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HOSPITAIS REGIONAIS E SISTEMA

2.4 IMPACTO DA ESTOMIA INTESTINAL NO BEM-ESTAR FISÍCO, BEM-ESTAR PSICOLÓGICO, BEM-ESTAR SOCIAL E BEM-ESTAR ESPIRITUAL

2.4.3 Bem-estar Social da Pessoa com Estomia Intestinal

Inicialmente vale mencionar o texto de Kimura (2013, p.119):

O homem é um ser social, mas para que ele esteja bem consigo e com os outros é indispensável a sua integridade física e psicológica. A resolução das dificuldades encontradas pela pessoa com estomia intestinal envolve sentimentos de confiança, de prazer em conviver com familiares, amigos e no meio social, em não se sentires rejeitado por outras pessoas e ser compreendido, fornecendo, assim, um suporte de adaptação contínua à condição de ser estomizado. De tal modo, é evidenciada a

116 importância das relações afetivas familiares e de amigos como suportes essenciais para o Bem-estar Social.

A confecção de uma estomia intestinal tem potencial impacto sobre a qualidade de vida do ponto de vista do BES, em especial se demonstrando sob a perda do controle sobre a eliminação (TORRES et al., 2015; SALOMÉ; ALMEIDA; SILVEIRA, 2014; KIMURA et al., 2013; GRANT et al., 2013; PEREIN, 2012; GRANT et al., 2011; SWAM; 2011; KIMURA et al., 2009).

No aspecto social, os principais desafios a serem enfrentados se correlacionam com o isolamento, a dificuldade em olhar a estomia, o impacto financeiro gerado pelas novas demandas da condição da pessoa com estomia intestinal bem como o impacto da estomia sobre a rotina de viagens, a mudança nas atividades rotineiras e o constrangimento experimentado em eventos sociais (GRANT et al., 2013; POPEK et al., 2010; KROUSE et al., 2008; MCMULLEN et al., 2008; COONS et al., 2007).

Após a cirurgia, a pessoa deverá assumir, de maneira eficaz, as funções fisiológicas que seu corpo, até então, realizava de forma automática. A perda da continência, associada à criação da estomia intestinal, ocasiona alteração da personalidade mais grave do que no caso de outras mutilações, embora essas sejam mais difíceis de disfarçar que a estomia intestinal. Isso pode atrapalhar a convivência social e levar a pessoa a pensar que não é de todo normal e a se sentir diferente por não apresentar as características e atributos considerados como normais pela sociedade, decorrente de seu corpo imperfeito (SANTOS et al., 2014; BONILL-D-LAS-NIEVES et al., 2014; KIMURA et al., 2013; GOFFMAN, 2008, SILVA; SHIMIZU, 2006; PULIDO; SANCHEZ, BARAZA, 2001). Vale destacar, que embora tenha sido desenvolvida como terapia para aumentar a sobrevida e proporcionar às pessoas melhor QV, as estomias são agressivas e mutilantes a todo o processo de viver humano, ocasionando sentimentos de repugnância de si mesmo e desprestígio social (TORRES et al.,2015; KIMURA et al., 2014;SANTOS et al., 2014; SILVA, SHIMIZU,2006 ).

Diante do exposto, pode-se considerar que muitas vezes, a pessoa com estomia intestinal percebe-se estigmatizada socialmente, sentindo-se diferente perante sua família e sociedade, consequentemente dificultando sua própria aceitação e seu processo de adaptação, o que acarreta mudanças no convívio social. Isto faz com que a pessoa com estomia intestinal se sinta diferente, excluída, e experimente um senso de rejeição (FERREIRA-UMPIÉRREZ; FORT-FORT,2014; FORTES; MONTEIRO; KIMURA, 2012; ANARAKI et al., 2012; KIMURA et al., 2009). Assim, a pessoa com estomia intestinal vivencia momentos críticos da vida, pois tende a se sentir estigmatizado, por julgar-se diferente, ou seja, por não apresentar

117 as características e os atributos considerados normais pela sociedade (KIMURA et al., 2014; CAETANO et al., 2013;GRANT et al., 2013; KIMURA et al., 2013).

Assim, o paciente portador de estomia, muitas vezes, incorpora um estigma social, pois se sente desigual diante das outras pessoas, apresentando a preocupação de esconder a estomia até mesmo de seus familiares. Além disso, no período inicial da convivência com a estomia há maiores dificuldades no desenvolvimento de atividades de lazer e de convívio social, pois o indivíduo se restringe a não frequentar lugares públicos pelo receio de sofrer estigmatização (BONIL-DE-LAS-NIEVES et al., 2014; SANTOS et al., 2014; KIMURA et al., 2014; CAETANO et al.,2013; NASCIMENTO et al., 2011).

