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4.3 A LINHA IMAGINÁRIA

4.3.2 Bilinguismo e multilinguismo

Um tema abordado de forma recorrente no documentário é a prática do bilinguismo, sendo assinalada como uma das características da hibridação dessa região. Nas zonas de fronteira é comum que seus habitantes conheçam, façam uso e se relacionem por meio dos idiomas oficiais dos países lindeiros que, no documentário analisado, seriam o português e o espanhol. Em A Linha Imaginária observamos que a prática de um multilinguismo é mais frequente até que o bilinguismo nessa região, pois além dos dois idiomas oficiais pratica-se um terceiro, conhecido como portunhol – ou portuñol –, que é a mistura do português com o espanhol, além de termos, no filme, a referência a outros imigrantes que perpetuam suas línguas de origem, como os árabes – a quem os diretores destinam uma sequência (A LINHA..., 2014, 9’35’’ – 12’).

Falado por boa parte dos personagens do documentário, o uso do portunhol cria um espaço de fraternidade e de partilha que atesta a experiência de vivenciar um território

comum, um entrelugar, onde a relação com o Outro se dá pela colaboração, por auxílios e trocas mútuas para uma convivência harmônica. A prática desse terceiro idioma em especial, que não é o espanhol ou o português, é também, uma maneira de celebrar a elaboração de uma forma comum e peculiar de comunicação a essa zona fronteiriça. Com a prática do portunhol elimina-se o entendimento dual de haver uma língua dominante e, por consequência, o apagamento de outra língua não dominante, com toda a representação identitária que ela carrega. O multilinguismo e a criação de um idioma próprio confere um caráter de reciprocidade linguística aos sujeitos que dele partilham, tornando produtivo esse aspecto da hibridação. Pelas imagens do documentário temos expressões que representam essa mescla linguística escritas em letreiros de fachadas comerciais, nos cardápios de restaurantes, tais como “xis de cerdo”, “chivito de frango”, “baño de mulheres”, entre outras, que atestam a convergência linguística em um idioma próprio que desencadeia um sentimento de coletividade e pertencimento àqueles que o praticam (A LINHA..., 2014, 25’).

Os exemplos do compartilhar de um idioma particular dessa região de fronteira são apresentados no documentário também nas composições musicais, poesias e pela oralidade. O portunhol como forma instintiva de comunicação assinala uma das características peculiares de um território fronteiriço contínuo em uso, vivências e trocas. No filme, a língua mistura territórios e sotaques, criando uma a zona de indiscernibilidade que descontrói os discursos de afiliação a um único território nacional, reforçando o vínculo a uma identidade fronteiriça que vincula pessoas de diferentes nacionalidades. Nesse sentido, o documentário enfatiza o quanto são indissociáveis os processos de aproximação e separação que a fronteira estabelece, pois se o portunhol ou o “misturado”, como nomeia essa língua própria da fronteira o personagem Fabián Severo, é a forma de comunicação praticada no convívio fronteiriço, brasileiros e uruguaios recorrem à sua língua pátria para dar prosseguimento aos atos formais que os vinculam a um Estado-Nação, como o registro civil, a formação escolar, etc. Assim, o documentário constrói uma imagem-ideia de que a zona de fronteira do qual retrata funciona como ponte entre sujeitos de nacionalidades jurídicas diferentes, mas de práticas culturais comuns “da fronteira”. Jovens e velhos falam a mesma língua, sendo esse um dos elementos que estabelece vínculos objetivos entre os atores sociais, materializado na economia de sentimentos apresentada pelo documentário em diversas cenas, como na tomada de um recital de música e poesia realizado por Fabián Severo e Ernesto Díaz em Aceguá/Aceguá, no qual escutamos os aplausos do público ao final da fala de Fabián sobre a fronteira, enunciado em

portunhol: “Nós semo da fronteira, más, mucho más do que qualquer río, e más, mucho más

do que qualquer puente” (A LINHA…, 2014, 2’10’’).

Outro exemplo que destacamos sobre o vínculo promovido pelo idioma em comum está na música, expressão cultural bastante presente no documentário. Na cena que inicia a terceira sequência, que aborda a fronteira entre Santana do Livramento e Rivera (A LINHA…, 2014, 3’50’’), o músico e compositor Chito de Mello entoa uma canção que expressa o idioma praticado nessa zona fronteiriça: “En la huella mestiza de la frontera pasa

la vuelta de Livramento e Rivera. Num dialeto clandestino e orelhano, que falam los gaúchos e los castelhanos. Hijos de uma cultura contrabandeada, que ficou nestes pagos, aquerenciada” (A LINHA…, 2014, 3’50’’). Pela letra percebemos a mistura de algumas

palavras em português, outras em espanhol que, agrupadas, geram o portunhol, o espaês ou o Dialeto Português no Uruguai (DPU) – diferentes formas de nominar a linguagem oral praticada nessa fronteira e que se torna um dos pontos de contato entre vizinhos.

