4.2 Bilderverbot: crítica às falsas utopias
4.2.1 Bilderverbot: a convergência entre materialismo e teologia
Algo que devemos trazer aqui, antes de tudo, é o que significa a Bilderverbot para a filosofia. Ou melhor posto, seria a Bilderverbot uma categoria teológica, mais especificamente de origem judaica, ou seria ela, para Adorno, uma mera secularização, despida de toda sua carga teológica? Ou ainda, seria ela algo heterogêneo à filosofia? Assim como Adorno tomava como ponto de partida a terminologia dos filósofos, seus termos idiossincráticos como aquilo que traduz de forma mais clara suas posições filosóficas396, podemos aplicar o mesmo método a
Adorno. O uso de palavras como Erlösung, Bilderverbot, Schädelstätte, Messianischen Lichte, Unterpfand der Rettung não podem ser encaradas como metáforas, ainda mais pela recorrência, pelo uso que já deixou de ser casual para se tornar parte do arsenal teórico de Adorno.
Em “Adorno’s Vacillation”, Roland Boer pretende, como o próprio título sugere, ver até que ponto Adorno flerta com a teologia ou se ele a toma sob um sentido essencialmente filosófico. Sua tentativa é mostrar que o ato de secularizar categorias teológicas, do qual o próprio Adorno teria engendrado, é criticado em outros autores397. Ou seja, Boer quer demonstrar que existe um limite para a secularização, do qual, para Adorno, a teologia não teria apenas um aspecto secundário ou mera função para seus propósitos. Nisso residiria a vacilação de Adorno que não parece se comprometer totalmente com a teologia, porém, não larga mão dela e de suas categorias. O núcleo dessa vacilação seria, para Boer, o uso da Bilderverbot, a secularização da categoria teológica judaica, e a crítica a Heidegger em sua fuga ao
396 E e plo fu da e tal disso a o a Kie kegaa d: o st uç o do est ti o, do ual Ado o se utiliza dos te os e p egados po Kie kegaa d, de suas alego ias e te i ologia, o o po to de pa tida pa a o p ee de sua o a.
397 Theologi al suspi io ill lead e o to the se o d ele e t I a t to d a f o Ado o – the iti is of se ula ized theolog . This a o e as a su p ise to those ho ha e ead at least so e of the iti al app aisal of Ado o s o k, fo o e of the o o pla es is that he too ope ates ith se ula ized theologi al te s su h as the Fall, ede ptio a d g a e . BOER, Rola d. Ado o s Va illatio . I :____. C iti is of Hea e . p. .
enredamento entre teologia e ontologia398. Mas o argumento de Boer tem uma reviravolta. A Bilderverbot seria a categoria teológica que impede a possibilidade da própria teologia ser secularizada: “O problema é que a crítica da teologia secularizada faz parte de todo o pacote da Bilderverbot, que, em certo sentido, se baseia a própria proibição”399.
O problema de Boer é que existe uma certa timidez em pronunciar aquilo que de modo tão cuidadoso ele costurou com seus argumentos: a secularização das categorias teológicas era um disfarce, não para ocultar seus motivos políticos que nunca precisaram desse tipo de ardil, mas para conservar a teologia. O acanhamento de Boer aparece no não levar até o final suas conclusões: “Eu poderia argumentar que Adorno nunca fez uso de um conceito teológico secularizado, mas deixe-me tomar a posição mais modesta que, embora ele tem uma propensão a cair em tal modo às vezes, ele também desenvolve uma crítica extraordinária de tal teologia secularizada”400. O problema é que o próprio Boer não examina o que Adorno tomaria por
secularização. Parece que a secularização seria para Boer tirar das categorias teológicas seu conteúdo teológico com um novo uso, seja político ou metafísico.
