AS EXPERIÊNCIAS NA REGIÃO: BOLSA FAMÍLIA E JUNTOS
4.1. Experiência brasileira – Bolsa Família
4.1.3 Beneficiados do PBF: Perfil e processo de inclusão
O foco prioritário do Programa são as famílias extremamente pobres inscritas no CadÚnico, segundo regra de elegibilidade relacionada à renda familiar per capita fixada, atualmente, em até R$ 77,00. Segundo dados atualizados em fevereiro de 2015 (CadÚnico), dos 29.164.446 inscritos, 14.095.333 registram uma renda de até R$ 77. Embora a administração seja feita pelo MDS, várias outras instituições estão envolvidas, como a Caixa Econômica Federal e as prefeituras municipais, entre outras, o que denota características de descentralização e intersetorialidade do Programa.
No momento da criação do Programa, 3,6 milhões de famílias assumiram o compromisso de realizam exames pré-natal, o acompanhamento médico periódico para atualização de vacinas e o acompanhamento de peso e altura adequados (para crianças de 0 a 6 anos) e a matrícula regular e frequência de no mínimo 85% das aulas no ensino fundamental (para as crianças de 7 a 15 anos). Para os jovens incluídos no Programa, a condicionante consiste em participar de, no mínimo, 75% das aulas do curso em que estão matriculados (no ensino fundamental ou médio).
Com relação a maiores características sobre o perfil dessas famílias, pode-se tomar como referência entrevistas realizadas por Pinzani e Rego (2014), publicadas no Livro Vozes do Bolsa Família. A publicação apresenta relatos de mães de família pobres de diversas localidades do Nordeste brasileiro (região com o maior número de beneficiados) e, indica algumas características que podemos considerar como uma interessante referência. Por exemplo, identifica-se a existência de mães beneficiadas com pouco grau de escolaridade, ou analfabetas.
Ao ser entrevistadas sobre a percepção do Programa, a grande maioria identifica a iniciativa como uma "ajuda do Governo", inexistindo depoimento que fale do Bolsa Família como um direito. Sobre a opinião formada sobre o valor da transferência, quase a totalidade das entrevistadas consideram que o benefício trouxe mudanças positivas, por exemplo, na alimentação, permitindo a ingestão de alimentos básicos como arroz, farinha, feijão, frango ou carne; mas, elas ainda manifestam que a transferência resulta
insuficiente frente às privações da vida diária, considerando que existem chefes de família que registram ingressos de até 25 reais por uma semana de serviço.
Tais limitações são confirmadas tomando como base a análise de Amaral (2014), fazendo referência ao Censo de 2010. Segundo dados oficiais, 11,43 milhões de brasileiros registravam uma renda domiciliar per capita de até R$ 70 reais, por mês, naquele ano; além disso, outros 4.84 milhões apresentavam claros sinais de pelo menos uma necessidade básica insatisfeita (falta de banheiro, esgoto, agua, energia elétrica, entre outros). Somando as cifras, chegou-se à conclusão que 16,27 milhões de pessoas estavam em situação de extrema pobreza. Outro dado, 46% desses 16 milhões viviam em áreas rurais. Levando em conta o geográfico, 9,6 milhões do total de extremamente pobres estariam localizados na região Nordeste (52.5% na área rural). O segundo grande grupo estava na região Sudeste com 2,73 milhões (78,7% na área urbana). Em relação à idade, mais da metade dos extremamente pobres teriam menos de 19 anos (60.9%) e quatro em cada dez tinha até 14 anos. Sobre a incidência de alfabetismo, 26% se localizava nos grupos extremamente pobres.
Referente aos serviços, segundo o Censo 2010, apenas 38,1% das famílias beneficiadas possuía acesso simultâneo aos serviços de coleta de lixo (direta ou indireta), escoamento sanitário via rede pública ou fossa séptica, iluminação elétrica e água por rede pública e, mesmo na área urbana, onde tais serviços são mais presentes, apenas 48,9% das famílias beneficiárias acessam ao pacote completo de serviços. A pesquisa também destaca que predominava entre os beneficiários do PBF o sexo feminino e a cor preta ou parda. Chama a atenção a expressividade da população jovem de até 17 anos (48,8% dos beneficiários).
