CONTEXTO DA PESQUISA
1 O POVOAMENTO PRÉ-HISTÓRICO BRASILEIRO EM CONTEXTO CONTINENTAL E O APORTE DOS DADOS DA REGIÃO DA SERRA DA
1.2 OS PRIMEIROS POVOAMENTOS DO BRASIL CENTRAL
1.2.1 As ocupações pleistocênicas
Como mencionamos, as poucas ocupações pleistocênicas registradas em território brasileiro estão localizadas no Brasil Central. A maior parte de sítios datados para os períodos pleistocênicos está na região do Parque Nacional Serra da Capivara, que será objeto de uma parte específica do presente capítulo. Além dos sítios da região sudeste do Piauí, uma importante ocupação é verificada no sítio Santa Elina.
O sítio rupestre de Santa Elina está localizado na região da Serra das Araras, sul do Estado do Mato Grosso. Esse grande abrigo, de aproximadamente 60 m de comprimento, foi escavado entre os anos 1985 e 2005 sob a direção de D. Vialou e A. Vilhena-Vialou. A área de intervenção de 80m² revelou uma ocupação pleistocênica de 25.000 anos AP, atestada por uma indústria lítica sobre lasca e placas de calcário (VILHENA-VIALOU, 2011). Essa matéria- prima foi utilizada na produção de instrumentos com retoques preferencialmente denticulados. Esse material está associado a restos de fauna extinta, Glossotherium, entre os quais osteodermos modificados por abrasão e perfuração, uma excepcionalidade dentro dos sítios pleistocênicos do Brasil (VILHENA-VIALOU, 2011; VIALOU et al, 2017).
Outro sítio que possui uma data recuada é Lapa Vermelha VI. Esse abrigo está inserido no complexo cárstico da região de Lagoa Santa, centro do Estado de Minas Gerais. As escavações realizadas na década de 1970 por A. Laming-Emperaire revelaram uma indústria lítica sobre quartzo, possivelmente associada à data de 22.000 anos AP (PROUS, 1992). A
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dificuldade de associação das camadas pleistocênicas com a indústria lítica, gerada tanto pela natureza do local, um sumidouro, e pela ausência de muitos dados topográficos, é um ponto de impasse para confirmação desse sítio como registro de ocupação pleistocênica.
1.2.2 A ocupação consolidada do Holoceno antigo
Durante a transição Pleistoceno-Holoceno e o Holoceno antigo, em torno dos 13.000 a 8.000 anos AP, os dados se ampliam indicando que o território brasileiro, excluindo a Amazônia (para o qual, ainda, se tem poucos dados), se encontrava ocupado em quase toda a sua extensão. Há sítios ligados cronologicamente a esse período, no Brasil Central e região Sul, que atestam diferentes modalidades de ocupação e cultura material distinta (DIAS, 2004; BUENO & DIAS, 2015).
No Brasil Central, as ocupações atestadas mostram um período de renovação e originalidade técnica nos conjuntos líticos, e a inserção de um novo elemento, as pinturas rupestres. Salientamos que a bibliografia sobre os registros gráficos aponta para uma diversidade de estilos e temáticas entre as manifestações das diferentes regiões do Brasil Central, notavelmente nas áreas do Nordeste e Centro do Brasil (PROUS, 1992; MARTIN, 2013).
Já as indústrias líticas do Brasil Central apresentam de maneira geral homogeneidade nesse período, sendo as ocupações associadas ao Tecnocomplexo Itaparica, com exceção da região de Lagoa Santa, região central de Minas Gerais, onde as ocupações do Holoceno inicial estão associadas a uma indústria lítica sobre quartzo e quartzito com características distintas (CALDERÓN, 1969; PROUS, 1992; SCHMITZ, 1987; 1980; FOGAÇA, 2001; BUENO, 2005; LOURDEAU, 2010).
O termo Tecnocomplexo Itaparica foi introduzido por A. Lourdeau em substituição ao termo Tradição Itaparica, adequando a nomenclatura a uma visão mais estreita das indústrias e dando sentido de unidade temporal e geográfica associada a um sistema técnico semelhante (LOURDEAU, 2010). Esse sistema técnico foi descrito pelo pesquisador como um sistema original, regido pela complementaridade entre instrumentos sobre lasca de estruturas e potenciais funcionais variados, e peças façonadas unifacialmente com uma face plana
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(PFUFP2), comumente chamadas de “lesmas”, ou “plano-convexos” e elemento central desse sistema. Segundo definição do autor, a PFUFP obedece a princípios técnicos específicos: de volume (um suporte alongado simétrico no eixo longitudinal, com uma face plana), de produção (uma lasca façonada unifacialmente), de estrutura tecnofuncional (uma peça que contém ao menos um instrumento com parte ativa localizada na extremidade) e um princípio de longevidade (o suporte é capaz de suportar várias fases de afiação e reorganização tecnofuncional) (LOURDEAU, 2010; 2012; 2014).
