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CAPÍTULO 2 – RESPONSABILIDADE CIVIL NO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO64

2.7 Princípios de Direito Ambiental e o Espaço de Trabalho

2.7.1 Princípio do ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental da pessoa

erosão da dignidade e do desejo, e como consequências, podem afetar a saúde dos indivíduos.

Desta forma, o dano à saúde do trabalhador no ambiente de trabalho se estende a qualquer tipo de lesão que possa ocorrer, mesmo que de forma reflexa (quando a agressão é ao meio ambiente, mas que de alguma forma provoca dano ao trabalhador), e pode se dar em todas as suas modalidades (materiais e morais, difusos ou coletivos e individuais).

Não por menos que o meio ambiente saudável foi inserido na Constituição Federal de 1988 como um direito fundamental, além da existência de norma infraconstitucional de proteção, punição e reparação dos danos ambientais que permite e exige que haja por parte da administração pública o exercício do poder de polícia para o fim de evitar a ocorrência do dano, especificamente, quanto às exigências de instalação, funcionamento e operação de fábricas e indústrias, agentes potenciais de causadores de dano ambiental, seja pela utilização inadequada de recursos naturais, seja por despejo de produtos químicos na natureza, degradando a biodiversidade.

Benjamin283, ao fazer uma análise dos fundamentos constitucionais do Direito Ambiental, comenta:

Ao contrário do que se dava com as disciplinas jurídicas clássicas, encontram-se, em maior ou menor medida, expressamente apresentados em um crescente número de Constituições modernas; é a partir delas, portanto, que se deve montar o edifício teórico da disciplina. Somente por mediação do texto constitucional enxergamos – espera-se – um novo paradigma ético-jurídico, que é também político-econômico, marcado pelo permanente exercício da clássica compreensão coisificadora, exclusivista, individualista e fragmentária da biosfera.

No Brasil, como afirma Silva284, “a Constituição de 1988 foi a primeira a tratar deliberadamente da questão ambiental” além de a primeira a empregar a expressão “meio ambiente”, sendo considerada uma das mais abrangentes e avançadas no mundo em matéria de tutela ambiental.

Entende Benjamin285:

Coube à Constituição – do Brasil, mas também de muitos outros países – repreender o velho paradigma civilístico, substituindo-o, em boa hora, por outro mais sensível à saúde das pessoas (enxergadas coletivamente), às expectativas das futuras gerações, a manutenção das funções ecológicas, aos efeitos negativos a longo prazo da exploração predatória dos recursos naturais, bem como aos benefícios tangíveis e intangíveis do uso-limitado (e até do não uso). O universo dessas novas ordens constitucionais, afastando-se das estruturas normativas do passado recente, não ignora ou despreza a natureza, nem é a ela hostil.

Tratado como direito fundamental e de terceira dimensão, surgido no fim do século XX286, assim como os demais direitos da fraternidade ou da solidariedade, que emergiram a partir de reflexões acerca do desenvolvimento, da paz, da comunicação e do patrimônio

283 BENJAMIN, Antonio Herman. Objetivos do Direito Ambiental... Op. Cit., p. 91-92.

284 SILVA, José Afonso da... Op. Cit., p. 46.

285 BENJAMIN, Antonio Herman. Direito constitucional ambiental brasileiro. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato (Org.). Direito constitucional ambiental brasileiro. 5. ed. São Paulo:

Saraiva, 2012, p. 11.

286 BONAVIDES, Paulo... Op. Cit., p. 569.

comum da humanidade, está o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Assim, estes direitos não se destinam especificamente à proteção de interesses individuais ou de um determinado grupo, mas de interesses difusos. Predomina a posição de se tratar o meio ambiente como um direito fundamental social do ser humano.

Para Antunes287, no regime constitucional brasileiro, o próprio caput do artigo 225 da Constituição Federal impõe a conclusão de que o meio ambiente sadio é um dos direitos humanos fundamentais, aduzindo, ainda, que o próprio artigo 5º da Constituição Federal288 faz menção expressa ao meio ambiente ao tratar da ação popular.

Conclui Antunes289:

Ora, se é uma garantia fundamental do cidadão a existência de uma ação constitucional com a finalidade de defesa do meio ambiente, tal fato ocorre em razão de que o direito ao desfrute das condições saudáveis do meio ambiente é, efetivamente, um direito fundamental do ser humano.