Estas dificuldades no convívio social, causadas pela presença da estomia e da bolsa coletora ocorrem devido à eliminação de gases, no caso da colostomia e ileostomia, podendo levar o indivíduo a sentir-se exposto a uma situação de constrangimento. A fim de buscar alternativas para conseguir realizar ações rotineiras, os indivíduos com estomias desenvolvem comportamentos de defesa visando evitar que sejam percebidos como diferentes pelas outras pessoas, como, por exemplo, aproximando-se dos locais onde há presença de sons, com o objetivo de reduzir a possibilidade de que alguém escute os ruídos provocados pela estomia. O que antes era considerado algo reservado à pessoa, torna-se, de certa maneira, compartilhado com quem está próximo (SALOMÉ; ALMEIDA; SILVEIRA, 2014; CAETANO et al., 2013; ANARAKI et al., 2012; CASCAIS; MARTINI; KIMURA et al., 2009; ALMEIDA; 2007 ).

Segundo Kimura et al. (2014), Grant et al. (2013) Kimura et al. (2013), Fernandes et al. (2010), Poek et al., (2010), Krouse et al., (2008), Mcmullen et al., (2008) e Coons et al., (2007), as atividades ativas como viajar, realizar algum tipo de esporte são pouco realizadas pelas pessoas com estomia intestinal, levando à ociosidade. As razões dessas restrições prendem-se à insegurança derivada da qualidade dos equipamentos coletores, problemas físicos, dificuldades em higienizar o equipamento, vergonha e medo de problemas gastrintestinais. Além do mais, o retorno às atividades ocupacionais/produtivas é dificultado pela sensação de perda ou redução da capacidade produtiva. Tais dificuldades relacionadas ao trabalho e integração social ocorrem devido ao uso do equipamento coletor causar desconforto, insegurança, pela preocupação com os gases, vazamentos e eliminação de odor pelas fezes.

Outra causa que pode interferir negativamente no Bem-estar Social (BES) da pessoa com estomia intestinal é o aspecto da sexualidade. Assim, Freud (2002, p.65) expressa:

118 A sexualidade pode ser entendida como um aspecto fundamental da vida e, está presente desde o nascimento até a morte, apresentada com características próprias em cada período do ciclo vital. Ainda, o mesmo autor se manifesta salientando que sexualidade é, portanto, o conjunto das emoções, sentimentos, fantasias, desejos e interpretações que o ser humano vivencia ao longo de sua existência. A sexualidade constitui parte integral da personalidade humana, associando experiências pessoais, afetivas, conhecimentos socioculturais, crenças e valores construídos ao longo da história, não podendo ser, o relacionamento sexual, desvinculado das temáticas sociais, históricas, antropológicas e psicológicas.

Deste modo, a sexualidade é parte intrínseca do ser humano, além disto, a sexualidade é considerada uma necessidade humana básica; é expressa não apenas na aparência, mas principalmente, na subjetividade individual, e é privativa de cada ser humano. A forma como se manifesta é muito pessoal, desempenha importante papel nas reações que desencadeia no indivíduo e o parceiro (KIMURA et al., 2013; AMORIM et al., 2007).

Ademais, sexualidade excede a necessidade fisiológica e tem relação direta com a simbolização do desejo e da atração. O sexo produz fortes emoções e transcende definições físicas que permeia todos os momentos da vida, possui significados complexos, multifacetados e que concentram grande carga de subjetividade (KIMURA et al., 2013; VIOLIN; SALES, 2010; KIMURA et al., 2009; PAULA et al., 2009).

Em 1994, na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, foram definidos os conceitos de saúde sexual e saúde reprodutiva atualmente reconhecidos pela OMS: (ALBUQUERQUE, 2015).

Assim segundo Albuquerque (2015, p. 32 e 33):

A saúde sexual pressupõe uma abordagem positiva à sexualidade humana. Consiste na integração dos aspectos somáticos, emocionais, intelectuais e sociais do ser sexual, de maneira a enriquecer positivamente e a melhorar a personalidade, a capacidade de comunicação com outras pessoas e o amor. O propósito dos cuidados da saúde sexual deveria ser o melhoramento da vida e das relações interpessoais, e não meramente orientação e cuidados relacionados à procriação e doenças sexualmente transmissíveis. A saúde reprodutiva é um estado de completo bem-estar físico, mental e social em todas as matérias concernentes ao sistema reprodutivo, suas funções e processos, e não apenas mera ausência de doença ou enfermidade. A saúde reprodutiva implica, por conseguinte, que a pessoa possa ter uma vida sexual segura e satisfatória, tendo a capacidade de reproduzir e a liberdade de decidir sobre quando e quantas vezes deve fazê-lo.

119 Dessa forma, a pessoa com estomia intestinal pode sentir violação de diversos aspectos de sua subjetividade que resultam no comprometimento de sua sexualidade. Esta consiste em um aspecto fundamental da imagem corporal, da identidade e da autoestima que abrange a representação social de masculinidade e feminilidade. Grande parte das dificuldades sexuais está relacionada ao sentimento de vergonha em expor seu corpo ao parceiro, o que gera o medo de ser rejeitado (FERREIRA-UMPIÉRREZ; FORT-FORT, 2014; CAETANO et al., 2013; ANARAKI et al., 2012;NASCIMENTO et al., 2011).

