João Martins Ladeira1
RESUMO: A televisão entra no séc. XXI na força de sua transfor-
mação. Depara-se com tecnologias de informação, transpondo- -se para o digital. O streaming deixa clara tal realidade. Permea- do por interfaces, operado por aplicativos, acionado por smart-
phones, experimentado por televisões conectadas, este audiovi-
sual se ordena por gigantescos acervos e fluxos intermináveis, proporcionando mudanças de impacto. Discute-se a televisão em termos do cabo e do streaming. Analisa-se este audiovisual – não mais confinado a um aparelho, presente em dispositivos e redes, não obedecendo mais às fronteiras nacionais, deixando de lado as emissoras e suas autorizações – nos termos da ar- queologia da mídia.
PALAVRAS-CHAVE: Estudos de televisão. Tecnologias da comu-
nicação e da informação. Arqueologia da mídia.
1 Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (Unisi- nos). Doutor em Sociologia (IUPERJ). Possui interesse em tecnologias da infor- mação e comunicação, estudos de televisão, estudos de globalização, arqueolo- gia da mídia. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/5245380818198943.
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ABSTRACT: Television enters the 21th century with the force of
its transformations. Coming across information technologies, it transposes itself to the digital. Streaming makes this reality clear. Permeated by interfaces, operated through apps, put into action by smartphones, experienced through connected TVs, this audiovisual is organized through immense collections and endless flows, providing striking changes. The paper discusses television as far as cable and streaming is concerned. It analyzes this audiovisual – no longer confined to a device, present in ap- paratuses and networks, no longer circumscribed to national frontiers, leaving aside the stations and their authorizations – in terms of media archeology.
KEYWORDS: Television studies. Communication and informa-
tion technologies. Media archeology.
1 Introdução
Tecnologias despertam intensa curiosidade relativa ao momento em que surgem e às condições a partir das quais se desenvolvem. Apreendê-las, tarefa difícil, implica dimensionar um modo particular de entendimento. Para uma perspectiva arqueológica, perguntas usuais sobre este tema necessitam de redimensionamento. A organização das técnicas reflete as mo- tivações dos envolvidos em sua constituição? Abordagem deste tipo se encontra em trabalhos como os de Castells (1996), ao su- gerir a possibilidade de que as tecnologias de comunicação e in- formação se definam pela associação entre os interesses de seus fundadores: programadores imbuídos da contracultura califor- niana; burocracia de Estado; homens de ciência. Contudo, uma resposta pautada por uma abordagem arqueológica (DELEUZE, 1986; FOUCAULT, 1969; ZIELINSKI, 1994) não compartilha da mesma crença sobre a influência determinante de grupos sociais. Uma segunda questão: o poder exercido a partir de estruturas sociais, como a economia, condiciona a estruturação das mídias? Na expectativa de compreender as mitologias envol- vidas com a valorização – muitas vezes exacerbada – do digital, Mosco (2005), a despeito de suas valiosas descrições, termina sempre transformando as tecnologias de informação em uma
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consequência do desenvolvimento inexorável das forças produ- tivas, encarnadas em capitalistas específicos. A despeito de sua defesa da necessidade de compreender as relações de poder como constituídas por processos de estruturação, espacializa- ção e comodificação, o peso do terceiro termo, a determinação da lógica do capital, sobre a constituição da realidade termina se tornando o fator decisivo em suas análises. Esta interpretação identifica as relações produtivas como elemento determinante: na verdade, como a única dimensão para a organização das mí- dias. Eminentemente economicista, enxerga os meios como uma derivação de temas como classe e acumulação.
Como resultado, a televisão, parte essencial da estru- tura responsável por organizar os sistemas de comunicação estruturados durante o séc. XX, surgiria como tema possível de compreender apenas quando subordinada a forças estruturais caras às sociedades modernas. Desta perspectiva, sua organiza- ção se transformaria em mero epifenômeno do desdobramen- to destas forças econômicas ou políticas, tornando-se parte de uma dimensão que a subjuga, mostrando-se carente de qual- quer ingerência específica, meramente obediente a desígnios a ela externos. A proposta arqueológica se distingue por atentar à dimensão subterrânea da organização da realidade, sem se ater a uma única chave explicativa, contudo. Esta perspectiva reside em compreender os meios distantes de qualquer subordinação, agindo não como parte de um formato piramidal a partir da qual se irradiaria a sua forma. Ao contrário, as mídias operam em relação a forças que se definem não a partir da transcendência possível de se atribuir a alguma hierarquia. De fato, a proposta arqueológica refere-se à imanência, inscrita em sua capacidade de tomar parte em estratégias pontuais para a configuração da realidade.