Desde a criação do programa, como apresenta o Portal transparência27, quase o 50% dos recursos sempre foram destinados para a região Nordeste. Em 2007, esta região recebeu 53% dos recursos, seguido do Sudeste com 23%. Uma tendência que se manteve até recentes indicadores (2014) que mostram que o Nordeste obteve 52%,
27PORTAL DE TRANSPARÊNCIA. Programa Bolsa Família do Governo Federal. Disponível em:
seguido pelo Sudeste com 23%, Norte com 13%, Sul com 6% e Centro-Oeste com 5%. Logicamente, essa distribuição guarda relação com as informações referentes ao perfil socioeconômico dos beneficiários do PBF (2013), no qual, a partir do relatório de informações sociais (MDS/SAGI), constata-se que, do total das famílias beneficiadas no Cadastro Único, em 2013, 50,4% encontrava-se na região Nordeste, seguida da região Centro-Oeste, com 25,3% dos beneficiados, como aparece no Gráfico 5.
Gráfico 5 - Distribuição geográfica dos beneficiados (2013)
Fonte: Folha de Pagamento PBF (2013) apud. Camargo, Curralero, Licio e Mostafa (2013), p. 162.
No referente aos beneficiados por faixa de renda, em 2013, 72,4% deles, encontravam-se na categoria de extrema pobreza, 20,5% eram pobres e 7,1% entravam na categoria de baixa renda, observando-se que o maior foco de extremamente pobres atendidos pelo Programa localizava-se nas regiões Norte (78,1%) e Nordeste (82,2%). Vale lembrar que, no seu início, o Programa teve como foco os extremamente pobres.
Quanto ao perfil socioeconômico dos beneficiados, o CadÚnico evidencia, conforme Tabela 7, que as regiões Norte e Nordeste são as que concentram o maior número de beneficiados extremamente pobres, 72,4% e 78,1%, respectivamente. A maior concentração de pobres está no Centro-Oeste (32,3%) e no Sul (33,9%). Aproximando-nos mais ao tipo de localidade, a Tabela 8 evidencia que a grande parte
dos beneficiados brasileiros se localiza nas áreas urbanas do país, enquanto, os beneficiários residentes em áreas rurais estão mais concentrados nas regiões Norte e Nordeste.
Tabela 7 – Distribuição de beneficiados PBF por área geográfica 2013 (%) Faixa de renda Brasil Norte Nordeste Sudoeste Sul Centro-Oeste
Extrema pobreza 72,4 78,1 82,2 59,5 54 56,1
Pobreza 20,5 16,8 12,9 30,8 33,9 32,3
Baixa renda 7,1 5 5 9,7 12,1 11,6
Fonte: CadÚnico (2013) apud Camargo, Curralero, Licio e Mostafa (2013), p. 164.
Tabela 8 – Distribuição por tipo de localidade 2013 (%)
Tipo de localidade Brasil Norte Nordeste Sudoeste Sul Centro-Oeste
Urbanas 75,3 74 68,1 86,6 79,6 86,6
Rurais 24,6 26 31,9 13,2 20,2 13,4
Sem informação 0,1 0 0 0,2 0,1 0
Fonte: CadÚnico (2013) apud. Camargo, Curralero, Licio e Mostafa (2013), p. 167.
Quanto às características familiares dos beneficiários, Carmargo, Curralero, Licio e Mostafa (2013) destacam que 42,2% dos lares beneficiados têm constituição monoparental feminino, seguido por casal com filhos (37,6%). Este percentual pode indicar estratégias de sobrevivência das famílias mais vulneráveis, na medida em que a renda e a presença do cônjuge no domicílio é, em muitos casos, ausente.
Retomando as análises de Ivo (2011), observa-se que para a autora, a perspectiva de reduzir os indicadores de pobreza a partir da expansão do número de beneficiados, na verdade tem efeito legitimador das ações do governo e impacto simbólico sem gerar mudanças significativas no patamar da desigualdade, considerando as limitações e carências ainda existentes.