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A IMPLEMENTAÇÃO DA PESQUISA

3.3.1 O contexto físico

A região do Parque Nacional Serra da Capivara está localizada no limiar entre a Faixa de Dobramento Riacho do Pontal, que integra a Província Estrutural da Borborema, e a Bacia Sedimentar do Parnaíba. A localização nessa zona fronteiriça criou um ambiente dinâmico em termos paisagísticos, proporcionando diferentes ambientes de ocupação para o homem pré- histórico (SANTOS, 2007; MÜTZENBERG, 2010).

A Faixa de Dobramentos Riacho do Pontal está localizada na zona limítrofe dos estados do Piauí, Pernambuco e Bahia, e é caracterizada por um sistema de dobramento de formato irregular, formada durante o Ciclo Brasiliano. A litologia desse domínio compreende gnaisses, quartzitos, micaxistos, xistos e calcários metamórficos (SANTOS, 2007; MÜTZENBERG, 2010).

A Bacia Sedimentar do Parnaíba é composta por sedimentação homogênea, dos períodos paleozoicos e mesozoicos de aproximadamente 3.500m de espessura. Ela ocupa uma área de 600.000 km², compreendendo os Estados do Piauí e Maranhão, e partes do Ceará, Pará, Tocantins e Bahia. O contorno da bacia é caracterizado pelo perfil assimétrico, de forma circular. As rochas que afloram na região são do período Siluriano e Devoniano, e pertencem ao Grupo Serra Grande (Formações Ipu, Tianguá e Jaicós) que se assenta sob a forma de escarpas abruptas, e o Grupo Canindé (Formações Itaim, Pimenteira e Cabeças). A litologia predominante é composta de conglomerados, arenitos e siltitos (SANTOS, 2007; MÜTZENBERG, 2010) (Figura 11).

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Figura 11. Mapa geológico do Parque Nacional Serra da Capivara. Fonte: LAGESE, 2002.

A correlação entre litologia e matérias-primas utilizadas na produção dos artefatos líticos pré-histórico na região, até o momento, não foi alvo de um estudo de mapeamento de fontes dessas matérias-primas. Porém, com os dados geológicos e de estudos pontuais em geoarqueologia da área do Parque Nacional Serra da Capivara, é possível identificar as fontes das rochas utilizadas. Falaremos apenas das matérias-primas relacionadas a nossa pesquisa, que abarca conjuntos líticos produzidos sobre arenito silicificado, quartzito, quartzo, sílex e

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calcedônia. Embora cada uma dessas rochas e mineral apresentem graus de aptidão para o lascamento diferentes, nos compete aqui que de maneira geral são matérias-primas que apresentam quebra concoidal e são plenamente aptas às atividades de lascamento.

O arenito é uma rocha silicosa de origem sedimentar que passou por processo diagenético de cimentação tornando-o silicificado. A intensidade do processo de cimentação interfere no grau de aderência dos grãos, podendo se apresentar, portanto, com grãos de diferentes tamanhos influenciando no grau de homogeneidade e de aptidão para o lascamento (ARAÚJO, 1992). Na região sudeste do Piauí o arenito silicificado é encontrado em toda área em forma de seixo proveniente de depósitos coluviais e na área nordeste do Parque Nacional Serra da Capivara em depósitos primários que formam as estruturas escalonadas da região do Gongo (SANTOS, 2010).

O quartzito é uma rocha silicosa e pode ser de origem metamórfica, constituída por grãos de quartzo, formado pela recristalização do arenito, ou de origem sedimentar proveniente da diagênese do arenito (GUERRA et al, 1997; BOËDA, 2014). Ele é encontrado em forma de seixo em toda a região do Parque Nacional Serra da Capivara, no conglomerado proveniente da cuesta arenítica e nos depósitos coluviais.

O quartzo é um mineral cristalino encontrado em toda a região na forma de seixo e em zonas específicas na forma de bolsões. Os seixos são encontrados nos conglomerados que formam a zona da cuesta, e na zona de pedimento nos depósitos coluviais. Já em posição primária, o quartzo é encontrado apenas na zona de pedimento, nos limites do município de São Raimundo Nonato (BOËDA, 2016).

O sílex e a calcedônia são rochas sedimentares silicosas, constituídas de quartzo criptocristalino, duras e densas (GUERRA & GUERRA, 1997). Podem ser encontrados em posição secundária na forma de seixos na região sul do município de São Raimundo Nonato, na Lagoa do Quari e nos terraços do Riacho São Lourenço. Existem também na forma de blocos, em posição secundária, nos depósitos coluviais da zona cárstica do Serrote do Sansão, sudeste do Parque Nacional Serra da Capivara. Em posição primária, essas rochas podem ser encontradas na zona nordeste, região do Gongo, nas proximidades do sítio arqueológico Oficina Lítica do Deolindo (RIODA et al, 2011).

Em termos de geomorfologia, o contato entre os dois domínios geológicos, Província Estrutural da Borborema e Bacia Sedimentar da Parnaíba, é responsável pelo relevo de cuesta, predominante na região. Pellerin (2014) definiu três grandes unidades geomorfológicas, que apresentam formas e formações diferentes (Figura 12).

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Figura 12. Vista da região sudoeste do Parque Nacional Serra da Capivara. Identificação das diferentes unidades geomorfológicas.

A unidade leste está representada pela área de pedimento, que se estende até 80km, caracterizada pela planície de erosão escavada entre a cuesta arenítica e a Serra Dois Irmãos, localizada na fronteira entre os Estados do Piauí e Bahia. No pedimento há também os relevos residuais, cristas de calcário metamorfizado do pré-cambriano, localmente chamados de serrotes. Nessa unidade concentram-se os sítios a céu aberto e os sítios cársticos (PELLERIN, 2014).

A unidade centro é a zona de cuesta, caracterizada pela cuesta dupla, de escarpa erosiva (front), com desnível entre 200 e 250m entre o topo e o pedimento, formando canyons profundos. Nessa unidade, está localizada a maior parte dos sítios da região, os abrigos sob rocha. Esses sítios se encontram no front da cuesta, na região sudeste do Parque Nacional Serra da Capivara, caracterizada pelo relevo completamente dissecado. A cobertura sedimentar é inconsolidada, formada pelos depósitos coluviais, e pela dissecação dos paredões (PELLERIN, 2014; SANTOS, 2007; MÜTZENBERG, 2010).

A unidade oeste está representada pela área de planalto formado no reverso da cuesta. O planalto é caracterizado por um relevo regular e suavemente inclinado, cortado por vales profundos e encaixados, denominados de cornijas de arenito subverticais. Nessa unidade geomorfológica, encontra-se a região da Serra Branca, localizada a noroeste do parque. Essa área é caracterizada pela porção alta do planalto e por um vale, resultante da drenagem, na

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encosta do qual se encontram os sítios arqueológicos. O vale da Serra Branca se estende por aproximadamente 45 km. As encostas, formadas pelo declive entre a área do planalto e o vale, podem apresentar três tipos de morfologia: com rocha totalmente denudada; com cobertura de sedimentos inconsolidados, depositados de forma inclinada formando rampas de colúvio; e com rocha parcialmente denudada, com sedimentos depositados à baixa encosta (PELLERIN, 2014; SANTOS, 2007; MÜTZENBERG, 2010).

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