2.4 Bibliotecas no Brasil
2.4.2 Biblioteca Nacional
A Biblioteca Nacional de um país é o sinônimo de toda sua grandeza, seja ela física, representada na quantidade e na qualidade de seu acervo, que é sempre composta por materiais de valor inestimável, além de sua grandeza histórica, pois guarda as memórias das grandes conquistas de sua nação. No caso do Brasil, a Biblioteca Nacional além de representar as histórias e as conquistas deste país, igualmente, traz uma grande parte da história de seu país colonizador, Portugal.
A vinda da família Real para o Brasil foi a grande responsável, também, pela vinda da Biblioteca Real, com diversos documentos, histórias e riquezas deste povo. Passando por um processo de mudança a Biblioteca Real passaria a ser, então, a Biblioteca Nacional do Brasil, considerada a sétima Biblioteca Nacional pela UNESCO e a primeira da América Latina, contabilizando mais de 200 anos de fundação.
Podemos destacar que a história das bibliotecas do Brasil tem seu início, bem antes dos portugueses aportarem neste país. De acordo com Schwarcz (2002), essa história se inicia com a Biblioteca Real de Portugal, que foi construída como um grande tesouro português; sofreu diversas perdas em função de algumas desgraças naturais como terremotos e incêndios, mas foi reconstruída cada vez mais cheia de conhecimentos em forma de acervo valioso.
A Biblioteca Real Portuguesa, ou “Livraria Régia” como também era conhecida, podia ser vista como a representação do interesse da realeza portuguesa pelo conhecimento expresso em livros e em outros materiais importantes, ou, pelo menos, como pondera Schwarcz (2002, p. 32) “[...] pelas vantagens políticas e simbólicas que um acervo como aquele trazia [...]”. Estava claro que o interesse pelo livro era grande, contudo nem sempre estava vinculado à leitura ou ao conhecimento e, sim, ao poder e ao valor que estes traziam consigo.
Esta biblioteca representava o acúmulo da cultura portuguesa, transformando em algo visual o orgulho nacional, pela história e pelas conquistas desta nação, causando, desta forma, admiração de diversos reinos que não podiam ostentar o mesmo patrimônio em seus reinos. O acervo da “Livraria Régia”, em determinado momento, chegou a contar com 70 mil volumes, que foi formado a partir do esforço de seus monarcas, que chegavam a comprar bibliotecas inteiras para serem incorporadas a este acervo real, além de mandarem buscar livros nos mais distantes locais, onde pudessem ser encontrados livros e outros materiais importantes e com grande valor para os portugueses.
Desta forma, a Biblioteca Real Portuguesa, além de muito valor intelectual, em virtude de possuir um enorme acervo que abrangia diversas áreas do conhecimento, também, possui um enorme valor financeiro, pois era repleto de coleções preciosas e de diversas obras raras, dando, desse modo, a esta biblioteca de fato o valor de uma verdadeira Biblioteca Real.
Quando, em determinado momento da história de Portugal, a família real precisa mudar-se para o Brasil, a Biblioteca Real, também, passa a ter um novo destino. Algumas pessoas insistem em dizer que a ida da família real foi rápida e sem planejamento, contudo, esta viagem não foi tão às pressas e nem sem muito planejamento. Prova disso, foi terem levado tantos documentos em especial vários acervos da Biblioteca Real, que foi tão planejada que aconteceu em três etapas, sendo a primeira no ano de 1810 e a duas seguintes no ano de 1811.
A instalação da Biblioteca Real Portuguesa no Brasil ocasionou algumas brigas diplomáticas entre Brasil e Portugal, findando-se com o pagamento por parte do Brasil de 800 contos de réis, o que seria um preço extremamente alto para um país que acabara de se tornar independente e estava se estruturando. Desta forma, a Biblioteca Real será o passo principal para o nascimento da Biblioteca Nacional do Brasil.
Ao chegar ao Brasil, a Real Biblioteca foi instalada nas dependências do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro, em instalações provisórias, que aos poucos seriam adaptados, deixando, enfim, de ser hospital e assumindo características de biblioteca. Sua inauguração aconteceu no dia 13 de março (data do aniversário do Príncipe Regente) no ano de 1811. Contudo, seu acesso era restrito, passando a ser aberto ao público apenas no ano de 1814.
No que se refere ao acervo dessa biblioteca, além do que veio de Portugal, o crescimento desse se deu por diversas doações e compras. Era comum o fato de várias doações de pessoas ilustres serem incorporadas na biblioteca. Outra forma de aumentar o acervo se iniciou no ano de 1822, por meio das chamadas propinas, definida por Schwarcz (2002), como a obrigatoriedade de enviar um exemplar de tudo que era impresso no Brasil e em Portugal, para fazer parte do acervo da Biblioteca Real. Esta prática foi percursora do que hoje é conhecido como a Lei do Depósito Legal. Contudo, o que mais contribuía com o crescimento do acervo eram as doações que faziam parte do cotidiano das pessoas da elite do governo, que tinham a Biblioteca como uma representação da grandeza nacional.
Com a independência do Brasil, várias mudanças aconteceram, também, no que se refere à Biblioteca Real, aos Manuscritos da Coroa contendo a história de Portugal,
que tiveram que retornar para sua terra de origem, contudo a Biblioteca permaneceu no Brasil. E, após diversas negociações, finalmente em 1825, é assinado o Tratado de Amizade e Aliança entre Brasil e Portugal, em que se estabeleceu um pagamento por todos os pertences que ficaram no Brasil, inclusive a Biblioteca Real que custou 800 contos de réis para o império.
