O auxílio-acidente será concedido, como indenização, ao segurado quando, após a consolidação das lesões decorrentes de acidente, resultarem sequelas que impliquem redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia, conforme situações discriminadas no regulamento (Lei 8.213/91, art. 86, caput).
Para que o segurado tenha direito ao auxílio-acidente é necessário que, em decorrência do acidente, após a consolidação das lesões, restem sequelas que produzam a redução da capacidade laborativa do segurado. As mencionadas sequelas serão especificadas em lista elaborada e atualizada a cada três anos pela Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, de acordo com critérios técnicos e científicos (Lei 8.213/91, art. 86, § 6º).
O dano que enseja direito ao auxílio-acidente é o que acarreta redução da capacidade de trabalho, sem caracterizar a incapacidade permanente para todo e qualquer trabalho. Quando a incapacidade for total e definitiva, o benefício a ser concedido será a aposentadoria por incapacidade permanente.
A natureza do auxílio-acidente é indenizatória. O objetivo é indenizar o segurado pelo fato de não ter mais plena capacidade de trabalho em razão do acidente que sofreu. No caso de acidente de trabalho, o pagamento pela Previdência Social do auxílio-acidente não exclui a responsabilidade civil da empresa ou de terceiros (RPS, art. 342).
A concessão do auxílio-acidente está condicionada à confirmação, pela Perícia Médica do INSS, da redução da capacidade laborativa do segurado, em decorrência do acidente por ele sofrido. Não ocorrendo redução da capacidade para o trabalho, o auxílio-acidente não será concedido.
2.8.1 Situações que dão direito ao auxílio-acidente
De acordo com o art. 104 do Regulamento da Previdência Social (RPS), o auxílio-acidente será concedido, quando, após a consolidação das lesões decorrentes de acidente, resultar sequela definitiva, conforme as situações discriminadas no anexo III, que implique:
I - redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exerciam;
II - redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exerciam e exija maior esforço para o desempenho da mesma atividade que exerciam à época do acidente; ou
III - impossibilidade de desempenho da atividade que exerciam à época do acidente, porém permita o desempenho de outra, após processo de reabilitação profissional, nos casos indicados pela perícia médica do INSS.
A título de ilustração, transcrevemos abaixo o anexo III do RPS.
Regulamento da Previdência Social – Anexo III Situações que dão direito ao auxílio-acidente I - Aparelho visual
a) acuidade visual, após correção, igual ou inferior a 0,2 no olho acidentado;
b) acuidade visual, após correção, igual ou inferior a 0,5 em ambos os olhos, quando ambos tiverem sido acidentados;
c) acuidade visual, após correção, igual ou inferior a 0,5 no olho acidentado, quando a do outro olho for igual a 0,5 ou menos, após correção;
d) lesão da musculatura extrínseca do olho, acarretando paresia ou paralisia;
e) lesão bilateral das vias lacrimais, com ou sem fístulas, ou unilateral com fístula.
II - Aparelho auditivo
a) perda da audição no ouvido acidentado;
b) redução da audição em grau médio ou superior em ambos os ouvidos, quando os dois tiverem sido acidentados;
c) redução da audição, em grau médio ou superior, no ouvido acidentado, quando a audição do outro estiver também reduzida em grau médio ou superior.
III - Aparelho da fonação Perturbação da palavra em grau médio ou máximo, desde que comprovada por métodos clínicos objetivos.
IV - Prejuízo estético Prejuízo estético, em grau médio ou máximo, quando atingidos crânios, e/
ou face, e/ou pescoço ou perda de dentes quando há também deformação da arcada dentária que impede o uso de prótese.
V - Perdas de segmentos de membros
a) perda de segmento ao nível ou acima do carpo;
b) perda de segmento do primeiro quirodáctilo, desde que atingida a falange proximal;
c) perda de segmentos de dois quirodáctilos, desde que atingida a falange proximal em pelo menos um deles;
d) perda de segmento do segundo quirodáctilo, desde que atingida a falange proximal;
e) perda de segmento de três ou mais falanges, de três ou mais quirodáctilos;
f) perda de segmento ao nível ou acima do tarso;
g) perda de segmento do primeiro pododáctilo, desde que atingida a falange proximal;
h) perda de segmento de dois pododáctilos, desde que atingida a falange proximal em ambos;
i) perda de segmento de três ou mais falanges, de três ou mais pododáctilos.
a) redução em grau médio ou superior dos movimentos da mandíbula;
b) redução em grau máximo dos movimentos do segmento cervical da coluna vertebral;
c) redução em grau máximo dos movimentos do segmento lombo-sacro da coluna vertebral;
d) redução em grau médio ou superior dos movimentos das articulações do ombro ou do cotovelo;
e) redução em grau médio ou superior dos movimentos de pronação e/ou de supinação do antebraço;
f) redução em grau máximo dos movimentos do primeiro e/ou do segundo quirodáctilo, desde que atingidas as articulações metacarpo-falangeana e falange-falangeana;
g) redução em grau médio ou superior dos movimentos das articulações coxofemoral e/ou joelho, e/ou tíbio-társica.
