A partir do que foi exposto e com base no pensamento de Miège, que nos convida a olhar para a midiatização da so- ciedade a partir do qualificativo sociotécnico, o qual solicita um olhar para a tecnologia como um processo socialmente deter- minado, trazemos a discussão para o âmbito de duas pesqui- sas sobre televisão que tecem um olhar sobre a forma como o meio midiatiza questões de aprendizagem de caráter informal e relações dos sujeitos com dispositivos midiáticos. Na pesquisa conduzida por Michelli Machado, as questões relativas à apren- dizagem emergem a partir do programa “Faixa Comentada”, produzido pelo Canal Futura, no qual as minisséries históricas produzidas pela TV Globo são reapresentadas e comentadas. Na pesquisa de Daniel Pedroso, as questões relativas aos processos de aprendizagem informal são observadas a partir da promo-
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ção “A empregada mais cheia de charme do Brasil”, exibida pelo Fantástico, que convidou empregadas domésticas de todo o país a produzirem e enviarem ao programa vídeos que parodiassem o videoclipe “Vida de Empreguete”.
Iniciativas como a do programa Faixa Comentada4, por
exemplo, que trabalha com minisséries históricas ampliando sua abordagem, demonstram-nos que, de alguma forma, essas obras podem ser “usadas” como dispositivos de aprendizagem, através de sua reciclagem. Não podemos ignorar que esses pro- cessos midiáticos têm uma certa relação com a aprendizagem, principalmente em um mundo em que se tem cada vez menos tempo de adquirir conhecimento das formas tradicionais; nesse sentido, percebemos a televisão como um dispositivo tecnológi- co que cumpre a função de fazer o conhecimento circular.
Ao interpretarem as mensagens oferecidas pelas mi- nisséries históricas, os telespectadores então aprendendo um pouco sobre história e ressignificando acontecimentos e perso- nalidades históricas. Essa ressignificação do passado no presen- te acontece a partir das vivências individuais de cada espectador e da fusão entre a leitura dos fatos proposta pelas minisséries e a leitura realizada pelos receptores das obras a partir de seu capital cultural, simbólico e histórico.
Lembremos que Braga nos diz que “[...] interpretar é usar o seu acervo cultural para digerir as interpelações rece- bidas. Há boas e más interpretações – mas o saldo, positivo ou negativo, é uma aprendizagem” (BRAGA, 2002, p. 8). Segundo o pesquisador, nesse tipo de aprendizagem estamos usando nossas competências de aprender e coisas já aprendidas ou recebidas de outros espaços, como a escola, a família, a cultu- ra e as práticas cotidianas; por isso, nem toda aprendizagem é positiva.
4 O Canal Futura tem um programa intitulado Faixa Comentada, que reapresenta e comenta minisséries históricas. Nesse programa, historiadores, autores, di- retores e o próprio elenco da história comentam como ocorre a reconstrução de uma realidade, a partir da história com mesclas de ficção. Faixa Comentada reexibe minisséries de dramaturgia e amplia a abordagem da ficção, tratando de questões relativas à produção de TV – preparação de atores, construção da narrativa e de personagens, figurino, cenografia, fotografia, curiosidades de pro- dução, etc.– assim como também temas históricos, literários ou de comporta- mento, através de entrevistas com profissionais e especialistas.
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Miège fala que os dispositivos tecnológicos e as TICs atualmente disponíveis permitem criar e multiplicar a divulga- ção e a difusão do conhecimento. Ou seja, por meio desse pro- cesso, podemos quebrar resistências e, assim, dizer tudo que desejamos dizer. Por isso, segundo Braga, o campo educacio- nal inevitavelmente se reorganiza para ampliar sua abrangên- cia, diversificar seus objetivos e enriquecer sua oferta de pro- cedimentos, de modo a tentar dar conta destas novas áreas de aprendizagem.
Desta forma, podemos pensar sobre a possibilidade do campo se apropriar dos produtos midiáticos para criar novas chances de aprendizagem e ampliar o conhecimento oferecido pelos processos midiáticos, de forma a termos um conhecimen- to mais aprofundado do que o oferecido pela mídia, mas desen- volvido a partir da oferta dos meios de comunicação. Esse viés é uma das muitas possíveis ramificações que o tema nos propõe pensar, numa sociedade que está sempre querendo ser convi- dada para falar sobre alguma coisa. A experiência da educação informal propiciada pela televisão a partir da “Faixa Comentada” é um exemplo do tipo de ações comunicativas midiatizadas de que nos fala Braga (2012); neste quesito, o âmbito da circulação “propicia uma ativação crítica e intencionada das mediações cul- turais” (BRAGA, 2012, p. 34). Aqui percebemos o conhecimento informal emergindo por meio das lógicas da mídia e da televisão enquanto dispositivo tecnológico em relação com os sujeitos.
