Parte I: Epistemologias e Descolonização
Capítulo 2.3 Ubuntu: filosofia africana de matriz bantu
A matriz bantu se refere a uma variedade de povos ligados a um mesmo tronco linguístico, o que possibilita o reconhecimento de similaridades em qualquer uma dessas etnias. Esses povos estão presentes em uma vasta região do continente africano subsaariano que abrange vários países. Nesse contexto desfrutam de elementos culturais próximos. Entre as similaridades estão a língua e uma forma epistêmica que se estende por todo grupo étnico linguístico.
Boa parte dos estudos sobre as etnias bantu recorrem à análise linguística para identificar esses modos comuns. Esta proposta é válida também para a filosofia desses povos, definida sob o termo ubuntu. Pensando que a análise semiólogica e hermenêutica seja também um auxiliar nesse processo, pode-se dizer que
Nós nos encontramos então obrigados, pela força das coisas, de constituir do interior, nossa própria hermenêutica africana, aquela que permitirá compreender validamente nossas realidades socioculturais africanas sem depender de fora. Pois já sabemos cada discurso, seja ele qual for, depois da Grécia clássica, merece lugar na escolha do concerto das ciências, desde que seja o produto de uma sociedade nacional ou etnicamente constituída. Assim, seja ela da filosofia africana e afro-americana e seus métodos (MULUNDWE; TSHAWA, 2007, p.21).
O termo ubuntu é derivado das palavras ubu e ntu, comum em vários idiomas de matriz bantu, significa pessoa no sentido de tornar-se pessoa, um aspecto ontológico do vir-a-ser ou tornar-se que, por si só, já encerra toda uma concepção do que é ser pessoa nessas culturas, trata-se de um pensamento, uma filosofia amparada em uma perspectiva própria, em um modo de pensar a condição humana, em que se retoma as perguntas básicas inerentes ao ato filosófico: Quem sou eu? De onde vim? E para onde vou? Estas questões, independente da articulação mental e cultural que lhes inspirem ou mesmo a maneira como se desdobrarão como formação de conhecimento, são determinantes de modos sócio- culturais diversos e, neste sentido, presentes em todos os povos do mundo.
A própria ideia de que ubu e ntu refere-se a palavra pessoa = muntu, o singular de bantu, além de essência, remete a ideia de que, no mínimo, está se falando de alguma
nuance dessa pessoa, talvez duas representações que se complementam, e assim, ampliam a ideia de uma complexidade integrada em que o ser humano se encontra. Este é o aspecto que os filósofos africanos têm trabalhado desde que Placide Tempels, padre belga, tentou descrever a filosofia bantu, nome homônimo ao livro de sua autoria.
Porém, devido as muitas limitações a que estava submetido e, mesmo assim, realizando um trabalho de qualidade, a pesquisa de Tempels ficou muito aquém do que poderia ser essa perspectiva filosófica, que somente poderia ser aprofundada a partir da perspectiva de alguém mais próximo, uma percepção subjetiva como apresenta Castiano (2010). Esta descrição, segundo Castiano (2010), para o público ocidental irá acontecer na tese de doutoramento do Prof. Dr. Severino Ngoenha de Moçambique, que então irá de modo mais abrangente alcançar aquilo que seria a filosofia bantu.
Após esses trabalhos tornava-se mais evidente que de fato existia uma filosofia na África bantu, desenvolvida por comunidades variadas e sujeitos que se tornaram eminentes filósofos, cuja base de investigação estava pautada nas epistemologias dos povos bantu.
A obra de Tempels, que num primeiro momento tinha como princípio conhecer para ampliar as margens de dominação europeia no continente africano teve, de acordo com o filósofo Paulin Houtundji (2010), um efeito contrário e devastador no campo epistemológico para os europeus, pois a invasão colonial do Congo aconteceu como todas as outras sob os auspícios de uma civilização europeia que se entendia como “totalmente superior aos nativos” e o que a obra de Tempels revela é exatamente o oposto, que os nativos das etnias do antigo Congo belga tinham uma percepção de mundo e do outro, mais elaborada do que os belgas poderiam alcançar naquele momento.
