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2 LOBBYING NA REGULAÇÃO CONTÁBIL

2.1 Fundamentação teórica

2.1.1 Teoria econômica da regulação

2.1.1.4 Becker (1983)

Becker possui uma visão de que a riqueza da indústria (recursos dos produtores e dos consumidores) é a principal moeda política a ser distribuída da maneira que mais beneficie o regulador. Essa visão fornece uma ligação entre a teoria da regulação econômica, com sua ênfase na distribuição e na abordagem normativa, com sua ênfase na eficiência.

O argumento central é de que a perda de bem-estar social ocasionada pelas medidas de regulação é uma limitação às políticas regulatórias ineficientes, uma vez que, conforme o regulador afasta os índices de produção do nível de eficiência, a perda de bem-estar social aumenta numa taxa crescente. Assim, a perda de bem-estar seria resultado do ganho do grupo “ganhador” menos a perda do grupo “perdedor” em decorrência da intervenção regulatória. Em função disso, essas perdas e ganhos estimulariam os grupos de interesses (BECKER, 1983).

De acordo com Cardoso et al (2009), a regulação pode ser representada por um pêndulo onde as pressões exercidas pelos grupos de interesse correspondem aos vetores de força. Caso as forças sejam exercidas com a mesma intensidade e em sentidos opostos, o pêndulo permanece parado (a regulação é mantida no status quo). Caso contrário, o grupo que conseguir exercer pressão relativa maior que os demais grupos de interesse provavelmente obterá a regulação conforme suas demandas.

Becker (1983), portanto, desenvolve um modelo baseado na competição entre grupos de interesses distintos, em que o regulador apenas responde ao volume de pressão exercida pelos

grupos de interesses, ou seja, o autor busca respostas quanto à viabilidade de se exercer pressão sobre o regulador. Nesse sentido, a regulação é direcionada para maximizar o bem-estar do grupo de interesse mais influente. O autor inova, entretanto, ao inserir nesse contexto uma perda de bem-estar originada da própria atividade de regulação, determinando que o ganho do grupo vitorioso seja inferior à renda transferida do grupo perdedor (RODRIGUES, 2008).

Becker (1983) argumenta que o equilíbrio político encontrado em ambientes sujeitos à atuação de grupos de pressão depende de fatores como: (a) a eficiência com que cada grupo produz pressão; (b) o efeito que a pressão adicional exerce na influência de cada grupo; (c) o número de pessoas pertencentes a cada grupo e (d) a intensidade do peso-morto gerado pelo custo de impostos e subsídios que recaem sobre cada um dos grupos.

O chamado equilíbrio político possui as propriedades de que todos os grupos de pressão se encontram num estado de maximização de sua renda pela aplicação da quantidade ótima de pressão política, assumindo-se uma determinada produtividade de seus custos e uma determinada conjuntura de comportamento dos outros grupos (MONTEIRO, 2007). Na medida em que cada grupo esteja exercendo pressões equivalentes, nenhum prepondera sobre o outro, de forma que o regulador permanecerá imparcial em relação a ambos os grupos (CARDOSO, 2005).

Cardoso (2005) sintetiza o raciocino de Becker: admitindo-se a existência de dois grupos de interesse (grupo 1 e grupo 2), tem-se que a riqueza (T) transferida de um grupo para o outro é representada pela influência (I) desses dois grupos, sendo que a pressão exercida por eles representa adequadamente as respectivas influências sobre o regulador, sendo representado por p1 (pressão exercida pelo grupo 1) e p2 (pressão exercida pelo grupo 2).

O nível de pressão é determinado pelo número de membros do grupo e pelo montante de recursos usado. Em particular, se a riqueza transferida (T) para o grupo 1, por exemplo, aumenta devido a regulação, então T = I (p1, p2), onde I (p1, p2) é chamada de função de influência (VISCUSI et al, 2005). Dessa forma, de acordo com Cardoso (2005), o quanto de pressão de cada grupo vai depender da expectativa que se tem quanto à disposição do outro grupo pressionar. Como a pressão exercida consome os recursos dos grupos, eles tendem a

não pressionar muito, sabendo que, quão menos cada grupo pressionar, estará maximizando a pressão relativa do grupo oponente.

Assumindo que I (p1, p2) está aumentando em função da pressão do grupo 1 e diminuindo em função da pressão do grupo 2, e como existe um coeficiente de perda (x) com a regulação, a riqueza obtida pelo grupo 1 não é igual a riqueza expropriada do grupo 2. Considerando que x > 0 (coeficiente de perda positivo), então para transferir riquezas para o grupo 1, assume-se que a riqueza do grupo 2 é subtraída por [(1 + x)T], ou seja, quanto maior o peso-morto da regulação, menor será o fruto da regulação (VISCUSI et al, 2005). Nesse contexto, o grupo 1 será considerado vencedor no jogo político, uma vez que o mesmo é subsidiado enquanto que o grupo 2 é taxado.

Dentre as conclusões de Becker (1983) em relação à teoria dos grupos de pressão, têm-se: (a) a pressão se materializa, economicamente, na maximização de subsídios recebidos e na minimização de impostos pagos; (b) políticos são apenas veículos dos grupos de pressão e agirão buscando sua própria viabilização política, posicionando-se a favor do grupo que possui melhores condições de exercer pressão; (c) a intensidade da pressão é diretamente proporcional aos recursos disponíveis e à homogeneidade de interesses dos membros dos grupos; (d) a influência é um jogo de soma-zero: quando um grupo competidor aumenta seu espaço por influência política, os outros grupos competidores perdem espaço político; (e) o peso-morto produzido pela tributação oferece um incentivo natural aos grupos de pressão que têm de arcar com esses encargos; e (f) a dinâmica de influência e de pressões políticas é importante para a construção de mecanismos eficientes de tributação e de políticas de subsídios (MONTEIRO, 2007).

Ainda entre as conclusões de Becker, uma consequência importante é que políticas de regulação maximizadoras de riqueza são mais suscetíveis de serem adotadas do que aquelas que não o são. Assim, indústrias caracterizadas por falhas de mercado (de forma que o peso-morto seja relativamente baixo ou mesmo negativo) possuem maior probabilidade de serem reguladas. O grupo beneficiário tem grande potencial de obter ganhos, então ele vai exercer maior pressão, enquanto que os grupos prejudicados pela regulação não serão tão penalizados em função do baixo peso-morto, então eles vão exercer pouca pressão contra a regulação (VISCUSI et al, 2005).