VII - Encurtamento de membro inferior Encurtamento de mais de 4 cm (quatro centímetros).
VIII - Redução da força e/ou da capacidade funcional dos membros
a) redução da força e/ou da capacidade funcional da mão, do punho, do antebraço ou de todo o membro superior em grau sofrível ou inferior da classificação de desempenho muscular;
b) redução da força e/ou da capacidade funcional do primeiro quirodáctilo em grau sofrível ou inferior;
c) redução da força e/ou da capacidade funcional do pé, da perna ou de todo o membro inferior em grau sofrível ou inferior.
IX - Outros aparelhos e sistemas
a) segmentectomia pulmonar que acarrete redução em grau médio ou superior da capacidade funcional respiratória; devidamente correlacionada à sua atividade laborativa.
b) perda do segmento do aparelho digestivo cuja localização ou extensão traz repercussões sobre a nutrição e o estado geral.
As doenças profissionais e as do trabalho, que após consolidações das lesões resultem sequelas permanentes com redução da capacidade de trabalho, deverão ser enquadradas conforme o art.
104 do RPS.
2.8.2 Situações que não dão direito ao auxílio-acidente
De acordo com o §4º do art. 104 do RPS, não dará ensejo ao auxílio-acidente o caso:
2.8.3 Perda da audição
A perda da audição, em qualquer grau, somente proporcionará a concessão do auxílio-acidente, quando, além do reconhecimento de causalidade entre o trabalho e a doença, resultar, comprovadamente, na redução ou perda da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia (Lei 8.213/91, art. 86, § 4º).
Assim, nos casos de perda da audição, para que o segurado tenha direito ao auxílio-acidente, devem ser cumpridos, cumulativamente, dois requisitos:
a) nexo causal entre o trabalho exercido e a perda da audição;
b) redução ou perda da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia, em decorrência da perda da audição.
Inexistindo nexo causal entre o trabalho exercido e a perda da audição, o segurado não terá direito ao auxílio-acidente. Mesmo existindo esse nexo causal, mas se a perda da audição não provocar a redução ou a perda da capacidade laborativa, o segurado também não terá direito ao auxílio-acidente.
2.8.4 Beneficiários
De acordo com o § 1º do art. 18 da Lei 8.213/91, somente poderão beneficiar-se do auxílio-acidente os seguintes segurados:
a) Empregado;
b) Empregado doméstico;
c) Trabalhador avulso; e d) Segurado especial.
Na hipótese de o trabalhador ter exercido, durante sua vida profissional, diversas atividades, enquadrando-se em diferentes categorias de segurado, para fins de concessão do auxílio-acidente, considerar-se-á a atividade exercida na data do acidente (RPS, art. 104, § 8º). Assim, para que o benefício seja concedido é necessário que, na data do acidente, o trabalhador esteja exercendo alguma atividade que o enquadre como segurado empregado, trabalhador avulso, empregado doméstico ou segurado especial.
Cabe a concessão de auxílio-acidente oriundo de acidente ocorrido durante o período de manutenção da qualidade de segurado (período de graça), desde que atendidas às condições inerentes à espécie (RPS, art. 104, § 7º).
2.8.5 Acumulação
O recebimento de salário ou concessão de outro benefício, exceto de aposentadoria, não prejudicará a continuidade do recebimento do auxílio-acidente (Lei 8.213/91, art. 86, § 3º).
É vedada a acumulação de auxílio-acidente com qualquer aposentadoria (Lei 8.213, art. 86, § 2º).
STJ entende ser possível a acumulação do auxílio-acidente com a aposentadoria por incapacidade permanente, no caso de o acidente gerador da incapacidade ter ocorrido antes da vigência da Lei 9.528/97 (AgRg no Ag 1.205.215/SP, Rel. Min. Adilson Vieira Macabu, 5ª Turma, DJe 03/05/2011).
