex. _______une table; ______ de
lit; ______un fauteuil). O exercício seguinte solicita aos alunos que, em duplas,
decidam quão rico ou pobre é esse casal com base nas coisas que eles (não) têm. Os alunos devem dizer ao grande grupo sua decisão “Pierre et Lise sont très
riches/riches/assez riches/assez pauvres/pauvrez/très pauvres parce que…” e
verificar se as demais duplas escreveram o mesmo sobre a situação financeira da família.
A diretriz 6 é levar em conta as estratégias de aprendizagem do aprendiz ao desenvolver uma atividade de SI. Por exemplo, aprendizes de francês tendem a prestar atenção apenas em “ne…pas” para identificar uma oração como negativa, ignorando que os artigos que podem ser usados com o verbo “avoir” (ter) na afirmativa não podem ser usados com esse verbo na negativa. Na forma negativa, por exemplo, não podem ser usados os artigos un, une, des. Ao invés, deve ser usado o artigo de ou d’. No entanto, o aprendiz tende a ignorar essa regra e entende a frase negativa apenas devido à presença de “ne…pas”. Levando em conta essa estratégia de processamento, na atividade “Chez les Le Blanc”, “ne…pas” é retirado das frases para que o aprendiz tenha que necessariamente prestar atenção à forma do artigo para determinar se a frase é afirmativa ou negativa. Além disso, normalmente os artigos tendem a aparecer no meio das orações, que é uma posição não saliente. Assim, no exercício “Chez les Le Blanc” o artigo está negritado e é propositalmente a primeira palavra que aparece em cada item, forçando o aprendiz a prestar atenção nele.
3.6.1.1 Tipos de atividades de SI
Há dois tipos de atividades de SI na PI: as referenciais e as afetivas. A sugestão é que o professor comece utilizando as atividades referenciais, pois o aprendiz precisa prestar atenção em informações gramaticais relevantes a partir da forma para entender o significado (como em “Chez les Le Blanc”). Ao dar a resposta ao professor, o aprendiz sabe se acertou ou não e o professor verifica se o aprendiz fez a relação
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certa entre forma e significado (WONG, 2004, p. 42). Nesta tese, as atividades propostas no capítulo 5 incluirão ambos os tipos de atividades SI.
As atividades afetivas servem para que o aprendiz use o input estruturado para expressar uma opinião, crença ou outra resposta afetiva sobre o mundo real e são usadas num segundo momento para que o aprendiz tenha mais oportunidade de ver e ouvir a forma em contextos com significado. Além disso, esse tipo de atividade faz a instrução se focar no próprio aprendiz. Como exemplo, Wong (2004, p. 44) apresenta um exercício no qual o aprendiz deve ler uma frase e dizer se é verdadeira ou falsa. Os enunciados, em francês, são dois, a saber: 1) “Um apartamento típico em Columbia, Ohio tem…”. Abaixo do enunciado, há uma lista de itens que começam sempre com artigo + substantivo (por exemplo une cuisine, un gran jardin, des
chambres) e 2) “Um apartamento típico em Columbia, Ohio, não tem…” seguido de
artigo + substantivo (e.g. de garage, de balcon). Assim, os artigos aparecem sempre em primeiro lugar em cada lista. No primeiro enunciado, o aprendiz visualiza os artigos
une, un, des na lista de afirmações e, no segundo, o artigo “de” na lista de negações.
Além disso, um segundo exercício utiliza as mesmas duas listas (de afirmações e negações) para o aluno dar sua opinião e comparar suas respostas sobre um apartamento em Columbia e uma casa em Beverly Hills (“une Maison à Beverly Hills”). Nas atividades de SI, o professor recebe instruções de como aplicá-las. Nas atividades referenciais, em que há uma resposta certa ou errada, é indicado ao professor o momento adequado de fazer a correção oral (a cada item ou no final dos itens). Nas atividades afetivas, as formas alvo estão igualmente salientes (em posição inicial na oração e/ou negritadas) e devem ser usadas pelo aprendiz para dar opinião sobre algo e comparar sua opinião com a dos colegas. Assim, tanto nas atividades referenciais quanto nas afetivas, o aprendiz é obrigado a focar na forma da estrutura alvo para poder realizar as tarefas.
O aprendiz também recebe dicas gramaticais antes de realizar algumas atividades, para prestar atenção nas diferenças entre a forma na L2 e na L1. Por exemplo, em uma atividade sobre o uso de pronome objeto em espanhol, os alunos ouvem uma frase e devem escolher, entre dois desenhos, aquele que representa o que foi dito na frase. Os alunos ouvem, por exemplo, “sus padres lo llaman por
teléfono” e recebem dois desenhos: um em que os pais estão telefonando para o filho
e outro em que o filho está telefonando para os pais. No mesmo enunciado que solicita que o aluno selecione o desenho que melhor se relaciona à frase, o aluno recebe a
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seguinte instrução “Lembre-se de que o espanhol não segue uma ordem rígida S+V+O e que pronomes objeto podem estar antes de um verbo conjugado ou depois de um verbo no infinitivo” (WONG, 2004, p. 46).
Segundo Wong (2004, p. 59), o objetivo de uma atividade de SI é fazer com que o aprendiz processe a estrutura da frase para entender seu significado. Por isso, ao elaborar essas atividades, deve-se ter o cuidado de retirar dos exercícios coisas que permitam que o aprendiz dê a resposta correta sem que tenha que prestar atenção na estrutura da frase. Como exemplo, Wong (2004, p. 57) cita uma atividade elaborada por Allen (2000) em que o foco são os verbos causativos em francês com o verbo faire (fazer). O problema de processamento neste caso é a ordem das palavras. Orações como “Jean fait laver la voiture à Marie” (Jean faz Maria lavar o carro) apresentam esta ordem de palavras “Jean faz lavar o carro a Maria” e podem ser interpretadas incorretamente pelo aprendiz. Por isso, após apresentar esse tipo de oração, é recomendável fazer perguntas do tipo “quem lava o carro?” No entanto, Wong sugere que se apresentem ao aluno tanto orações com o verbo faire causativo (Jean fait laver la voiture à Marie) como não causativo como em “Georges fait la
vaisselle pour Louis” (Georges lava a louça para Louis) e, logo, se façam as perguntas
“Quem lava os pratos”? e “Quem lava o carro”? É importante misturar os usos de faire e não apresentar sempre a mesma estrutura causativa com faire. Além disso, o professor tem que apresentar frases em que qualquer pessoa mencionada possa realizar a ação. Por isso, não são adequadas orações como “Le professeur fait faire
des devoirs aux élèves” (O professor faz os alunos fazerem o tema), cuja ordem de
palavras é “o professor faz fazer os temas os alunos”, pois é óbvio que “o professor faz os alunos fazerem os temas” e não o contrário. Neste caso, o aprendiz responderá à pergunta “quem faz o tema?” de forma mecânica, apenas prestando atenção ao significado de “professor”, “aluno” e “tema” sem prestar atenção à forma da frase.
Para elaborar a atividade de SI, é imprescindível que o professor leve em conta a estratégia ineficaz normalmente usada pelo aprendiz para entender o input e tente ajudá-lo a alterar essa estratégia por uma eficaz: “quanto mais soubermos o que o aprendiz faz com o input, mais preparados estaremos para ajudá-lo a processar melhor o input” (WONG, 2004, p. 62).
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