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A proposição que desenvolvemos é de que se os usos são sociais em geral, as apropriações são institucionais em es- pecífico. Mas, além de usos e apropriações, há os acessos e as práticas sociais. Epistemologicamente, o conceito de indústria cultural acentua o momento das apropriações. Já as teorias interacionaistas valorizam a dimensão dos usos, e as estrutu- ralistas, as práticas. Na perspectiva da midiatização, busca-se investigar as relações entre esses processos (de acesso, usos, práticas e apropriações), considerando atores, instituições mi- diáticas e midiatizadas. As instituições midiatizadas se referem a organizações dos mercados econômicos, culturais e políticos (incluindo o Estado) cujos processos de interação estão me- diados pelos objetos-meios, na conjuntura atual especialmente os digitais, em rede. Essas apropriações estão em tensão com os usos sociais, acionados principalmente pelos atores que es- tão fora dos quadros de referência das instituições midiáticas e midiatizadas.

Braga (2012) sugere pensar as relações entre circui- tos e campos. Concordamos com isso, desde que não se desfa-

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ça a necessária reflexão sobre os lugares específicos que ocu- pam as instituições-campos nos processos de apropriação dos objetos-meios. Essas apropriações são marcadas por técnicas, estratégias e lógicas transversais aos próprios campos e especi- ficadas conforme as organizações. Somente a pesquisa empírica pode oferecer inferências sobre esses processos transversais e específicos.

Assim, podemos falar em apropriações transversais ao campo da cultura, mas essas devem ser especificadas pelas ins- tituições que compõem o campo cultural e suas regras, mas que se diferenciam conforme estejamos falando em organizações científicas, escolares, artísticas, etc. Certamente, esse é um dos campos mais dinâmicos, que vem realizando apropriações mais avançadas dos objetos-meios digitais em tempos de rede.

O campo econômico é talvez o que mais precisão tenha em mobilizar formatos regulatórios em suas apropriações. A co- municação em si, para este campo, deve ser informação e marke- ting. Marcadamente estratégico, as organizações do campo eco- nômico tendem a ficar silenciosas perante as disrupções ineren- tes aos processos comunicacionais midiatizados. Vivem a tensão entre estratégias informacionais e de marketing e as disrupções, incertezas e indeterminações dos ambientes midiatizados.

O campo político tem uma dupla vocação. Quando em processos de ascensão ao poder, mobiliza lógicas que articulam informação-marketing (típicas do campo econômico) com in- corporação de narrativas sociais, seguindo operações típicas do campo midiático.

O campo midiático é, por excelência, o produtor de formatos, operações e lógicas que são transversais. Não só im- porta experiências desenvolvidas pelos usos dos atores, como também o faz em relação às invenções dos campos econômicos, culturais e políticos. Por outro lado, exporta seus formatos, ope- rações e lógicas aos campos culturais, políticos e econômicos e aos usos dos atores.

As questões de midiatização, entretanto, não se esgo- tam na análise e investigação específica das apropriações dos campos midiáticos e midiatizados. As questões centrais se refe- rem aos circuitos constituídos entre instituições midiáticas, mi- diatizadas e atores em torno de determinados impasses, agonís-

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ticas e dilemas sociais. Este é o grande foco da midiatização, em nossa formulação.

Nesses diversos circuitos-ambientes, estão atualizadas as tensões entre oikos e polis. São constituídas novas poleis, que reúnem, de forma desterritorializada, instituições midiáticas, midiatizadas e atores sociais. Aí se colocam os problemas da co- municação contemporânea, pois não se trata daquilo que está normatizado pelas apropriações e práticas (habitus), mas tam- bém como isso se produz no entre essas diversas lógicas, for- matos e operações, tensionando o que está normatizado pelas práticas.

Quando a midiatização se reduz às apropriações, nem os circuitos nem a circulação ofereceriam outra perspectiva de sociabilidade que não a de reprodução dos campos instituídos, mesmo que através de um permanente upgrade decorrente dos processos de regulação, das práticas e dos habitus. Nas sobras, só haveria o mundo fantasmagórico das ordens dilaceradas, das figuras virtuais proliferadas e das narrativas abortadas. Mas aí temos os algoritmos, que organizam esses mundos das trevas, os agenciam, os agrupam, os categorizam, direcionando institui- ções e indivíduos aos usos sociais diversos, o que, portanto, nos remeteria, novamente, aos usos e interações reguladas.

Mas não é isso que se observa. As pesquisas empíricas em midiatização apontam transformações das instituições, cri- ses terminais de algumas e nascimento de novas instituições. O campo religioso é um dos mais paradigmáticos da emergência de novas instituições e organizações. É verdade que as institui- ções religiosas podem ser forjadas nos circuitos e processos de circulação entre campos e instituições antes existentes, midiáti- cas e midiatizadas. Mas se constituem em um novo, derivados de usos sociais inesperados, que têm demonstrado uma capacidade de apropriação de ordens discursivas já instaladas, de objetos- -meios disponíveis, seguindo lógicas, formatos e operações de produção na interface entre instituições midiáticas e religiosas.

Isso, concordamos, ainda não revelaria um conflito entre capital financeiro e midiatização. Afinal, as ditas igrejas neopentecostais são demasiadamente vinculadas também a ló- gicas do mercado econômico e político, condensando também o midiático e o religioso. Podem ser compreendidas como formas

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contemporâneas da religiosidade em tempos de midiatização e financeirização da vida, o que se manifesta na teologia da pros- peridade. Isso nos permite localizá-las como transformações tentaculares, que permitem regulações entre semiose e proces- sos de valorização do capital.

Assim, podemos afirmar que os processos midiáticos são regulados. Esta parece ser a tese e objeto de Bernard Miège (2008).

4 A atorização, individualização e os mecanismos