Já na promoção “A empregada mais cheia de charme do Brasil”, exibida pelo Fantástico5, o conhecimento informal é
engendrado por meio de um processo interacional no qual a te- levisão solicita às empregadas domésticas que produzam vídeos para o quadro do programa. Todo esse processo foi regido pelo programa, que, além de delinear o mercado discursivo com o
5 No quadro apresentado pelo programa de variedades Fantástico (2012), a ati- vidade discursiva do telespectador se induz com base em uma matriz ficcional (telenovela) e se direciona para uma categoria específica de telespectadores: as empregadas domésticas. O diferencial da atividade discursiva foi o envio de vídeos, nos quais as profissionais do lar deveriam parodiar o tema do videoclipe exibido pela telenovela, numa alusão ao comportamento das empregadas do- mésticas da trama que se tornaram celebridades do mundo da música. Ao todo, 1.400 vídeos foram remetidos, e o próprio Fantástico propôs diversas reporta- gens com o intuito de reforçar o convite e de prestar esclarecimentos sobre a forma de envio e as condições de acesso à promoção.
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qual buscava se relacionar – empregadas domésticas com car- teira assinada –, também explicitou o modelo de produto que as secretárias do lar deveriam seguir. Os vídeos deveriam ser baseados no videoclipe “Vida de Empreguete”. Para atingir tal objetivo, o programa desenhou um modelo interacional no qual produziu chamadas, reportagens de apresentação da promoção e gerou ainda esquetes cômicos por meio dos quais instruiu di- daticamente as empregadas a produzir os vídeos a serem envia- dos, detalhando tempo, conteúdo, sugerindo equipamentos de gravação e processos de postagem do produto final na página do programa na internet.
Percebemos que o funcionamento desta promoção carrega um importante viés de midiatização do conhecimento informal, focado na aprendizagem dos processos de produção televisiva, viés que pode ser apontado em dois níveis. O primeiro nível se estabeleceu por meio do processo interacional entre a televisão e as telespectadoras, movimento que foi gerado a par- tir do convite à participação, do estabelecimento das regras da promoção e do delineamento das condições de produção dos ví- deos. Neste nível, o programa “ensinou” o que deveria ser feito.
O segundo nível, que decorre do primeiro, é a própria produção dos vídeos realizados pelos atores sociais, que exigi- ram, ainda que amadoristicamente, um conhecimento mínimo de criação de um roteiro baseado na trama da telenovela, além de familiaridade com as técnicas de produção e edição dos vídeos, conhecimento que, como nos lembra Fausto Neto (2006), está baseado na cultura midiática que já se encontra disseminada no tecido social, assim como também se encontram disseminados os dispositivos tecnológicos como a internet e os smartphones, que possibilitam às telespectadoras participar da promoção.
Nesse contexto, o programa estimula que as telespec- tadoras tirem proveito destes dispositivos tecnológicos para a produção de sentidos. Entendemos que as operações tecnodis- cursivas desenvolvidas pelas telespectadoras, por meio da pro- dução dos vídeos, realizam-se a partir das lógicas da mídia que estão cada vez mais difundidas na sociedade e que, nessa pro- moção, foram resgatadas por meio de um movimento didático no qual a televisão midiatiza o seu fazer por meio de um proces- so de geração de conhecimento informal, ativado por meio da
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interação com o telespectador. A pesquisa também nos permite compreender o impacto da tecnologia e das TICs na criação e no desenvolvimento da promoção.
Do ponto de vista das dimensões relacionadas ao fun- cionamento da televisão no contexto da convergência midiática, o quadro permite visualizar como são organizadas as novas re- lações entre a televisão e o telespectador que são dinamizadas a partir da internet – espaço em que as operações e as lógicas dos sistemas de produção e de recepção se contataram. Nesse sentido, a conversão da tecnologia em meios de comunicação – como é o caso da telefonia celular e, em especial, das tecnologias móveis – é um indicador de grande relevância6, já que frisa a
potencialidade da aproximação do receptor do nicho produtivo. Foi por meio desses recursos tecnológicos que tiveram seu uso estimulado pelo programa que as empregadas domésticas reali- zaram as suas produções, seguindo um esquema didático-inte- racional marcado pela midiatização do conhecimento informal acerca das lógicas de funcionamento da televisão.