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Parte II – Herança e Educação Capítulo 3 – A África no Brasil

Capítulo 3.2 Bantus e sudaneses: recriações nacionais

De acordo com Nei Lopes (1988), a matriz bantu é uma das primeiras referências africanas que chega ao Brasil. A sua presença pode ser identificada historicamente desde o séc.XVI, ocupando desde uma vasta região territorial da África, como lugar de origem, como também uma vasta região territorial no Brasil, de norte ao sul do país, passando pelos principais portos de entrada.

A presença bantu é, de acordo com vários pesquisadores, a mais marcante em termos quantitativos, o que é perceptível também nas expressões culturais afro-brasileiras. Porém, os estudos dedicados a essa presença e “o interesse geral e o conhecimento da história e do impacto cultural dos centro-africanos na diáspora Atlântica está muito aquém do dedicado à África Ocidental” (HEYWOOD, 2010, p.18), que significa dizer que os mesmos foram pouco estudados em relação aos outros grupos africanos no Brasil.

Os velhos manuais de História do Brasil costumam dizer, sem maiores explicações, que os negros africanos aqui chegados ou eram Sudaneses ou eram Bantos. Costumam também esses manuais contrapor os Bantos aos

Sudaneses, lançando sobre os primeiros o estigma da mais absoluta inferioridade e mitificando os segundos, principalmente os islamizados (LOPES, 1988, p.1).

Neste sentido, é sempre bom lembrar que os bantus participam de todo processo escravista do início ao seu fim no séc.XIX. Porém, é no século XVII em diante que essa presença é mais acentuada.

Essa discriminação dos Bantos atinge o negro de um modo geral. Porque com toda certeza a grande maioria dos africanos trazidos para o Brasil na condição de escravos veio do vasto território abaixo da grande floresta tropical (África central, Oriental e Austral), que é o habitat dos povos bantofones (LOPES, 1988, p.1).

E, “essa estigmatização que pesa sobre os Bantos repercute no inconsciente brasileiro até hoje, principalmente porque foi formulada, a partir do século XIX, por escritores tidos como luminares da pesquisa científica” (LOPES, 1988, p.1). Entre eles, destaca Silvio Romero, Nina Rodrigues, Afrânio Peixoto, Oliveira Viana, Braz do Amaral, Manuel Diegues Junior e até mesmo Caio Prado Jr que diz:

Não esqueçamos que o escravo brasileiro era em regra o africano boçal recrutado entre as nações de mais baixo nível cultural do continente negro. Os povos negros mais cultos são os do Sudão, isto é, de regiões situadas ao norte do Equador, onde o tráfego se proibira desde 1815 (PRADO JUNIOR apud LOPES, 1988, p.3).

De acordo com Nei Lopes, o primeiro intelectual brasileiro a reconhecer a relevância dos povos de matriz bantu foi Artur Ramos.

Essa análise de Lopes revela que além dos enormes abusos sofridos pela condição da escravidão e pós-abolição, que condenou a população negra em sua grande maioria à exclusão, os bantus ainda sofriam, entre os negros, as maiores e obstinadas discriminações, o que pode levar a pensar que por fazerem parte da maior população negra do país a sua organização e reivindicações atrapalharia os projetos de embranquecimento no Brasil.

No entanto, a cultura que mais é frequente em solo brasileiro oriunda do continente africano é a de matriz bantu. A recriação de costumes, de hábitos, de formas de ser ligadas aos bantus em território nacional foi das mais audaciosas e frequentes, por isso, se dizer que grande parte da cultura afro-brasileira se refere à matriz bantu. Estudar as resistências quilombolas é refazer essa presença bantu no Brasil, os pesquisadores anteriormente citados, por exemplo, “não viram a República Livre de Palmares como um Estado criado e dirigido por Bantos” (LOPES, 1988, p.4).

