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CAPÍTULO 1 – FORMAÇÃO CONCEITUAL DE MEIO AMBIENTE DO TRABALHO . 13

1.2 Bases Teóricas dos Direitos Difusos e Coletivos

Com o surgimento dos direitos fundamentais que tiveram a contribuição da Revolução Francesa (princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade) e dos direitos sociais decorrentes da Revolução Industrial, alguns acontecimentos históricos fizeram também surgir a necessidade de tutela dos direitos transindividuais, dando-se os primeiros passos rumo ao surgimento dos direitos coletivos.

Os denominados direitos de primeira dimensão ou direitos individuais que surgiram no século XVIII têm por escopo assegurar o direito à vida e à liberdade política e religiosa.

Com a Revolução Industrial, o Estado passou a disciplinar a vida em sociedade, o que fez mudar-se o foco dos direitos individuais para os direitos sociais, os direitos de segunda dimensão, que visam o bem estar da coletividade, como o direito à saúde, à educação e ao trabalho.

No final do século XX, apareceram os direitos de terceira dimensão, que são os direitos coletivos propriamente ditos, que passam a se chamar: direito coletivo sctricto sensu, direito difuso e direito individual homogêneo, que seriam reflexos ainda dos temas universais advindos da Revolução Francesa, especificamente o da fraternidade. Estes direitos visam a proteção de toda a humanidade, dando uma atenção específica ao meio ambiente, às relações de consumo, à paz e ao patrimônio comum da humanidade.

No Brasil, já nas constituições antecessoras, exceto nas constituições de 1891 e 1937, existia a possibilidade do cidadão pleitear em juízo os direitos que fossem em prol da coletividade. Em 29 de junho de 1965 foi promulgada a Lei da Ação Popular, que regulamentou definitivamente o direito do cidadão de defender seus direitos de maneira coletiva. Em 24 de julho de 1985 foi promulgada a Lei da Ação Civil Pública, que ampliou o rol dos instrumentos jurisdicionais para propositura de ação no âmbito coletivo.

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, ambas as leis foram recepcionadas, ocasião que a Constituição ampliou os legitimados ativos e os objetos das ações coletivas. Outro marco importante para a história da garantia da tutela dos direitos difusos e coletivos no Brasil foi a promulgação do Código de Defesa do Consumidor em

1990, pois ele representa uma das medidas mais importantes para dar guarita aos direitos supraindividuais.

Dentre os direitos fundamentais de terceira dimensão, encontra-se o meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem como os da fraternidade ou da solidariedade, que emergiram a partir de reflexões acerca do desenvolvimento (no final do século XX), da paz, do meio ambiente, da comunicação e, também, do patrimônio comum da humanidade. Assim, estes direitos não se destinam especificamente à proteção de interesses individuais ou de um determinado grupo, mas de interesses difusos69.

Com precisão, Moraes70 salienta que:

Protegem-se, constitucionalmente, com direitos de terceira geração os chamados direitos de solidariedade ou fraternidade, que englobam o direito a um meio ambiente equilibrado, uma saudável qualidade de vida, ao progresso, à paz, à autodeterminação dos povos e a outros direitos difusos, que são [...] os interesses de grupos menos determinados de pessoas, sendo que entre elas não há vinculo jurídico ou fático muito preciso.

No âmbito do Direito Ambiental, o princípio da fraternidade funciona como um meio, não um fim. A fraternidade se estabelece quando existe de fato uma comunidade politicamente solidária, com indivíduos iguais e livres, e a consciência ecológica, hoje, resgata o ideal de fraternidade e o redefine como prioridade do século XXI.

Padilha71 enfatiza que a Constituição atual

alberga um valor referido à fraternidade, que exige uma carga significativa de responsabilidade, qual seja, solidária e compartilhada entre todos os atores sociais, além de ser intergeracional, uma vez que atribui a conquista da sadia qualidade de vida das futuras gerações e a atuações proativas das atuais.

De fato, a ética e a consciência ecológicas vêm abrindo caminho para se reintegrar o princípio da fraternidade como elemento central de concepção de desenvolvimento social e político global, que resgate a unidade da humanidade, sem desconhecer sua diversidade e seu caráter plural dado pelas diferentes culturas regionais ou nacionais.

Por exemplo, um caminho para aplicar o princípio da fraternidade no caso concreto é associá-lo à aplicação da pena, por meio de medidas socioeducativas, como a prestação de serviços à comunidade, enfatizando-se que o cumprimento da pena pelo infrator tendo por

69 BONAVIDES, Paulo... Op. Cit., p. 569.

70 MORAES, Alexandre de... Op. Cit., p. 37.

71 PADILHA, Norma Sueli. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado: a contribuição de sua constitucionalização frente aos desafios de sua efetividade. In: PADILHA, Norma Sueli; NAHAS, Thereza Christina; MACHADO, Edinilson Donisete. Gramática dos Direitos Fundamentais: A Constituição Federal de 1988 – 20 anos depois. São Paulo: Elsevier, 2010, p. 51.

base a fraternidade “é importante meio para a conscientização, tornando os infratores sensíveis à causa ambiental e capazes de difundir a mensagem conservacionista”72.