Voltando ao argumento de Boer de que a Bilderverbot seria ela mesmo um argumento contra a secularização da teologia, faltou ele seguir mais à frente essa ideia. A Bilderverbot colocada nestes termos, não modificaria somente a ideia de seu uso pela filosofia, mas da própria teologia. Ela seria tão radical que negaria qualquer “transcendência”, qualquer além mundo. Assim, seria tolo falar em secularização de categorias teológicas quando a própria teologia já se dá dentro deste espaço secular, e não fora dele. Essa provavelmente não seria, se ele ousasse dizer, a conclusão de Boer de que “Adorno nunca fez uso de um conceito teológico secularizado”.
Fredric Jameson é mais claro com relação ao que pensa sobre a função da Bilderverbot. Jameson diz que Adorno ressuscitou a metafísica, mas que essa seria agora transformada em teologia. Só que com o papel dado às satisfações do corpo e à proibição de imagens pela Bilderverbot, Adorno teria esvaziado a teologia de seu conteúdo teológico401. Dessa forma, Adorno volta são e salvo de um possível desvio do marxismo – “sua relação ambígua com o materialismo” retorna à normalidade. Nem a metafísica transforma-se em teologia, nem a teologia é esvaziada de conteúdo teológico. Jameson, como Buck-Morss, apontam para a
398 Out of these te ts, th ee o e ts of the iti is of se ula ized theolog e e ge, t o f o the ja go ook a d o e f o the etaph si s le tu es: the atta k o e iste tialis a d espe iall Ado o s fa o ite pu hi g ag, Heidegge ; the da ge of a etaph si s that seeks to ase its autho it i thought alo e; a d the pa tial se ula izatio of li e al theolog . BOER, Rola d. Ado o s Va illatio . I :____. C iti is of Hea e . p. . 399 BOER, Rola d. Ado o s Va illatio . I :____. C iti is of Hea e . p. .
400 BOER, Rola d. Ado o s Va illatio . I :____. C iti is of Hea e . p. . 401 JAMESON, F ed i . Ma is o ta dio. p. .
remodelação da metafísica empreendida por Adorno. A ideia dualista de que existe um mundo real por trás da fachada caótica da realidade que não cessa de transformar-se quando rebatida, não põe fim à metafísica. Buck-Morss diz que Adorno é “o metafísico sem fé na metafísica”402,
podemos dizer que, para Adorno, a metafísica continuaria existindo só que sem o μετα, da mesma forma que a teologia existiria sem o além mundo.
A possível convergência entre teologia e materialismo, que Jameson não parece conceber, ao contrário de toda a história do materialismo, desde os hegelianos de esquerda até as leituras mais rasas sobre as obras de Marx, talvez não seja tão impossível como pareça prima facie. A outra passagem que aparece bem definido a Bilderverbot de Adorno, na Dialética Negativa, nos deixa aberto essa possibilidade:
A nostalgia materialista de conceber o objeto quer o contrário: só sem imagens seria possível pensar o objeto plenamente. Uma tal ausência de imagens converge com a interdição teológica às imagens. O materialismo a seculariza na medida em que não permite que se pinte a utopia positivamente; esse é o teor de sua negatividade. Ele está de acordo com a teologia lá onde é maximamente materialista. Sua nostalgia seria a ressurreição da carne; para o idealismo, para o reino do espírito absoluto, essa nostalgia é totalmente estranha403.
A Bilderverbot judaica, ao negar uma transcendência na imagem da coisa, ela afirma a transcendência na própria coisa, assim, materialismo e teologia convergem em devolver a dignidade perdida do objeto, do não-idêntico. Ou seja, a Bilderverbot não nega toda a transcendência, mas aquela que quer se substituir à coisa. O ressuscitar da carne é não só devolver o prazer recalcado, estigmatizado, como o desligar-se de todo idealismo que se interponha à imagem, ou seja, à ideia, entre o sujeito o objeto, ao invés de sua relação “direta”. Como diz Adorno na Minima Moralia: “Na consciência prevalecente, contudo, perde-se a verdade e falsidade da sua dignidade, não por força da esperança no além e sim em face da desesperançada fraqueza do aquém”404. O além só se tornaria um bloqueio à felicidade e ao
acesso à coisa quando o aquém é esvaziado e permutado por sua representação.