A escravidão promoveu encontros culturais entre negros de outras origens, em especial do oeste da África que, em alguns casos, chegam ao Brasil logo no início da escravidão, tais

como, os mandingas, oriundos do antigo Império do Manden. Porém, os traços marcantes das culturas de matriz bantu serão configurados no Brasil e, posteriormente reconhecidos em várias manifestações, até mesmo pelo nome de origem em diferentes línguas bantu, são elas: a capoeira, o samba, o maracatu, o jongo, a caiumba (batuque de umbigada), o coco, a tiririca, o caxambu, o candomblé da nação congo-angola, o tambor de criola, o candombe, a congada, entre outras.

Essas culturas (re)conhecidas em nosso país revelam um panorama do que estamos falando. Assim, encontrar essas culturas é deparar-se com séculos de presença bantu no país.

Apesar dessa presença extraordinária dos centro-africanos no Brasil colonial e do fato da cultura inicial afro-brasileira ter sido em grande parte proveniente da África Central, poucos estudos têm detalhado esse processo em profundidade (HEYWOOD, 2010, p.19).

Já os sudaneses, o termo não se refere ao país Sudão, mas ao grupo formado por várias etnias oriundas do oeste africano, envolvendo hoje vários países. Os sudaneses chegam ao Brasil em distintos momentos da escravidão, na fase inicial chegam alguns grupos de forte traço da religião islâmica o que, segundo o historiador João José Reis (2003), causou grandes dificuldades aos colonizadores, pois esses não imaginavam o grau de letramento desses grupos, muito superior ao dos portugueses, que em sua grande maioria não sabiam ler, pois ao pensarem estarem capturando pessoas de diferentes etnias, portanto, de diferentes idiomas, não imaginaram que a religião islâmica lhes conferia uma identidade similar e, mais do que isso, uma proximidade linguística106, já que todos tinham

conhecimento da língua árabe, inclusive na sua forma escrita. Esses negros que ficariam conhecidos como malês, seriam responsáveis por inúmeras rebeliões no Brasil, sendo a mais conhecida a revolta dos malês de 1835.

Ainda com o grupo sudanês, acontecerá na última fase do tráfico a chegada de negros das etnias ioruba e jejê/fon. O forte São Jorge da Mina, conhecido também como forte Elmina foi um importante porto de saída de escravizados do continente africano.

A região desse forte, onde hoje se localiza a República de Gana, teve também o nome de “Costa do Ouro”, assim como a região da Fortaleza de Ajudá, no antigo Daomé, e também nela compreendida, teve por muito tempo o nome de “Costa dos Escravos”. Essas duas fortalezas, Elmina e Ajudá, além da ilha de Gorée, no Senegal, foram os principais entrepostos, de onde vieram, na última fase do tráfico, os escravos sudaneses para o Brasil (LOPES, 1988, p.37-38).

106 Também existe certa unidade linguística entre os povos bantu, já que uma similaridade entre muitas palavras permitia que nativos de uma determinada etnia tivessem o domínio não somente da sua língua, mas também de vários outros idiomas de etnias que habitavam territórios próximos.

Esses escravizados sudaneses serão conduzidos prioritariamente para as regiões norte e nordeste, com poucos escravizados sendo conduzidos para o sul e sudeste. A chegada deles acontecerá entre o início e meados do séc.XIX, trazendo também um aporte cultural considerável, que pela localização geográfica da sua escravização se concentrará principalmente na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão.

Na Bahia, os iorubas trouxeram no conjunto de suas tradições, a língua e todos os elementos organizativos de sua comunidade, entre eles, os elementos religiosos do culto aos orixás e dos egunguns e, em menor expressão, o culto a Ifá. Atualmente este culto tem recebido um número considerável de iniciados no Brasil, sendo periódica a visita de brasileiros aos locais sagrados dedicados a Ifá no Benin e na Nigéria, assim como a vinda de sacerdotes africanos ao Brasil para realizarem rituais de iniciação.