Dentre os documentos mundiais relacionados à preservação do meio ambiente saudável, a Declaração do Meio Ambiente de 1972 é considerada o marco mais importante para o nascimento do Direito Ambiental, reconhecido como um prolongamento da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) e que em seu artigo 3º traz um dos direitos mais perseguidos e importantes para a humanidade, o direito à vida.

Padilha73 lembra que esta Declaração foi a que, de forma pioneira dentre as primeiras cartas de direitos oriundas das Revoluções Burguesas, reconheceu dentre os direitos humanos fundamentais o direito a adequadas condições de vida, num ambiente com qualidade para uma vida com dignidade e bem-estar, respeitada a responsabilidade para as presentes e futuras gerações, implicando, assim, no reconhecimento não só de um direito fundamental, como um direito geracional.

Neste pensar que eventos mundiais se realizaram para fortalecer a conscientização global acerca da necessidade de preservação do meio ambiente. A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou em 1988 uma Resolução para que fosse realizada uma Conferência, até 1992, sobre o meio ambiente e desenvolvimento. O objetivo da Conferência seria avaliar como os países haviam promovido a proteção ambiental desde a Conferência de Estocolmo de 1972; e, em 1989, a Assembleia Geral da ONU promoveu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como Cúpula da Terra, e marcou sua realização para o mês de junho de 1992, de maneira a coincidir com o Dia do Meio Ambiente, que também tinha como objetivo examinar a situação ambiental mundial desde a realização da Conferência de Estocolmo, bem como estabelecer mecanismos de transferência de tecnologias não-poluentes aos países subdesenvolvidos e estabelecer um sistema de cooperação internacional para prever ameaças ambientais74. Depois, outras Convenções se realizaram, como o recente evento Rio+20, que foi uma conferência realizada em junho de

72 CARIM, Adalberto. Direito ambiental e fraternidade. Disponível em:

<http://direitoefraternidade.blogspot.com.br/2013/01/direito-ambiental-e-fraternidade.html>. Acesso em: 16 jan.

2013.

73 PADILHA, Norma Sueli... Op. Cit., p. 47

74 A Declaração Universal sobre o Meio Ambiente denominada de Carta da Terra refere-se às questões fundamentais de proteção dos direitos humanos no contexto do desenvolvimento equitativo relativas à segurança mundial e o princípio da equidade é também relevante para a questão ambiental, na medida em que todos têm os mesmos direitos a ter um meio ambiente saudável a proporcionar uma boa qualidade de vida. (MAIA NETO, Cândido Furtado. Meio ambiente e Direitos Humanos. Disponível em:

<http://www.direitoshumanos.pro.br/ler_dhumano.php?id=15>. Acesso em: 7 out.13).

2012 na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, para discussão sobre a renovação do compromisso político com o desenvolvimento sustentável75.

E um importante passo para a história do Direito Ambiental no Brasil foi a constitucionalização do direito ao meio ambiente saudável, posto que como direito fundamental deva ser observado por todos, especialmente pelo Poder Estatal, tanto no controle de medidas de preservação, como na fiscalização e na punição aos entes infratores76.

A responsabilidade do Poder Público em prevenir danos ambientais, de proteção e manutenção à sadia e essencial qualidade de vida dos seres vivos, impõem-se ao Poder Estatal que estabeleça uma política de gestão direta ou indireta. A responsabilidade pelo dano ambiental e o dever de impedi-lo é de natureza permanente, cabendo ao Poder Público implantar políticas adequadas à proteção da vida e do bem estar das atuais e futuras gerações77.

No dizer de Derani78, o meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito materialmente social, ainda que classificado como difuso e pertencente à terceira dimensão de direitos humanos. E se é um direito social deve ser garantido pelo poder público.