Em 1821, a Biblioteca Real recebe de D. João VI seu primeiro regulamento, que trazia, em seus 32 artigos, normas e direcionamentos de como deveria transcorrer o funcionamento da Biblioteca. De acordo com Moraes (1979), estes artigos estavam ligados ainda às tradições burocráticas portuguesas, que, segundo o autor, persistem em continuar em terras brasileiras. Além das diretrizes gerais, como horário de funcionamento, tipo de materiais e organização de acervo, também, podia ser encontrado, neste regulamento, a preocupação com o maior dos inimigos das bibliotecas, o incêndio. Schwarcz (2002, p. 404) apresenta essa preocupação, quando destaca que “[...] mais uma vez, surgia bem no meio dos regulamentos o receio de incêndios, uma vez que sugere o decreto a proibição de velas ou lamparinas, os únicos meios de iluminação na época”.
Outro ponto interessante, neste regulamento, refere-se ao contato do usuário, que, neste momento, eram poucos, com os livros. Segundo Schwarcz (2002), ninguém poderia sair da biblioteca levando qualquer que fosse o livro, caso existisse a necessidade de copiar, tinha que ser feito na própria biblioteca e sob o olhar de um funcionário desta, para que não houvesse danos ou alterações nos originais.
Com a Independência, a nomenclatura da Biblioteca também sofreu alterações, deixando, em 1822, de ser Real e passa a ser chamada de Biblioteca Imperial e Pública, mas ainda não sendo seu nome definitivo, pois, em 1876, receberia, finalmente, e definitivamente, o nome de Biblioteca Nacional.
É importante perceber que nos primeiros anos do Brasil independente, junto com a briga para garantir a permanência da Biblioteca Real no Rio de Janeiro, também, surgiram políticas que se preocupavam com o desenvolvimento de seu acervo a partir de compras de livros e outras melhorias necessárias, para ajudar na formação de um país culto (SCHWARCZ, 2002).
Em 1827, num contexto mais preocupado com a educação pública, surge um novo regulamento da Biblioteca Imperial e Pública, em que chama a atenção à presença de um ponto relacionado à abertura e maiores possibilidades de acesso do público, inclusive dando ao leitor materiais que precisasse para realização de sua pesquisa, como podemos ver:
[...] A Biblioteca ficaria aberta todos os dias, das nove horas da manhã até a tarde, exceto aos domingos, dias santos e de Grande Gala da Corte. Seriam admitidas todas as pessoas "que se apresentarem decentemente vestidas e sem capote”, para as quais se emprestariam todos os livros que pedissem, assim como se lhes forneceriam “papel, pena e tinta para fazerem apontamentos". No entanto, tanta permissividade escondia velhas regras: ninguém podia levar emprestados livros da Biblioteca, sem "licença de sua majestade o Imperador e Ordem escrita, a qual ficará guardada para justificar o bibliotecário, e servir de título à sua reclamação”. Tampouco era permitido aos consulentes tirar livros das estantes ou recolocá-los; após a leitura, deveriam ser imediatamente devolvidos...”. (SCHWARCZ, 2002, p. 405)
Como nos mostra a autora, é importante salientar que, apesar de começar um processo de abertura ao público, ainda existia uma forma muito controladora desse acesso, não permitindo ao leitor sentir-se tão à vontade para pesquisar o que desejava. O acesso à Biblioteca ainda estava relacionado às pompas portuguesas, como foi mostrado; em que para se ter acesso ao livro, era necessário seguir padrões inclusive de vestimenta. Outras regras também foram sendo acrescentadas, especialmente, para ajudar no controle e na segurança do acervo, haja vista o fato de o número de leitores aumentar constantemente.
Com o grande crescimento do acervo, a Biblioteca teve a necessidade de mudar de prédio, o que aconteceu no ano de 1858, passando para a Rua do Passeio na Lapa, onde hoje é a Escola de Música, da Universidade do Rio de Janeiro. Contudo, como o acervo continuava a crescer, finalmente, realiza-se o projeto de um prédio específico para atender as necessidades da Biblioteca Nacional. Nascia, assim, no dia 29 de outubro de 1910, o prédio onde hoje se encontra as dependências dessa suntuosa Biblioteca.
A Biblioteca Nacional, mesmo após diversos restauros, seja por seu acervo grandioso, seja pela beleza de seu prédio, recebe muitos visitantes, alguns apenas para admirar formosura e outros para pesquisar e aproveitar o vasto conhecimento encontrado no âmbito de suas acomodações. Dentro de suas dependências, além de seu acervo e serviços de pesquisa, também existe um Escritório de Direitos Autorais, onde seus pesquisadores podem registrar e averbar os direitos de autor de suas pesquisas.
Já, no ano de 2006, a Biblioteca Nacional passa a fazer parte do contexto tecnológico em que a sociedade se encontra, fundando, então, a Biblioteca Nacional Digital, que é composta por diversas coleções digitalizadas e organizadas para acesso do público leitor. Esta Biblioteca consegue ultrapassar as barreiras do tempo e se adequar às necessidades do momento, levando todo o orgulho de um país dos papéis para o mundo virtual, estando presente no hall das bibliotecas com maior acervo virtual do mundo.
É incontestável que hoje a Biblioteca Nacional, assim como outros prédios e instituições culturais, tem enfrentado diversos problemas para a sua existência, sejam eles
físicos, de mão de obra ou mesmo políticos, o que lembra ainda seu momento de fundação. Contudo, esta instituição continua levando conhecimento para todos que o buscam, seja em suas dependências físicas ou em suas páginas virtuais, permitindo aos seus leitores possibilidades diversas de conhecimento.