Por outro lado, Benjamin290 destaca alguns benefícios da constitucionalização do direito ao ambiente saudável. Dentre eles, a visualização do meio ambiente saudável como um direito fundamental com o mesmo peso dos demais direitos fundamentais previstos na Constituição Federal, por exemplo, o direito de propriedade, caso em que a proteção ambiental deixa de ser um tema de menor interesse no ordenamento para atingir o ápice contrabalanceando as prerrogativas tradicionais do direito de propriedade.

E ainda, destaca Benjamin291:

Como direito fundamental, ao equilíbrio ecológico, atribui-se irrenunciabilidade, inalienabilidade e imprescritibilidade, características que, posteriormente, informação a ordem pública ambiental e o próprio marco jurídico dorsal do Direito Ambiental brasileiro [...]. A fundamentalização de direitos dessa natureza – conectados a beneficiários fragmentários (a difusidade dos sujeitos-titulares atuais), futuros (as gerações futuras), ou destituídos de voz ou estatura processual própria (os seres vivos e os processos ecológicos essenciais) – traz consigo a presunção absoluta de que a sua existência ou afirmação independe da permanente e imediata revolta das vítimas contra as violações eventualmente praticadas. A falta de zelo dos beneficiários na sua fiscalização e defesa não afeta sua validade e eficácia, pois são verdadeiramente direitos atemporais, vacinados contra os efeitos jurídicos decorrentes, como regra, da inação das vítimas diante da

287 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental... Op. Cit., p. 19.

288 “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] LXXIII - qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência”.

289 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental... p. 19.

290 BENJAMIN, Antonio Herman. Direito constitucional ambiental brasileiro... Op. Cit., p. 99.

291 Ibid., p. 124-125.

prepotência dos degradadores. São direitos que se mantêm direitos, não obstante o comportamento dos seus titulares, individualmente considerados, nessa ou naquela direção.

A importância deste direito fundamental independe, assim, do cuidado que é emprestado ao meio ambiente pelos próprios detentores deste direito, pois é um direito difuso, sendo que a inação pelo controle, prevenção ou precaução em nada lhe diminui o grau de sua importância.

Neste mesmo diapasão, entendem Canotilho e Leite292 que o direito fundamental tutelado transcende discussão de sua aplicabilidade:

[...] a proteção ambiental deixa, definitivamente, de ser um interesse menos ou acidental no ordenamento, afastando-se dos tempos em que, quando muito, era objeto de acaloradas, mas juridicamente estéreis, discussões no terreno não jurígeno das ciências naturais ou da literatura. Pela via da norma constitucional, o meio ambiente é alçado ao ponto máximo do ordenamento, privilégio que outros valores sociais relevantes só depois de décadas, ou mesmo séculos, lograram conquistar.

Concretamente, pode-se ganhar muito, no terreno dogmático e da implementação. Como o estabelecimento de um direito fundamental dessa natureza. Assim. Dentre outros benefícios diretos, temos que, como direito fundamental, sua norma estatuidora conta com aplicabilidade imediata.

E dando continuidade à valoração do meio ambiente como direito fundamental, colocando a irrenunciabilidade, a inalienabilidade e a imprescritibilidade como suas características,Canotilho e Leite293 asseveram que, primeiramente, o direito fundamental leva [...] à formulação de um princípio da primariedade do ambiente, no sentido de que a nenhum agente, público ou privado, é lícito tratá-lo como valor subsidiário, acessório, menor ou desprezível. [...] Como direito fundamental, ao equilíbrio ecológico, atribui-se irrenunciabilidade, inalienabilidade e imprescritibilidade, características que, posteriormente, informação a ordem publica ambiental e o próprio marco jurídico dorsal do Direito Ambiental brasileiro [...]

Logo, importante passo para a história do Direito Ambiental no Brasil foi a constitucionalização do direito ao meio ambiente saudável, posto que como direito fundamental deve ser observado por todos, especialmente pelo Poder Estatal, tanto no controle das medidas de preservação, como das providências de fiscalização e de punição aos entes infratores.

292 CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato. Direito Constitucional Ambiental brasileiro. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 99.

293 Ibid., p. 124.