A devastação material do Congo, sentida até os dias de hoje, salienta ainda mais as atrocidades cometidas em nome de um princípio civilizador tido como superior. A bárbarie da ação colonizadora deixou nítido para aqueles que se propuseram a refletir sobre os dramas coloniais, de que a “humanidade superior europeia” estava diante de uma vergonha moral, caso se realizasse a autocrítica. Neste sentido, o pensamento africano e outras formas civilizatórias devastaram a prepotência de tese europeia na constante afirmação de si e negação do outro.
Este “tiro pela culatra”, como se refere Eduardo Oliveira, determinou para os colonizadores um choque, em alguns casos, de consciência, na qual este outro visto como incivilizado era portador de um conjunto epistêmico desafiador, que para alguns levou ao reconhecimento e para outros a tentativa de se conquistar essas epistemologias e acondicioná-las sob os olhares da filosofia ocidental, um assalto epistemológico. E, houve, também, aqueles que achavam necessário sua destruição, devido as possíveis ameaças que continha ao revelar a estupidez e ignorância dos algozes europeus ao conceberem para si as justificações mais absurdas para dominação e colonização de outros povos e culturas.
Sendo assim, do mesmo modo como aconteceu nas escolas dos colonizadores no oeste africano descritas por Amadou Hampaté Bâ (2003) como sufocadoras das culturas locais, também na África bantu as escolas do homem branco, como eram chamadas as escolas ocidentais, implantaram um regime de destruição dos conhecimentos nativos, começando pelo idioma. Todos eram conduzidos a um treinamento para servir a sociedade branca comportando-se como brancos. Eram não-brancos ao serviço dos interesses do dominador. Aqueles que iam para as escolas se formavam na perspectiva de trabalhar para os interesses das empresas de exploração de diamantes, petróleo, entre outros.
Como diz Castiano (2010), concordando com a análise de Dussel (1977), os próprios africanos foram forçados a trabalhar pela sua autodestruição e a destruição dos seus territórios em benefício dos países europeus. É neste contexto que falsas lideranças africanas vão surgir financiadas pelos interesses do capital do explorador. Algumas independências somente serão alcançadas por esses acordos, nos quais o povo era totalmente alheio dos interesses que moviam os contornos políticos das futuras nações.
No entanto, segundo Castiano (2010), mesmo com esse ímpeto e empenho dos países europeus sobre os países africanos, suas colônias, a concepção de mundo e de vida desses povos não foi destruída, ao contrário, manteve-se viva nas comunidades mais distantes, que por algum motivo ficavam longe da mira do olhar do dominador, o panótico que nem tudo vê. Essa possibilidade tática permitiu a transmissão e a manutenção de modos de ser e fazer que se perpetuaram no continente africano e puderam ser mantidos ao longo das diásporas africanas.
A experiência civilizatória europeia não conseguiu eliminar a filosofia africana, que permanece interrogando-se sobre o ser humano e todos os seus contextos por caminhos próprios, mas que dialogam, na medida do possível, com outras referências epistêmicas. Enquanto isso, a Europa e o mundo ocidental ainda se debate a sua pretensa superioridade. Refém de suas próprias limitações, impressas especialmente no sentimento de grande distinção civilizatória, no caso, mais elevada. Esta condição coloca um impedimento perceptivo, no qual o outro continua inexistente ou fora do alcance de interesse.
No continente africano e, mais especificamente na experiência trazida pelo ubuntu, encontra-se um trajeto próprio dessas buscas na qual, de modo distinto ao do ocidental, não compartimentou o ser humano, como o foi na experiência platônica ou cartesiana. Na realidade o olhar dessas culturas africanas é integrador, poderíamos dizer de unidade, no qual as dimensões humanas funcionam e operam em sincronia e harmonia e, é somente nesse modo que elas se tornam eficientes à interpretação e compreensão do próprio homem. É esta a pessoa humana que trata o ubuntu e a qual o termo ntu, como um sentido de ser se refere, neste caso como ontologia. Todas as coisas têm ntu, mas é no homem que
ele se potencializa e realiza o máximo do ser enquanto ser que segue sendo, e sempre com o outro.