Enquanto a música é entoada como trilha sonora, temos imagens de confraternização entre pessoas e também do comércio formal e informal na Avenida Sarandi, que assinala o limite nacional entre Brasil e Uruguai na fronteira seca da cidades-gêmeas Santana do Livramento e Rivera, reforçando a integração e o convívio harmonioso nesse local. A referencialidade e acentuação da língua praticada oralmente aproxima os sujeitos fronteiriços num lugar onde a própria língua materna não é tão recorrente e familiar. Como a água, esse território é fluido, heterogêneo e disforme. Fabián Severo afirma que a fronteira seria como um estuário, ambiente aquático de transição entre o rio e o mar onde brotam e crescem espécies que não crescem em outros lugares, constituindo o caráter único dessa identidade fronteiriça que, assim como a mistura das águas, está sempre em movimento. “É o lugar aonde as águas se mesclam: a água do mar com a água doce, e cria essa zona onde crescem...um estuário. Onde crescem coisas que não crescem nem na água salgada, nem na

água doce33”, afirma Severo (A LINHA..., 2014,5’20’’, tradução nossa).

A analogia do território fronteiriço com o estuário é frutífera para pensarmos os sentidos identitários gerados por esse entrelugar. O estuário seria o entrelugar compreendido pela articulação de diferenças culturais de brasileiros e uruguaios que suscitam uma identidade fronteiriça híbrida que emerge da negociação advinda de experiências subjetivas e

33 “Es el lugar adonde las aguas se mezclan: el agua del mar con el agua dulce, y crea esa zona donde crecen…un estuario. Donde crecen cosas que no crecen ni en el agua salada, ni en agua Dulce.” (A LINHA..., 2014 5’20’’).

coletivas decorrentes de sujeitos de diferentes culturas, etnias e nações. De acordo com Bhabha (2013, p. 20), “Esses entrelugares fornecem o terreno para elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de sociedade”.

A partir desses pressupostos, o documentário constrói uma imagem-ideia de hibridismo cultural na qual os embates acerca da diferença cultural são produtores de semelhanças, de identidades partilhadas e interculturais. Nesse sentido, a prática de um idioma exclusivo torna-se mais um elemento produtor desse hibridismo cultural, pois como afirma o personagem Fabián Severo, assim como os habitantes fronteiriços retratados pelo

documentário, “a língua não respeita os tratados internacionais, nem os limites geográficos34”

(A LINHA..., 2014, 23’45’’, tradução nossa). No exemplo percebemos que os traços culturais de brasileiros e uruguaios não são reprimidos e negados, e sim reconhecidos como algo diferente – híbrido – que pela reiteração desencadeia uma série de práticas e posicionalidades diferenciais, que tanto afastam-se das identidades nacionais, quanto produzem novas formas de saber, novos modos de diferenciação e outros sentidos identitários.

Em termos visuais temos a representação da fronteira como espaço comum, partilhado, como um território único, por meio de planos gerais abertos, gravados de dia, onde o continuum espacial geográfico perde-se nas imagens de um horizonte distante em uma paisagem repetitiva de grandes extensões de campo na zona rural. Já as cenas nas fronteiras urbanas oscilam entre o enquadramento de ambientes poluídos sonora e visualmente, marcados pela intensa presença humana no comércio formal e informal, ou por ruas que demonstram o contraste da insurgência do comércio fronteiriço em cidades com características marcadamente rurais, como é o caso de Aceguá e Chuí.

As entrevistas, são captadas geralmente entre o plano médio e o primeiro plano, destacando a força do depoimento em uma narrativa expositiva, além de “valorizar o discurso dos personagens sobre a fronteira” (BORBA, 2014, p. 93). As imagens do cotidiano fronteiriço são usadas para endossar os comentários verbais dos entrevistados, uma vez que no modo de representação expositivo “o comentário é de ordem superior à das imagens que o acompanham” (NICHOLS, 2013, p. 143). Nesse sentido, as imagens de cobertura evidenciam cenas de um cotidiano de atividades como o comércio no espaço urbano e de atividades ligadas à pecuária no meio rural, organizadas a partir da montagem de evidência. Seja uma

fronteira rural ou urbana, a constância nas paisagens, independentemente das cidades que são visualizadas, reifica o quanto o território é constituidor de um sentido identitário para os sujeitos fronteiriços, pois nos planos conjuntos sobre as rotinas de fronteira não distinguimos a localização das imagens em nenhum dos países vizinhos, mas constatamos práticas comuns num entrelugar que oferece múltiplos elementos que geram estratégias de subjetivação e identificação entre os fronteiriços, e de diferenciação com as identidades nacionais brasileiras e uruguaias.