Portanto, compartilhar do diagnóstico com o parceiro constitui um passo importante para auxiliar no processo de reabilitação da pessoa com estomia intestinal, pois possibilita a expressão das ansiedades e inseguranças, além da chance de solicitar e receber apoio emocional, amor, empatia, cuidados, ajudando no enfrentamento da situação e influenciando favoravelmente o seu estado de saúde. É importante que o parceiro seja envolvido no plano assistencial da pessoa com estomia intestinal desde a fase pré-operatória para o sucesso do seu processo de adaptação a estomia ( KIMURA et al., 2013; SANTOS et al., 2013; KNOWLES et al., 2013; PAULA; TAKAHASKI, PAULA,2009).

Asestomia intestinal alteram a aparência física e a função corporal das pessoas, sendo sua exteriorizaçã,o no abdome, fato gerador de grandes mudanças em como esses indivíduos se veem, podendo sentirem-se ansiosos ou autoconscientes; e isso tem repercussões diretas para o exercício de sua sexualidade e sexo, já que seus parceiros também poderão ter medos relacionados a machucar a estomia ou deslocar a bolsa; nesse contexto a QV é uma medida que cada vez mais adquire importância para esse tipo de cirurgia (COCA et al., 2015; SENA, 2015; SALLES; BECKER; FARIA, 2014; KEMENT et al., 2014).

O sentimento de inutilidade, desgosto, depressão, perda da autoestima, do status social e da libido, além de reforçarem as alterações na dinâmica familiar, causam impacto psicológico, nutrem a fantasia de que perderão sua capacidade produtiva, levando-os a exteriorizar sentimentos como tristeza, ódio, repulsa e medo (COCA et al., 2015; KIMURA et al., 2014; SALLES; BECKER; FARIA,2014; VIEIRA et al., 2013; CASCAIS; MARTINI; ALMEIDA, 2007).

Devido às diversas mudanças enfrentadas, pessoas comestomia intestinal vivenciam sentimentos de desorganização emocional que culminam em reclusão social, tudo relacionado à questão da autoimagem. A autoimagem pode ser definida como a representação mental que alguém faz de si mesmo. A maneira como sente o próprio corpo está intimamente relacionada com a autoestima (COCA et al., 2015; KIMURA et al., 2014; SALLES; BECKER;

120 FARIA,2014; GRANT et al., 2013; SOUZA et al., 2013;MATOS; SAAD; FERNANDES, 2004).

Dessa forma, a criação de uma estomia intestinal gera ruptura da imagem corporal, ocasionando sentimentos discriminatórios de estigma. As alterações na imagem corporal provocam, na maioria das pessoas comestomia intestinal , dificuldades relacionadas à sexualidade, pois a sociedade atribui à beleza diferentes significados para os gêneros, masculinos e femininos, valorizando, por conseguinte, de maneira diferenciada, os atributos de uma imagem ideal para cada um (FERREIRA-UMPIÉRREZ; FORT-FORT,2014;SOUZA et al., 2013; KIMURA et al., 2009; SILVA; SHIMIZU, 2007; SANTOS; SAWAIA, 2000).

Por conseguinte, o profissional de saúde, em destaque, o enfermeiro, para abordar a sexualidade da pessoa com estomia intestinal, terá que superar muitas dificuldades em relação aos preconceitos que envolvem o tema, em razão de estar relacionado a valores sociais, culturais e familiares e à sua pouca experiência, havendo a necessidade de preparo adequado para a maioria (KIMURA et al., 2016; SILVA et al., 2013; PEREIRA; PELÁ, 2006). A despeito do desafio de abordar os impactos da estomia sobre a sexualidade e treinar o profissional de enfermagem no que tange ao manejo desse tipo de complicação, deve-se considerar que a busca por mais conhecimentos é de grande relevância para o enfermeiro. Isso facilitaria a identificação de problemas na área da sexualidade e a partir daí orientaria melhor estas pessoas, repassando-lhes a ideia sobre a importância de exercerem sua sexualidade sem preconceito e repressões e de que é possível desfrutá-la em qualquer momento da vida, mesmo na condição de ser estomizado (KIMURA et al., 2016; KIMURA et al., 2013; SILVA et al., 2013).

Diante disso, na gestão dos sistemas e de serviços em saúde e enfermagem, faz-se necessário estabelecerem-se estratégias educativas continuadas de esclarecimentos para a pessoa com estomia intestinal, para satisfazer suas necessidades específicas, assim como de seus familiares, respeitando sua individualidade e dialogicidade, constituindo-se como um cuidado complexo no meio social. Objetivando tanto sua mais pronta reabilitação, sobretudo a reinserção social, quanto à promoção no BES, resultando em uma melhoria em sua QV.