O Tecnocomplexo Itaparica abrange uma grande extensão territorial compreendendo os Estados centrais (Goiás, Minas Gerais, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) e do Nordeste (Piauí e Pernambuco). Excluindo aqui a região sudeste do Piauí, os conjuntos de sítios com maiores informações sobre o Tecnocomplexo Itaparica estão localizados nas regiões do Lajeado (Tocantins), Serranópolis (Goiás) e Vale do Peruaçu (Minas Gerais).
Na região do Lajeado, L. Bueno identificou cerca de 130 sítios arqueológicos em uma área de aproximadamente 210 km² ao longo do rio Tocantins. Em alguns, foram atestados uma densa ocupação com datas entre 12.400 e 10.200 anos cal AP, nomeada por Bueno de Horizonte 1 (BUENO, 2005; 2006). A indústria lítica associada a esses níveis apresenta um rico conjunto de instrumentos retocados sobre lasca que acompanha as PFUFP.
Em Serranópolis o sítio emblemático para o período é o GO-JA-01, intensamente estudado por P. Schmitz como base para a definição de fases da Tradição Itaparica (SCHMITZ, 1976; 1978a; b; 1980; 1981; 1986; 1987; 1999; 2002a; b; 2005; SCHMITZ et al, 1977, 1989, 1997; 2004). Os níveis Itaparica possuem datas entre 12.400 e 10.000 anos cal AP. A indústria foi detalhada por A. Lourdeau (2010) em seu estudo sobre o Tecnocomplexo Itaparica.
No Vale do Peruaçu, norte de Minas Gerais, a Lapa do Boquete apresenta níveis de ocupação com datas 14.122 e 10.800 anos cal AP. As indústrias desses níveis foram descritas por E. Fogaça, e posteriormente, por M-J. Rodet, que foram uníssonos em associá-las as indústrias Itaparica (FOGAÇA, 2001; RODET, 2005).
1.2.3 A mudança cultural no Holoceno médio
2 A partir daqui adotaremos a mesma sigla utilizada por Lourdeau (2010) para as peças façonadas unifacialmente
com uma face plana (PFUFP), excluindo assim qualquer equívoco que alguma mudança de nomenclatura possa ocasionar, visto que compreendemos esses objetos como descritos pelo autor.
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Durante o Holoceno médio as ocupações sofrem um decaimento, e os estudos detalhados dos sítios do Brasil Central ainda são pontuais. As publicações são menos abundantes e detalhadas que para o período anterior, e as descrições ressaltam, na maioria das publicações, o desaparecimento das PFUFP, sendo substituídas por um conjunto de instrumentos sobre lasca pouco modificadas (MELLO, 2005; LOURDEAU & PAGLI, 2014; LUCAS, 2014; DA COSTA, 2017).
Na região da Bacia do Rio Manso, Mato Grosso, as indústrias líticas de sítios a céu aberto com datas até 7.000 anos cal AP foram examinadas por P. Mello (2005). O pesquisador destacou a presença de suportes de morfologia variada, com presença marcante de uma ou mais partes abruptas. Esses suportes foram utilizados na produção de instrumentos com gumes variados, com maior incidência de delineamento retilíneo e côncavo. O pesquisador destaca também a pouca normatização e modificação dos suportes.
O sítio a céu aberto Cajueiro está localizado às margens do rio Correntina, região sudoeste da Bahia, nos domínios da Serra Geral. Esse sítio foi alvo de escavações realizadas nos anos 1981 e 1987 por P. Schmitz e A. Barbosa, e teve o material lítico retomado para análises por J. Ramalho (2013) e Da Costa (2017). Da Costa concentrou seu trabalho no conjunto lítico da camada 2, associado a uma data de 7.100 anos cal AP (SCHMITZ et al, 1996; DA COSTA, 2017). Segundo a pesquisadora, a indústria lítica é marcada pela produção de suportes alongados estandardizados e de suportes com volume variado. Os dois diferentes suportes foram utilizados na produção de instrumentos com gumes retilíneos, convexos, denticulados e bicos, produzidos via retoques ou no momento da debitagem da lasca suporte. A presença marcante de partes abruptas nos instrumentos também é assinalada pela autora (DA COSTA, 2017).
As publicações em que as indústrias líticas do Holoceno médio são descritas em detalhe, apontam que mudanças técnicas ocorreram não só em relação ao Holoceno antigo, mas também ao longo do período, entre 7.000 e 4.000 anos AP. Até os 6.000 anos AP os sistemas técnicos são regidos por indústrias sobre lasca, com instrumentos de morfologia variada e pouco retocados, e presença marcante de planos abruptos. Após essa data há uma mudança nas indústrias, com o aparecimento de instrumentos sobre lasca com suporte preferencialmente alongado, no caso do Cajueiro. Esse período é marcado igualmente pelo abandono de zonas antes ocupadas, como Lagoa Santa e Serranópolis (LOURDEAU & PAGLI, 2014; DA COSTA, 2017).
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