Para Antunes79, no regime constitucional brasileiro o próprio caput do artigo 225 da Constituição Federal impõe a conclusão de que o meio ambiente sadio é um dos direitos humanos fundamentais, aduzindo, ainda, que o próprio artigo 5º da Constituição Federal faz menção expressa ao meio ambiente ao tratar da ação popular (inciso LXXIII):

75 Outros eventos mundiais também merecem destaque: a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (OEA-1969, 1992-BR) aprova o Protocolo de 1988 no que tange ao direito humano a um Meio Ambiente sadio. Por sua vez, a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (1981) amplia o conceito do direito de um meio ambiente sadio quando expressa que: “Todos os povos têm direito a um meio ambiente geral satisfatório propício ao seu desenvolvimento”. A Constituição Espanhola de 1978 quando prevê em seu artigo 45 que:

“Todos tem o direito de aproveitar de um meio ambiente adequado para o desenvolvimento da pessoa, assim como o dever de conservá-lo”. Do mesmo modo, as Constituições da Argentina (1994), Paraguai (1992) e Uruguai (1997) trazem em seus textos a proteção ao direito à vida com qualidade e à preservação do meio ambiente. A Conferência de Teerã (1968) proclamou a indivisibilidade e a interdependência dos Direitos Humanos, como o direito a um meio ambiente sadio, no âmbito do droit de l'humanité, ou do droit de protection por seu alto grau de proteção devida e do gradual fortalecimento dos mecanismos de supervisão, indispensáveis a sobrevivência dos seres humanos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU-1948), os Pactos Internacionais das Nações Unidas sobre Direitos Civis e Políticos, Econômicos, Sociais e Culturais (ONU, 1966, 1992-BR), os instrumentos especializados, como a Carta Mundial da Natureza (1982), fazem parte dos 300 Tratados multilaterais e 900 Tratados bilaterais que dispõem sobre a proteção e conservação da biosfera. (Ibid.).

76 Já a Declaração de Estocolmo, no item 17, prescreve: “Deve ser confiada às instituições nacionais competentes a tarefa de planejar, administrar e controlar a utilização dos recursos ambientais dos Estados, com a finalidade de melhorar a qualidade do meio ambiente”.

77 A omissão ou negligência da Administração Pública não pode ser considerada como ato discricionário. Os artigos 54 e 60 da Lei n. 9.605/1998, preveem punição para o sujeito passivo por causar poluição de qualquer natureza e fazer funcionar aterros ou lixões sem o devido respeito às normas legais vigentes.

78 DERANI, Cristiane. Meio ambiente ecologicamente equilibrado: direito fundamental e princípio da atividade econômica. In: FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de (Org.). Temas de Direito Ambiental e Urbanístico.

São Paulo: Max Limonad, 1998, p. 100.

79 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 8. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005, p. 19.

Ora, se é uma garantia fundamental do cidadão a existência de uma ação constitucional com a finalidade de defesa do meio ambiente, tal fato ocorre em razão de que o direito ao desfrute das condições saudáveis do meio ambiente é, efetivamente, um direito fundamental do ser humano.

Por outro lado, Benjamin80 destaca alguns benefícios com a constitucionalização do direito ao ambiente saudável. Dentre eles, que se trata de um direito fundamental com o mesmo peso dos demais direitos fundamentais previstos na Constituição Federal, por exemplo, o direito de propriedade, deixando a proteção ambiental de ser um tema de menor interesse no ordenamento para atingir o ápice, contrabalanceando as prerrogativas tradicionais do direito de propriedade.

E ainda, destaca Benjamin81 que,

Como direito fundamental, ao equilíbrio ecológico, atribui-se irrenunciabilidade, inalienabilidade e imprescritibilidade, características que, posteriormente, informação a ordem pública ambiental e o próprio marco jurídico dorsal do Direito Ambiental brasileiro [...]. A fundamentalização de direitos dessa natureza – conectados a beneficiários fragmentários (a difusidade dos sujeitos-titulares atuais), futuros (as gerações futuras), ou destituídos de voz ou estatura processual própria (os seres vivos e os processos ecológicos essenciais) – traz consigo a presunção absoluta de que a sua existência ou afirmação independe da permanente e imediata revolta das vítimas contra as violações eventualmente praticadas. A falta de zelo dos beneficiários na sua fiscalização e defesa não afeta sua validade e eficácia, pois são verdadeiramente direitos atemporais, vacinados contra os efeitos jurídicos decorrentes, como regra, da inação das vítimas diante da prepotência dos degradadores. São direitos que se mantêm direitos, não obstante o comportamento dos seus titulares, individualmente considerados, nessa ou naquela direção.

Meio ambiente saudável não se desassocia de fraternidade e de solidariedade em uma sociedade preocupada com a qualidade de vida e com a sobrevivência do meio ambiente, na qual cada indivíduo, agindo de acordo com a sua liberdade e dentro dos limites que ela permite sem prejudicar outrem, busca o bem comum e a preservação dos recursos naturais, artificiais, culturais, genéticos ou mesmo do próprio ambiente do trabalho, de forma que todos, no presente e no futuro, possam viver num meio ambiente saudável.

80 BENJAMIN, Antonio Herman. Objetivos do Direito Ambiental. In: BENJAMIN, Antonio Herman; SÍCOLI, José Carlos Meloni (Ed.). O futuro do controle da poluição e da implementação ambiental. São Paulo:

IMESP, 2012, p. 99.

81 Ibid., p. 124-125.