• Nenhum resultado encontrado

Bélgica: a herança do Code e o bail emphytéotique

3 ENFITEUSE E DIREITO COMPARADO: (DES)CONTINUIDADES E MUTAÇÃO

3.2 Bélgica: a herança do Code e o bail emphytéotique

A enfiteuse está prevista na legislação civil e administrativa belga, nas legislações das 3 regiões, a Valônia, a Flandres e a de Bruxelas capital. Vem sempre associada ao direito de superfície com as disposições legais incidindo simultaneamente sobre os dois institutos na maioria dos casos. No título XVIII anexos ao Código Civil em 1851, a enfiteuse aparece no artigo 45(2118)139, elencado no Capítulo III das hipotecas, na tendência geral das codificações e legislações no século XIX, de proteção ao crédito. Os direitos reais afetados por uma crônica crise de registros, por conta das mudanças não só legislativas mas sobretudo políticas e sociais, as vezes revolucionárias, tiveram na regulação hipotecária um a primeira forma mais racionalizada de escrituração. Com a enfiteuse isso também aconteceu, a formalização hipotecária.

O artigo 577-6 do Código Civil de 1804, em vigor com as alterações recentes de 2010 situa a enfiteuse no Capítulo III da “Copropriedade”, ao lado da superfície, usufruto, uso e habitação. O regime de assembleia e de representação associa a copropriedade à forma coletiva de gestão de imóveis. A legislação civil na Bélgica é uma compilação cujas influencias vêm do Código de Napoleão, de 1804, passando pelo Bugerlijk Wetboek de 1838 e 4 títulos anexados posteriormente, entre os quais o Título XVIII de “Privilèges et

hypothéques” de 1851. A Lei das Enfiteuses é de 10 de janeiro de 1824, restaurada pelos

holandeses juntamente com a superfície, pois era muito usado, especialmente na Frísia. A revolução de 1830 que separa a Bélgica das Províncias Unidas não retira a enfiteuse e a superfície do ordenamento (LECOCQ, 2009, p. 11)140.

Na Bélgica o tema da enfiteuse (Bail Emphyteotique e Erbpacht) aparece muitas vezes nas decisões da Corte Constitucional. No Acórdão 93/2014, de 19 de junho de 2014, a discussão é referente aos tributos incidentes sobre os contratos, no qual se distingue o “leasing” (Mietvertrag) e enfiteuse (Erbpacht). No primeiro, há a detenção de locação e no segundo, a ativos imobiliários, constituindo situações jurídicas distintas para efeito de tributação. A Lei belga distingue “renda” sobre solo e arrendamento do mesmo (Art. 7º da EStGB, de 1992). O Acórdão discute a anulação total ou parcial de dispositivos de lei orçamentária e financeira e os lançamentos, a questão enfitêutica se relaciona assim a natureza das rendas imobiliárias.

139 Art. 45. (2118). Sont seuls susceptibles d'hypothèques: 1° Les biens immobiliers qui sont dans le commerce;

2° Les droits d'usufruit, d'emphytéose et de superficie, établis sur les mêmes biens pendant la durée de ces droits. (negrito nosso). Disponível em: http://www.ejustice.just.fgov.be/loi/loi.htm. Acesso em 10 dez. 2015.

140 Lecocq (2009) descreve o abrandamento da regra da exclusividade proprietária do Code francês de 1804 em

No extrato da Decisão nº 183/2014, de 10 de dezembro e 2014, a Corte belga deliberou sobre alteração no Decreto nº 9 de 19 de abril e 1995 que visa combater a negligência e abandono de terras agrícolas. Questionava-se a aplicação de uma “taxa de vacância” aos donos de prédio abandonado pois o Decreto estendeu a condição de proprietário onerado com a taxa aos nus proprietários, além dos usufrutuários e enfiteutas. No direito belga, os terrenos dados em enfiteuse podem já ser edificados e plantados anteriormente ao pacto, sendo transferido o dever de manutenção, por exemplo. A Corte Belga manteve a validade o Decreto supracitado, com a máxima extensão do termo “proprietário” para responsabilizar a todos que direta ou indiretamente mantivessem um imóvel abandonado.

A clareza conceitual quanto ao sujeito passivo da obrigação tributária não impediu a legalidade da cominação e cobrança. No caso de propriedade pública concedida, o direito de usar é deferido a alguém e que, portanto assume o lugar de sujeito passivo tributário, não o ente publico imune.

