CAPÍTULO I – REVISÃO DA LITERATURA
CAPÍTULO 4 – RESULTADOS
4.1. b – Relacionamento do casal com os filhos
Este é o terceiro casamento de Vilma. Em seu primeiro, Vilma teve seis filhos com Raimundo, sendo quatro meninas e dois meninos. Vilma não se recorda da idade dos filhos, porém, quando os deixou, a filha mais velha estava com dez anos. Raimundo não quis deixar os filhos com Vilma, motivo pelo qual foram criados por ele e pela cunhada. Vilma acredita que sua filha mais velha deva estar, hoje, com quase cinqüenta anos. No segundo casamento, Vilma não teve filhos com José. Já com Daniel, tem uma filha adotiva, Socorro, registrada como filha biológica do casal. Segundo Daniel, Socorro “foi retirada do hospital ainda novinha e, se fosse hoje, caberia um processo judicial”. Socorro tem trinta e quatro anos, é casada, católica e reside em Goiânia – local em que tem uma “casinha”. Segundo o casal, parece que Socorro sofre de alguma patologia mental: “ela ficou mais tonta do que era porque tinha uma falha. Botaram uma falha nela, não é? Depois disso, a minha sogra falou que quem ia mandar nela era o marido, quando casasse. Aí pronto, acabou. Ninguém manda mais nela”. Daniel relatou que, a partir daí, a filha tornou-se “rebelde”. Vilma justificou a agressividade da filha dizendo que “ela grita porque ela ficou com seqüela”. O casal comentou que Socorro não pôde criar os filhos em função de recomendações médicas.
Daniel e Vilma criam os dois filhos de Socorro: Cristina, de seis anos, e Davi, de quatro anos, que moram com Daniel e Vilma desde o nascimento. Daniel se referiu aos netos com muito
carinho. Socorro, a mãe, escolheu o nome de Cristina, o nome de Davi, entretanto, quem escolheu foi o avô, Daniel. Quando dissemos que mudaríamos o nome das pessoas da família, em nosso relatório, Daniel sugeriu-nos a troca de seu nome por Davi, momento em que se emocionou e afirmou que “estava com muitas saudades”. Segundo Vilma, Daniel tem preferência por Davi, porque o neto não sai de perto do avô quando vai ao hospital, e é “muito apegado” com Daniel. “Davi chora quando fala com o avô ao telefone” e Daniel também chora ao falar com ele. Davi chama o avô de pai e, quando Daniel estava em casa, dormia junto com o casal. Hoje, os netos ficam com uma irmã de Vilma, que “é paga para ficar com eles”. A irmã de Vilma tem um neto, de pouco mais de um ano. Atualmente, integra o lar do casal. Essa foi uma solução encontrada pela família para que Vilma pudesse cuidar de Daniel.
Daniel teve quatro filhos com Joana, todos do sexo masculino. Segundo Vilma, os filhos de Daniel e Joana a tratam bem e sempre mantiveram o respeito por ela. Vilma se sente como se fosse mãe dos filhos de Daniel, inclusive, todos a chamam de mãe. Vilma sempre disse aos filhos de Daniel o que era certo e o que era errado, cuidando de todos eles. Ela afirmou: “eu sempre cuidei deles, eu sempre zelei deles. A mãe cuidou deles, mais eu também cuidei, não é?”. Nas férias, os filhos de Daniel iam para a casa de Vilma, que desempenhava um duplo papel na vida deles: o de esposa (de Daniel) e o de mãe (dos filhos de Daniel e Joana). Daniel revelou-nos “não compreender como poderia existir aquele agarramento diante de tanto rancor” e que isso o conformava, “só podendo ser explicado pela presença de Deus”.
Os filhos de Daniel são: João, com vinte e oito anos; Leôncio, com vinte e cinco anos; Eugênio, com vinte e três anos e Ismael, com vinte e um anos. Segundo Daniel, João é muito caseiro e prefere ficar em casa, junto com a mãe. Vilma nos contou que João gosta de trabalhar com a mãe, dando preferência aos serviços domésticos, ou seja, “aos serviços de mulher”. Apesar
do tom diferente na voz de Vilma, sugerindo certo preconceito, ela acredita que João não seja homossexual e isso foi confirmado, em seguida, por Daniel.
Daniel, Vilma e Joana ajudam os filhos os quais se ajudam. Vilma apresentou um tom diferente em sua voz, ao dizer que Joana ajuda “somente dentro de casa”, dando-nos a impressão de que a ajuda era com o cuidado dos filhos e não com relação ao aspecto financeiro, ou seja, de sustento econômico da família. Ambos disseram que Joana não tem um emprego remunerado. Daniel considera Joana como uma pessoa caseira que, dificilmente, sai de casa. O casal sempre trabalhou fora para ajudar Joana e seus quatro filhos com Daniel.
Quando Daniel se “juntou” com Joana, ela possuía três filhos do seu casamento anterior, que chamam Daniel de “tio”. Hoje, Joana é viúva. Vilma contou-nos que Daniel “se juntou com Joana quando ela ainda estava casada”, o que foi confirmado por ele. Quanto ao fato de as duas mulheres serem casadas na época em que conheceram Daniel, Vilma estabeleceu uma diferença entre ela e Joana dizendo que “ela havia sido raptada enquanto que Joana foi atrás de Daniel”.
Os enteados de Daniel são: Carlos, Maria e Rita e têm quarenta e dois, quarenta e um e quarenta anos, respectivamente. Quando Daniel conheceu Joana, Carlos tinha oito anos. Maria e Rita estavam com sete e seis. Daniel referiu-se a uma de suas enteadas de maneira confusa. Ele disse: “só que ela me trata... Ela novinha, assim... Toda vez que eu falei dela aqui... Nesse dia até falei pra mãe dela, assim...”. No momento em que Daniel estava falando, Vilma bateu com as mãos na maca, demonstrando irritação e impaciência. Após isso, Daniel mudou de assunto imediatamente, referindo-se às atividades laborais das enteadas. Para ele, Maria e Rita são mais trabalhadoras do que os meninos, “que são homens”.
Quando Joana chega ao HAB, geralmente acompanhada por um dos filhos, anuncia-se como esposa de Daniel, o que causa estranheza no agente de portaria. Este impede a entrada de Joana, alegando que a esposa de Daniel, Vilma, já se encontra junto ao esposo.
Segundo Daniel, o relacionamento familiar, antes da descoberta do diagnóstico, era normal e todos viviam juntos. Vilma confirmou essa afirmação.