A partir da diferenciação em relação a abordagens cen- tradas na descrição analítica da operação dos sistemas sociais, por um lado, e na determinação estrutural, por outro, a arqueo- logia busca definir uma abordagem particular sobre os meios. Usualmente, apresenta-se esta arqueologia da mídia como uma novidade frente a abordagens usuais. Porém, arvorar inovações não define uma visada teórica. De fato, representa um exemplo do fascínio com a ideia de ruptura, postura esta incompatível
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com as expectativas da própria arqueologia. Relevante se torna atentar mais à especificidade da abordagem que a qualquer pos- sível novidade. Aqui, concentra-se atenção sobre o ambiente em que as tecnologias se constituem. Sobre este assunto, discussão de interesse foi a obra de McLuhan (1977). Em certos momentos, alguns autores chegam a identificar afinidades entre a arqueo- logia e as ideias deste autor (PARIKKA, 2012). De outro ponto de vista (KITTLER, 1999), trata-se de postura difícil de manter.
O trabalho de McLuhan se define por tematizar a capa- cidade das mídias em produzir efeitos sobre os indivíduos. De especial importância se mostra a transição da cultura oral para a escrita, em que a primeira está centrada na audição, ordena- da segundo a expressividade contida na palavra e em suas múl- tiplas possibilidades de interpretações. Baseado no olhar, este outro instante decorre da instituição do alfabeto fonético, com- posto por abstrações sem ligação com a experiência designada. De caráter linear, esta cultura escrita desagregaria a experiência multidirecional criada pelo ouvido. Outra forma de organização social decorre da transformação na técnica de expressão respon- sável por constituir a própria modernidade. Assim, linearidade, racionalidade e escrita se associariam na constituição do mundo moderno. Porém, esta galáxia de Gutenberg se esgotaria segun- do a mesma lógica que permitiu seu surgimento: devido a uma transformação técnica. Ameaçada pela constelação de Marconi, cede espaço à retribalização da sociedade, instituída pelo telé- grafo, o rádio, o telefone, a televisão e, posteriormente, o com- putador. Estes meios criam um vínculo que se concentraria não mais na visão, eliminando o caráter individual e autocentrado típico da modernidade.
Este conjunto de conceitos se assenta sobre uma cer- teza: o pressuposto sobre a possibilidade de tratar os meios como objetos constituídos, capazes de produzir influência em relação a outros objetos. Dotar os meios de uma dimensão con- creta, possível de se medir a partir de seus efeitos – decisivos, aptos a reconfigurar toda uma cultura: esta se torna a principal limitação desta visada. Uma perspectiva arqueológica se atém não a esta dimensão concreta, supostamente objetiva, mas se pergunta exatamente sobre as suas condições de possibilidade. Aqui, importa a natureza dos elementos responsáveis por per-
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mitir a organização desta realidade. Logo, os meios, de instância influente em termos das consequências possíveis de gerar, tor- nam-se eles próprios objetos. Sua constituição se mostra impor- tante de perceber: contudo, esta ordenação se torna possível de se apreender não no nível concreto, mas alhures.
O ensaio que se segue busca discutir problemas teóri- cos, na expectativa de delimitar uma interpretação sobre a cons- tituição de uma mídia específica: o audiovisual – em específico, a televisão – com atenção à sua constituição contemporânea na forma do streaming. Busca-se apreender o diagrama a partir do qual esta mídia se organiza, com interesse em sua dimensão de mudança. Atenta-se à atuação deste diagrama em contraposição a outras duas formas para o audiovisual: o broadcast (formato de redes nacionais de conteúdo massivo) e o multicanal (a te- levisão a cabo e satélite e suas experiências de segmentação). Discute-se a composição deste diagrama a partir de três forma- tos: conteúdo (inédito-previamente conhecido); exposição (flu- xo de conteúdo-acervos abertos à consulta); agregação (associa- ção de canais-dispersão em serviços de criadores específicos). Uma dimensão ternária, de normas, técnicas e trocas, surge defi- nindo dimensões não determinantes de um espaço no qual estas outras dimensões atuam.