No Acórdão nº 16/2015 da Corte Constitucional Belga, de 12 de fevereiro de 2015, Processo 5811, tratou a demanda judicial em torno da anulação de um decreto da região de Bruxelas-Capital, de 11 de julho de 2011 e uma portaria e 17 de julho de 2013. A questão envolveu o município e a Igreja de Woluwe-Saint Lambert (Gemeinde) sobre as regras de prioridade na ocupação e apartamentos pertencentes às entidades locais. O uso de imóveis já edificados para efeitos de conservação, restauro e reocupação estão na pauta legislativa e administrativa do país, cujo território sedia boa parte dos órgãos de União Europeia. Conforme se verá adiante, também nesse aspecto de conexão da Bélgica com a União Europeia a questão enfitêutica se manifestará com certa relevância.

A administração “social” de bens imobiliários visando a melhor utilização colocava em conflito, segundo os proponentes da demanda que gerou aquele Acórdão nº 16/2015 da Corte Constitucional Belga, o Código de Habitação de Bruxelas e o Primeiro Protocolo Adicional da Convenção Europeia dos Direitos Humanos141.

São várias as decisões da Corte Belga tendo a enfiteuse como elemento: Acórdão nº 50/2011, de 6 de abril de 2011; nº 144/2013, de 7 de novembro de 2013; nº 6/2012, de 18 de janeiro de 2012; nº 49/2011, de 6 de abril de 2011; A Corte Constitucional, em decisão de 31 de maio de 2010 (Decisão nº 09.0240) nega o resgate de uma enfiteuse pela superveniência de cláusula contratual. Outra de nº 09.0261, de 12 de abril de 2010 que julgou a ação de extinção

141 “Anulação dos artigos 24, 26, 27 § 1, 28, 29, 30 § 2 e 31 do Código de Habitação Bruxelas, substituído pelo

artigo 2 da Portaria de 11 de julho de 2013 (que altera a Portaria de 17 de Julho de 2003), sobre a aplicação do Código de Habitação Bruxelas (Decisão nº 16/2015 – Corte Constitucional Belga).

de enfiteuse de um importante hotel, considerou válida a alegação do proprietário de não ter o estabelecimento (Hotel Holyday Inns da Bélgica) ter respeitado a convenção inicial de ser um hotel de padrão mundial (e a destinação final das mobílias do estabelecimento). A Lei invocada é a da enfiteuse, de 10 e janeiro de 1824, como fundamento diante das inovações contratuais que tendiam a desnaturar o pacto enfitêutico de origem.

O Acordão nº 163.908 de 7 e agosto de 2007 chegou ao Conselho de Estado no contencioso administrativo opondo Trade Mart, Ltd&Co contra Região de Bruxelas-Capital, decidindo questão envolvendo uma enfiteuse que expirara em janeiro de 1973142 e cujo pleito era a ampliação de um estacionamento do estabelecimento com a enfiteuse já expirada. A enfiteuse belga por não ser perpétua ou se prolongar enquanto o enfiteuta mantiver ou incrementar o uso o imóvel, gera muitos conflitos judiciais, levando a crítica de Pascale Lecocq(2007) da insegurança jurídica o modelo belga.

A questão enfitêutica envolvendo a Universidade de Louvaina143 é emblemático da

enfiteuse quando alterada nos seus fundamentos. A enfiteuse belga não sendo perpétua, tem o limite de 99 anos. Para uma instituição universitária isso é pouco e a cidade Louvaina quer retomar o solo com as benfeitorias, muitas delas feitas também em regime de enfiteuse com empresas privadas144. Por outro lado, a universidade garante rendas ao subenfiteuticar áreas edificadas ou loteamentos a volta para a comunidade que se forma em volta das atividades universitárias.

A conexão das emponemata (melhoramentos) e desenvolvimento urbanístico trazida pela universidade é mostrada por Jean Remy145na descrição da cidade de Loouvain. E repete- se com ligeiras alterações nas questões urbanísticas e edilícias na Bélgica. Ali a enfiteuse se situa num quadro normativo conturbado e de insegurança jurídica (LECOCQ, 2009), diferente da vizinha Holanda vista a seguir. As demandas em torno de algumas inovações da enfiteuse belga chegam com frequência ao Tribunal da União Européia146.

142 A aquisição de propriedade fundiária é tema sensível em vários países da Europa, a doutrina da “conexão

suficiente” invocada por alguns países para viabilizar essas aquisições (SPARKES, 2013) e o Acórdão em: app.vlex.com/#WW/search/content_type:2+jurisdiction:BE/bail+emphyteotique/WW/vid/57911062

143 Num artigo que trata da revitalização da enfiteuse na Bélgica por razões fiscais, aumentar as arrecadações dos

entes públicos (LAPIGE, 2012).

144 A conflitiva situação jurídica dos solos onde se edificaram aos prédios da Universidade aparece detalhada na

obra de Lechat (2006, p. 566-568).

145 O autor vê o aspecto urbanístico o incremento trazido pela Universidade e a gestão dos terrenos e prédios em

regime de enfiteuse aparece na obra, como meio de impacto positivo na cidade. (REMY, 2007).

Outline

Documentos relacionados