Apesar de variantes dialetais, os iorubas foram reconhecidos como integrantes de um único grupo no Brasil, por falarem o mesmo idioma e considerarem-se descendentes de Odudwa107, da velha Ile Ifé108. Eram, em

sua maioria, oriundos do Daomé, atualmente, república do Benin, colonizada pelos franceses. Para referir-se a eles, a administração francesa adotou a forma utilizada pelos fon: nagô, nagonu ou anagonu. Enquanto os iorubas ficaram conhecidos no Brasil como nagôs, os fon ficaram conhecidos com jêjes ou minas. Os fon de Abomey, fundadores do antigo reino do Daomé, pertencentes ao povo aja, estiveram durante muito tempo sob o domínio ioruba. Daí a grande similaridade de crenças entre os iorubas, os fon e outros povos de língua ewe (RIBEIRO, 1996, p.126).

No Maranhão, a presença étnica jêje/fon foi bastante marcante, chegando a acontecer, por engano, segundo pesquisas, à escravização da rainha Ná Acotime, mãe do Rei Ghezo109

do Daomé, atual Benin, o que motivou o envio pelo rei Ghezo de comitivas para o Brasil e Caribe na busca por sua mãe. É relevante salientar que essas viagens eram acertadas entre o rei Ghezo, os ingleses e os portugueses por cartas, e as comitivas acompanhadas pelos representantes da corte inglesa e portuguesa, ou seja, haviam relações sociais, econômicas e políticas entre alguns impérios africanos e os colonizadores, ao menos, até o momento em que eles próprios foram escravizados.

107 Ser humano original segundo o mito de origem ioruba.

108 Cidade Sagrada dos iorubas, considerada o primeiro lugar de existência do ser humano.

109 “Adanzan deveria ser o rei de Daomé; no entanto, seu caráter sanguinário faz com que seu pai, Agonglo, consulte Fa para saber se algum outro de seus filhos não dirigiria melhor o país. Fa designa Ghezo, ainda uma criança. Agonglo decide apresentar Ghezo como seu sucessor e confiá-lo a Adanzan, visto que seu fim estava próximo. Adanzan permaneceu no poder, como regente, durante 22 anos e Ghezo teve de lhe tomar o trono a força. Durante o período de regência, Adanzan, que era filho de outra mulher de Agonglo, não hesitou em vender a mãe de Ghezo e uma parte de sua família aos mercadores de escravos. Quando Ghezo, depois de assumir o trono tenta reencontrar sua mãe, a rainha Agotimé, encarrega dessa missão Dossu Yevoo, por suas qualidades de fidelidade e ainda por conhecer a língua portuguesa, Migan Atindebacu o acompanhará. Ghezo, antes da partida, estabelece com eles um pacto, tornando-os seus irmãos, portanto filhos da rainha que eles deviam procurar” (BARRETO, 1977, p.56).

Apesar dessas viagens autorizadas, o rei Ghezo nunca mais reencontrou a sua mãe, que de fato estava no Brasil, na região de São Luís no Maranhão. No Brasil, a rainha-mãe recebeu o nome de Maria Jesuína, sendo ela uma das fundadoras da Casa das Minas110,

templo religioso da tradição jêje de culto aos voduns111. O fotógrafo Pierre Verger, em 1952,

recompõe esta história, devido a sua pesquisa sobre as religiões de matriz africana no Brasil. Muitos anos depois essa narrativa é recuperada pela escola de Samba Beija Flor do Rio Janeiro e se tornou o enredo do carnaval de 2001 com o nome “A Saga de Agotime, Maria Mineira Naê”.

O que é relevante salientar nessa análise da travessia do Atlântico é que nesse processo a cultura foi sendo transformada, passou a ser dialogada já com a nova condição estabelecida, constituindo uma complexa rede de saberes, cuja matriz africana alimenta em um processo permanente de reencontros entre os lugares de saída e de chegada.