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CAPÍTULO 3: BARNABOOTH, LE RICHE AMATEUR

3.2. Barnabooth, palavra em devir

Ainda em função das reverberações que Barnabooth vai provocar no meio literário e o estatuto que ele alcança, voltemos à nossa epígrafe, desta vez, pensando a eponímia. Em mais um de seus desdobramentos, passemos uma vista no significado encontrado para o termo “epônimo”:

De origem grega, a palavra EPÔNIMO significa “dar ou emprestar seu nome próprio a uma coisa, pessoa, regime, corrente, invento etc.”. EPÔNIMO é o termo que designa um vocábulo criado a partir do nome de algum personagem, real ou fictício, nascendo daí um vocábulo. Exemplos (fiquemos apenas com alguns literários, dos mencionados): shakespeariano (de Shakespeare); dantesco (de Dante Alighieri); sadismo (do Marquês de Sade); arturiano (das lendas do Rei Arthur). http: // www.kathleenlessa.prosaeverso. Acesso em 26.12.2017.

Por definição, o aparecimento aqui da eponímia traz um agregado a nosso pensamento, pois, ao cruzar o campo das “nímias”, da maneira que se conduz, dá uma inesperada amplitude à nossa discussão sobre a heteronímia. Guardadas as diferenças, detectamos nesse processo de “empréstimos” uma sorte de deriva do nome, acarretando um retorno diferente do mesmo, sempre evocado no termo epônimo, pois quem conhece o personagem e não pensa em imprimir o termo “barnaboothiano” e no que ele evoca?

No que concerne propriamente ao nome de Barnabooth, consideremos sua particularidade. A informação é que ele decorre de uma escolha, digamos, arbitrária de Larbaud e que não consta como nenhum patronímico cuja origem possa ser reconhecida. Trata-se, na verdade, da criação de uma palavra-valise, montada a partir de duas palavras inglesas: “Barnes”, de uma localidade próxima a Londres, e “Booth”, de uma rede de farmácias conhecida naquele país, conforme prefácio de Robert Mallet a Les Poésies de A. O.

Barnabooth (1967, p.9).

Nessa composição aparece uma informação adicional é o lugar de destaque exercido pela Inglaterra na vida de Larbaud. Sabendo-se que grande parte de Barnabooth foi escrita a partir daquele país, onde seu autor passou diversas temporadas à época, enquanto estudava o autor inglês Walter S. Landor, para defesa de tese na Sorbonne, trabalho que realmente deixou importantes marcas (intertextuais) na sua escrita.

A imaginação é o que caracteriza o nome de Barnabooth, uma vez que seu criador facultou-se uma denominação que pareceu obedecer apenas à manifestação de seu desejo,

conveniência, ou, seja lá qual for, o ideial que ele tenha concebido. A curiosidade explícita dessa escolha é a composição de elementos totalmente aleatórios, uma vez que, se pensarmos nos mais reconhecidos heterônimos pessoanos, para eles são adotados nomes comumente recolhidos entre os usuais na língua e atribuíveis às pessoas. Ora, em nosso caso, verificamos a junção de um nome de subúrbio e de uma rede comercial. Nada impossível, evidentemente, mas, no mínimo, fora do comum, completamente arbitrário.

Categoricamente, Larbaud vinca seu principal personagem com uma espécie de pedagogia do nomadismo, bem acordante com sua dinâmica. O primeiro, Barnes, um sítio, lugar não só de moradia, como de trânsito, ostensivamente sugestivo da incontornável vertigem que as cidades exerciam sobre ele, provável espaço saturado por ocorrências abundantes, pleno de promessas de desvios, que pudessem ser percorridos anonimamente ou “ninguém”. Esse “ninguém”, suspensivo de encastelamentos identitários, bem à sua disposição de cultor do espanto pelo novo, pela aventura dos devires. Daqui podemos até ousar tirar uma linha que nos conduza a uma das aventuras de Ulisses, quando na gruta do ciclope Polifemo, nomeia-se como “Ninguém”, para escapar àquele de um olho só, ou, de uma visão de extremo foco, unitária, uma vez que o diverso intensifica o modo de olhar, de perceber. E “booth”, que é uma rede comercial?

Sob nosso olhar, Barnabooth, pelo nome, assume de imediato sua provocante máscara de vagante, tão assente com a expressão de sua obra, quando se define para seu biógrafo Tournier de Zamble como amante dos vagabundos, como da espécie dos cães errantes (OEUVRES, 1957, p. 1168), sempre disponíveis ao impensável, ao devir.

Pensando na adjetivação a ele aplicada por Marcel Ray, podemos ampliá-la quando consideramos desdobramentos de Barnabooth na obra máxima de Georges Perec (1936-1982), publicada quase sete décadas depois, o romance A vida modo de usar (Companhia das Letras, 2009), texto emblemático do grupo OULIPO (Ouvroir de Littérature Potentielle), do qual Perec foi um dos expoentes. O romance de Perec é protagonizado por Percival Bartlebooth, personagem também milionário e excêntrico, cujo nome provém de duas outras personagens literárias, um híbrido de Bartleby, de Hermann Melville, e nada menos que de nosso Barnabooth, de Valery Larbaud. Em alguma medida, assiste-se aqui a uma sobrevida, ou a uma variação, como se queira, de Bartleby e de Barnabooth em Bartlebooth. Assim como assistimos a algum tipo de extensão do romance de Octave Feuillet em Barnabooth assistimos a uma potência do devir em intertextualidade.

De maneira sumária, na história de Perrec, Bartlebooth, como Bartlebly, ostenta uma espécie de deriva imóvel e de negação. Como Barnabooth, muitas vezes milionário, em busca

de sentido da vida (do absoluto?), aventura-se além das fronteiras; como ambos, é a afirmação de uma singularidade marcada por irredutível excentricidade, no sentido próprio de uma não- ontologia, da fuga dos formatos oferecidos, os três resistentes ao metro. Enfim, Bartlebooth é a um só tempo bartlebytiano e barnaboothiano. Mais uma palavra-valise e um caso de genoma literário, conforme pudemos encontrar no blog de Iván Rodrigo García Palacios (Lector Ludi- 18 blog 12.01.2006. Acesso em 26.12.2017).

Desconhecemos, no momento, outras filiações a Barnabooth. Mas, ao final desses poucos parágrafos, podemos constatar como nomes, palavras, coisas, personagens são passíveis de ter seus termos ou significados amalgamados, diluídos, nomadizados para novas criações e que, ao se despojarem de um antigo nome e suas caracterizações, transfiguram-se em novas figuras; liquefazem formatos antigos e passam por metamorfoses, para adotar uma linguagem de Michel Serres, (Ramos, p. 94); como vagueiam identicamente aos cães, devêm novos territórios, dotados de novas linhas.

No caso específico do mito, também observamos o mesmo poder de criatividade, uma vez que este sempre adquire novas roupagens, entre tempos e culturas diferentes, assim como na literatura. Queremos enfatizar com essas discussões que, na criação de Barnabooth, Larbaud desenvolve a ideia de que toda unidade é uma ficção, no sentido mesmo de ser merecedora de refutação, incluindo a própria obra, parodiada com o título A. O. Barnabooth.

Suas Obras Completas, isto é, um Conto, suas Poesias e seu Diário Íntimo. Novas relações,

portanto, se realizam no processo do artista. Artista que amplia suas nuances para encontrar no isolamento, na criação de múltiplos, a atmosfera predileta. Trânsito, liminaridade – posições itinerantes, que motivam outras, ampliando-se cada vez mais no mapa geoliterário larbaldiano e, porque não, barbaboothiano.