Um ser humano integrado ao meio, aos outros e consigo mesmo, cujo sentido de existência somente é possível por meio desse olhar ampliado e unificador. Desse modo, a perspectiva antropológica, psicológica, teológica, biológica, entre outras aparecem todas como uma filosofia africana, o ubuntu.
Filosoficamente, é melhor abordar este termo como uma palavra com hífen, a saber, ubu-ntu. Ubuntu é, na verdade, duas palavras em uma. Consiste no prefixo ubu- e a raiz -ntu. Ubu- evoca a ideia geral de ser-sendo. É o ser- sendo encoberto antes de se manifestar na forma concreta ou modo da ex- istência de uma entidade particular. Ubu- como ser-sendo encoberto está sempre orientado em direção ao descobrimento, isto é, manifestação concreta, contínua e incessante por meio de formas particulares e modos de ser. Neste sentido, ubu- está sempre orientado em direção a -ntu. No nível ontológico, não há separação estrita e literal ou divisão entre ubu- e -ntu.
Ubu- e -ntu não são duas realidades radicalmente separadas e
irreconciliavelmente opostas. Ao contrário, são mutuamente fundantes no sentido de que são dois aspectos do ser-sendo como un-idade e total-idade indivisível. Portanto, ubu-ntu é a categoria fundamental ontológica e epistemológica do pensamento africano dos falantes da língua bantu. É a indivisível un-idade e total-idade da ontologia e epistemologia. Ubu- como entendimento generalizado do ser-sendo pode ser visto como distintamente ontológico. Já -ntu enquanto o ponto nodal em que o ser-sendo assume a forma concreta ou o modo de ser no processo de descobrimento contínuo pode ser visto como distintamente epistemológico (RAMOSE, 2002, p.2).
O ser sendo pensado, refere-se ao ser em continuo movimento, tal como apresentado por Hampaté Bâ (2010) na tradição oral. O ubuntu é uma filosofia complexa de características próprias e com afinidade ao modo de ser africano e os seus desdobramentos culturais, mas, de acordo com Ramose (2010), nem por isso inacessível as outras culturas, ao contrário, por partir de um pressuposto ético ela é amplamente aplicável.
Ubuntu é a raiz da filosofia africana. A existência do africano no universo é
inseparavelmente ancorada sobre ubuntu. Semelhantemente, a árvore de conhecimento africano deriva do ubuntu com o qual é conectado indivisivelmente. Ubuntu é, então, como uma fonte fluindo ontologia e epistemologia africana. Se estas últimas forem as bases da filosofia, então a filosofia africana pode ser estabelecida em e através do ubuntu. Nosso ponto de partida é que ubuntu pode ser visto como base da filosofia africana. Para além de uma análise linguística de ubuntu, um argumento filosófico persuasivo que poderá criar toda uma “atmosfera familiar” que é um tipo de afinidade filosófica e um parentesco entre o povo nativo da África. Sem dúvida teremos variações entre esta ampla “atmosfera familiar” filosófica. Mas o sangue circulando entre os membros da “família” é, na base, o mesmo. Neste sentido, ubuntu é a base da filosofia africana (RAMOSE,1999, p.1).
O ubuntu pode ser identificado no enorme conjunto de práticas culturais dos povos bantu, mas pode ser identificado também por seus elementos no modo de pensar e ser
que se revela sob diferentes aspectos na comunidade, seja no campo econômico, político, ambiental, entre outros. Vejamos,
Para a exposição da ontologia bantu de Ruanda, Kagame parte de um estudo da sua língua materna, o kinyaruanda. Como todas as línguas
bantus, é uma língua “de classes”, ou seja, os substantivos não se dividem
a partir de uma regra gramatical, como acontece em nossas línguas, em masculinos, femininos e neutros, ao invés disso se agrupam em classes. Existem classes para os homens, para seres mágicos entre os quais contam também as árvores, para ferramentas, líquidos, feras, lugares, abstratos etc. A classe de uma palavra se conhece por um som ou um grupo de sons que precedem a raiz e que os gramáticos europeus chamam “prefixo” e Kagame, com muito sentido, designa “determinativo”. Pois um prefixo como “in” em “impossível” pode ser separado da raiz, e essa, segue sendo uma palavra com sentido “possível”. No entanto, na língua bantu a raiz sem determinativo não produz uma palavra, perde sua significabilidade e não aparece no uso linguístico (JANH, 1970, p.117). Tradução de Marcos Carvalho Lopes.
