A IMPLEMENTAÇÃO DA PESQUISA
4.1 BASES CONCEITUAIS
Em termos conceituais, o estudo das indústrias líticas pré-históricas, quando orientado para as questões culturais, está vinculado principalmente às noções de técnica como produto social e o caráter sistêmico da cultura material. Essas noções, advindas principalmente da escola francesa de Etnologia, permitem olhar os objetos como vetores da relação de interação do homem com o meio em que vive, ou seja, é um olhar voltado para os aspectos comportamentais do homem (LEROI-GOURHAN; 1964; LEMONNIER; 1986; BOËDA, 2014).
A gênese dessa linha de pensamento advém das bases conceituais que conduzem os estudos tecnológicos. A tecnologia como “ciência das atividades humanas”, como conceituada por A.-G. Haudricourt (1964: 28), está alicerçada no conceito de técnica de M. Mauss (1947) como “ato tradicional”, e aos apontamentos feitos por A. Leroi-Gourhan (1943; 1964) sobre comportamento técnico e primeiras noções de cadeia operatória.
Esses conceitos e observações, feitos dentro de um viés antropológico, retiram a primazia dos objetos, e incluem os gestos como ponto chave na compreensão do comportamento técnico. A técnica torna-se assim um produto cultural, transmitida e aprendida via tradição, capaz de ligar um indivíduo ao seu grupo social. Portanto, a compreensão das técnicas dá-se via o entendimento dos processos envolvidos na sua execução. Essa percepção sistêmica da cultura, onde o todo é composto de várias partes, é responsável pelo dinamismo e enriquecimento das interpretações da cultura material. Nela, os objetos respondem às demandas criadas também por outros sistemas, além do sistema técnico (MAUSS, 1964; LEROI- GOURHAN 1965; 1971; LEMONNIER, 1986, 1991; INIZAN et al, 1995; BOËDA, 1997).
No aporte tecnológico, a noção de cadeia operatória como a “sucessão lógica de eventos técnicos” (BOËDA,1995), está associada aos aspectos cognitivos que envolvem qualquer ação, ou seja, o esquema mental para realização da ação (o saber e o saber fazer). A associação desses dois elementos forma o esquema operatório lítico, “conceito preliminar de toda atividade técnica”, e envolve as várias etapas necessárias para a produção dos objetos (BOËDA, 1991, 1997; INIZAN et al, 1995). As etapas de produção lítica, ou seja, a cadeia operatória lítica envolve, de maneira geral, quatro momentos: a aquisição de matéria-prima; a obtenção de um
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suporte; a confecção do instrumento idealizado; a sua utilização até o seu abandono. Em cada uma dessas etapas do processo, os elementos de conceito, método e técnica estão presentes.
O conceito é a organização mental que rege a estrutura volumétrica que conduz toda ação de lascamento. Essa estrutura volumétrica é rígida, e respeita as características dadas pelo conjunto de relações hierárquicas e funcionais das propriedades técnicas que a formou. O método corresponde aos gestos racionais executados, por meio de técnicas, durante as operações de produção dos objetos. Esses gestos são apreendidos e transmitidos, são a herança cultural do grupo. Por fim, a técnica é o meio como se aplica o método. Ela é marcada pela combinação dos elementos: o modo de aplicação da força; o tipo de instrumento utilizado para aplicá-la e a maneira como se aplica (PELEGRIN, 1995; INIZAN et al, 1995; BOËDA 1997; LOURDEAU, 2010).
A reconstrução dos métodos e das técnicas é feita através da leitura técnica dos estigmas de lascamento, deixados nas superfícies das peças, ao longo do processo de sua produção. Para a compreensão dos métodos é feita a remontagem física ou mental, da organização sistemática dos gestos. O estudo dos métodos por remontagem física só é possível dentro de um contexto ideal, que possibilite a remontagem dos objetos, já a remontagem mental é feita através da leitura diacrítica de cada peça. O esquema diacrítico é elaborado mediante a identificação da direção, organização e sucessão das retiradas feitas durante a produção dos objetos (DAUVOIS, 1976; INIZAN et al, 1995).
As técnicas são identificadas em cada um dos três elementos que a formam, identificação possível hoje graças aos trabalhos de experimentação das técnicas pré-históricas feitos principalmente por J. Tixier (1967) e J. Pelegrin (2000). O modo de aplicação da força refere-se à percussão direta, bipolar, indireta ou pressão. O tipo de instrumento utilizado para aplicar a força refere-se ao percutor, ou compressor, que pode ser de matéria mineral, animal ou vegetal, dura ou macia. E a maneira de aplicação refere-se ao gesto realizado, que pode ser interno ou marginal, e está ligado ao posicionamento do corpo, do bloco a ser trabalhado e força utilizada nesse processo (PELEGRIN, 2000; LOURDEAU, 2010).
4.2 ANÁLISE TECNOPRODUCIONAL
No estudo dos sistemas técnicos, a análise producional permite responder ao questionamento de como foram feitos os objetos. Em termos de cadeia operatória, o estudo tecnoproducional envolve as fases de obtenção do suporte e confecção dos instrumentos.
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A fase de obtenção do suporte corresponde à etapa onde os suportes desejados para a produção dos instrumentos são obtidos. Esses suportes possuem características morfológicas e dimensionais definidas para atenderem determinados objetivos funcionais, ou seja, possuem uma estrutura volumétrica definida pelo artesão (BOËDA, 1997; 2001; 2013). As formas de obtenção de suportes são:
✓ via seleção no ambiente: que consiste na escolha e coleta de volumes que já possuem as características desejadas;
✓ via façonagem, onde o volume é obtido através da sucessão de retiradas em um bloco, esculpindo-o até a forma desejada. A façonagem pode ser feita de maneira integral, quando todas as superfícies do bloco esculpido são modificadas, ou de maneira parcial, onde somente uma parte do bloco é façonada;
✓ via debitagem, que consiste na obtenção do volume desejado por meio do fracionamento de um bloco, o núcleo, com o objetivo de obter lascas que serão usadas como suportes. Nas produções via debitagem, É. Boëda (1997; 2013) identificou duas categorias de núcleos: adicional e integrado. Núcleos com estrutura adicional correspondem aos blocos que possuem duas partes independentes: o “volume útil”, o núcleo sensu stricto; e uma massa reserva de matéria, não utilizada. Nesse tipo de núcleo, o investimento é feito na seleção de blocos que possuem características naturais propícias para a ação de lascamento. Nos núcleos com estrutura integrada, todo o bloco faz parte do investimento técnico. (BOËDA, 1997, 2013; LOURDEAU, 2010; DA COSTA, 2017).
A fase de confecção dos instrumentos é a etapa onde o suporte produzido ou selecionado ganhará características necessárias para sua funcionalização. Isso pode consistir não só na produção de partes cortantes (ou “gumes”), mas também de partes que possibilitem o funcionamento do objeto. Essa última fase de investimento técnico, normalmente se dá via retoque, que consiste em uma modificação no bordo do suporte, mas que não impacta na sua estrutura volumétrica geral (BOËDA, 1997, 2013; INIZAN et al, 1995; SORIANO, 2000).
A análise tecnoproducional compreende o primeiro nível de uma análise globalizante das indústrias líticas, ela permite determinar as características técnicas do suporte produzido, julgadas necessárias e suficientes pelo produtor para realizar seus objetivos (BOËDA, 2001: 51. Tradução nossa).