Não é permitida a acumulação de mais de um auxílio-acidente (Lei 8.213/91, art. 124, V). Assim, quando o segurado em gozo de auxílio-acidente fizer jus a um novo auxílio-acidente, em decorrência de outro acidente, serão comparadas as rendas mensais dos dois benefícios e mantido o benefício mais vantajoso.
No caso de reabertura de auxílio por incapacidade temporária em razão do mesmo acidente que tenha dado origem a um auxílio-acidente, este será suspenso até a cessação do auxílio por incapacidade temporária reaberto. O auxílio-acidente suspenso será restabelecido após a cessação do auxílio por incapacidade temporária reaberto (RPS, art. 104, § 6º).
Note-se que, em regra, não é vedada a acumulação de auxílio-acidente com auxílio por incapacidade temporária. Só não pode acumular quando se trata de reabertura de auxílio por incapacidade temporária decorrente do mesmo acidente que deu origem ao auxílio-acidente. Neste caso, reabre-se o auxílio por incapacidade temporária e suspende-reabre-se o auxílio-acidente enquanto durar o auxílio por incapacidade temporária.
2.8.6 Carência
A concessão do auxílio-acidente independe de carência (Lei 8.213/91, art. 26, I).
2.8.7 Renda mensal inicial
O auxílio-acidente mensal corresponderá a cinquenta por cento do salário-de-benefício (Lei 8.213/91, art. 86, § 1º). O salário-de-benefício que servirá de base de cálculo para o auxílio-acidente será aquele que deu origem ao auxílio por incapacidade temporária do segurado, corrigido até o mês anterior ao do início do auxílio-acidente (RPS, art. 104, § 1º). Sobre esse salário-de-benefício será aplicada uma alíquota de 50%, para fins de cálculo da renda mensal inicial do auxílio-acidente.
O auxílio-acidente poderá ter valor inferior a um salário mínimo, pois este benefício não substitui o rendimento do trabalho do segurado. Pode ser acumulado com o salário e com outros benefícios, exceto aposentadoria. O valor mensal do auxílio-acidente integra o salário de contribuição, para fins de cálculo do salário de benefício de qualquer aposentadoria (Lei 8.213/91, art. 31). Mas para fins de cálculo da contribuição previdenciária, o auxílio-acidente não integra o salário de contribuição (Lei 8.212/91, art. 28, § 9º, “a”).
2.8.8 Data de início do benefício
O auxílio-acidente será devido a contar do dia seguinte ao da cessação do auxílio por incapacidade
Conforme jurisprudência do STJ, não havendo concessão de auxílio por incapacidade temporária, bem como ausente o prévio requerimento administrativo para a concessão do auxílio-acidente, o termo inicial para o recebimento desse benefício é a data da citação do INSS, dado ser este o momento em que a autarquia previdenciária toma efetivo conhecimento da pretensão da parte autora (AgRg no Ag 1.364.221/SP, Rel. Min. Celso Limongi, 6ª Turma, DJe 25/05/2011).
2.8.9 Cessação do benefício
O auxílio-acidente será devido até a véspera do início de qualquer aposentadoria ou até a data do óbito do segurado (Lei 8.213/91, art. 86, § 1º).
Assim, de acordo com a Lei 8.213/91, só há duas hipóteses de cessação do auxílio-acidente:
aposentadoria ou óbito do segurado. No entanto, o art. 129 do RPS estabeleceu uma nova hipótese de cessação do auxílio-acidente: “o segurado em gozo de auxílio-acidente, auxílio-suplementar ou abono de permanência em serviço terá o benefício encerrado na data da emissão da certidão de tempo de contribuição”. Tal certidão é expedida para que o segurado possa se aposentar por um regime próprio de previdência, contando para esse fim com o seu tempo de contribuição para o RGPS. Trata-se da denominada contagem recíproca de tempo de contribuição. Esta hipótese de cessação do auxílio-acidente é de discutível legalidade, pois não se encontra amparada pela Lei 8.213/91. Não havendo tal previsão na Lei, não cabe à autoridade administrativa legislar, limitando o direito do segurado ao benefício.
Quadro-resumo – Auxílio-acidente
Fato gerador Sequela decorrente de acidente que implique a redução da capacidade para o trabalho que o segurado habitualmente exercia.
Beneficiários Empregado, trabalhador avulso, empregado doméstico e segurado especial.
Carência Não é exigida.
Renda mensal 50% do salário de benefício.
Início do benefício A partir do dia seguinte ao da cessação do auxílio por incapacidade temporária.
Cessação do benefício Aposentadoria do segurado; Morte do segurado; ou Emissão da certidão de tempo de contribuição.