Ao ampliar os horizontes relacionais a partir de um modo de ser e estar, temos os equivalentes correspondentes a essa postura deslocados para qualquer situação, ou seja, mesmo que não se esteja imerso diretamente nas práticas culturais que alimentam esses olhares em seus ritos, símbolos e imagens, expressos em uma estética própria, eles carregam os valores éticos, epistemológicos, capazes de posicionarem o sujeito em qualquer ação que se disponha.
No campo econômico procurará estabelecer relações mais justas e, sendo esse critério estendido às ações governamentais, estabelece uma conduta financeira mais humana e honesta em que o outro seja respeitado, e se isso é impossível ao mundo capitalista, é contra ele que o ubuntu pode ser acessado. Para Fu Kiau (2001), o modo de estar no mundo expresso na cosmopercepção bantu se relaciona ao todo da vida, portanto, a filosofia bantu tem por princípio também a valorização dessa atenção que se estende a toda criação.
Um exemplo do ubuntu praticado, vivido, também como uma filosofia da práxis em outros contextos é a experiência de Nelson Mandela. Este líder político quando foi liberto após 28 anos de prisão por um regime segregador, o apartheid, na África do Sul, constitui, quando eleito presidente, um governo de coalisão com os membros do antigo regime, junto com os representantes africanos das mais variadas etnias e suas representações políticas. Esse acordo não foi facilmente aceito, e muitas vezes sofreu rejeições diretas, mas o mesmo revela o seu sentido pautado no ubuntu. No ubuntu se revela “que ser humano é afirmar a humanidade própria através do reconhecimento da humanidade dos outros, e sobre tal embasamento, estabelecer relações humanas respeitosas para com eles” (RAMOSE, 2010, p.212).
O próprio bispo Desmont Tutu na África do Sul, embora representante da Igreja anglicana, diz que as suas ações são pautadas na filosofia ubuntu que aprendeu com seus pais, que ao olhar para a práxis do Cristo enxerga nela o ubuntu. Essa perspectiva de Desmont Tutu revela uma possibilidade de diálogo contra-hegemônico no qual pela perspectiva do colonizador, o cristianismo é o portador desses valores que devem ser aceitos passivamente pelos colonizados, aqui temos outra possibilidade, o reconhecimento dos valores cristãos como próximos aos da própria cultura africana. Esse é o caminho do encontro, do diálogo que se propõe o ubuntu. É o caminho que determina o reconhecimento do outro. O ubuntu faz parte da filosofia de tradição oral como também a tradição oral faz parte do ubuntu.
O ubuntu é na esfera da filosofia bantu, uma etnofilosofia, mas é também uma filosofia dos sábios que discute um amplo conjunto de temas contribuindo em vários campos da discussão filosófica em qualquer situação e temporalidade.
As categorias da filosofia bantu descritas por Kagame são de acordo com Janh (1970),
1.
Muntu = “homem” (plural: bantu). 2. Kintu = “coisa” (plural: bintu). 3. Hantu = “lugar e tempo”. 4. Kuntu = “modalidade”. (1970, p.117)91. Sendo assim, “Muntu, kintu, hantue kuntu são as quatro categorias da filosofia africana. Todos os seres, todas as essências, em qualquer forma que se apresentem, encerram-se em uma dessas categorias” (1970, p.117)92. O ubuntu, segundo Ramose é a quinta categoria que entrelaça e comunica todas
as outras. Desse modo o ubuntu é uma filosofia de vida, cuja práxis esta na existência.