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4.1 CONTINENTE DOS VIAJANTES

4.1.4 Bloco 3 – Alguns imigrantes no Rio Grande do Sul

O terceiro e último bloco do documentário está organizado em três sequências. A primeira delas aborda diretamente a relação dos fronteiriços com o território, e a narrativa concentra-se no extremo sul do estado, especificamente nos municípios de Chuí (BR) e Chuy (UY). A imagem de um mapa, já utilizada em outras cenas, localiza o espectador sobre o trajeto percorrido, situando-o no ponto mais meridional do Brasil. Nas cenas temos a repetição dos elementos que recobrem o imaginário social sobre a região da campanha do Rio Grande do Sul: casebres precárias, o hábito do partilhar o mate e do campeirar o gado, a paisagem do pampa em suas grandes extensões de pastagens, além da adição de imagens de um obelisco, com especial enfoque às palavras Brasil e Uruguay, uma em cada lado da edificação (CONTINENTE..., 2004, Bloco 3, 2’50’’).

Percebemos, por essa imagem do obelisco, que os países vizinhos possuem nomes distintos, mas compartilham de um mesmo suporte físico nessa linha divisória, assim como os habitantes locais apresentados no documentário sustentam um sentimento de pertencimento a uma territorialidade comum, mais ampla que os limites geopolíticos assinalados entre os países, demonstrados visualmente pelo compartilhar de costumes e hábitos particulares a uma cultura transfronteiriça. A questão da territorialidade simbólica é visualizada no trânsito entre marcos, ruas e rios que assinalam os limites entre países vizinhos. Também é a partir da relação funcional com o território que emergem elementos integrantes da identidade gaúcha, tais como as atividades campeiras – de trabalho e de lazer – e o hábito do churrasco preparado em fogo de chão.

Cabe-nos ressaltar que tais características englobam diversas nuances de ser gaúcho, e nem sempre estão associados à defesa de uma identidade mítica, pois são práticas comuns a toda região do pampa, que integra parte do Uruguai e da Argentina. Tanto o sentido identitário de “ser da fronteira” quanto a vinculação com o “mito do gaúcho” estão amparados nos elementos que constituíram, historicamente, a identidade regional gaúcha. O que os difere é o necessário contato entre populações de países diferentes e a prática de um idioma comum,

no caso das identidades fronteiriças; e a forma de relacionamento com o Outro, ou seja, se a relação envolve um sentido de soberba e superioridade, estamos diante de uma expressão do valoroso, heroico e destemido “mito do gaúcho”.

No deslocamento da câmera pelo mapa, a trilha sonora é modificada de uma milonga para uma música árabe contemporânea, demonstrando um encontro entre diferentes grupos. A relação dos fronteiriços com os imigrantes oriundos do Império Otomano, que até 1908 eram indistintamente classificados como “turco-árabes” (FRANCISCO, 2013), é apresentada em seu aspecto visual por enquadramentos do comércio, com destaque para as lojas locais de propriedade desses imigrantes. Há trânsito intenso de consumidores que passam diante da câmera. A imagem detém-se sob o rosto de um comerciante em especial, que fala sobre a relevância da imigração de seus descendentes árabes para a manutenção do comércio fronteiriço (CONTINENTE..., 2004, Bloco 3, 3’43’’). Há um reconhecimento da alteridade árabe no filme, que também integra a heterogeneidade da cultura local.

No aspecto sonoro, os comerciantes falam com desenvoltura ambos os idiomas, perpetuando ao menos um dos elementos autóctones de sua cultura: a língua. Se o hibridismo refere-se a uma mescla cultural, em sua acepção ampla, os grupos envolvidos no processo de hibridação nem sempre geram novos sentidos identitários, pois muitos mantém algumas de suas características. No documentário, enquanto que falar o portunhol é uma prática de sobrevivência nessa zona fronteiriça, o fato dos árabes perpetuarem a própria língua é também uma forma de resistência à total apropriação da cultura gaúcha e “da fronteira”.

Como já mencionamos, a identidade regional gaúcha é articulada como híbrida e sincrética por meio de investidas integracionistas que ignoram certas contribuições, privilegiando os aportes de determinados grupos dominantes para esse constructo. Enquanto a contribuição de indígenas e negros são apropriadas e ressignificadas como parte da cultura dominante, sendo despersonalizadas como culturas étnicas, a contribuição dos colonos alemães e italianos são positivamente referenciadas na segunda sequência desse bloco, que inicia com o deslocamento do narrador pela região central do estado e vai até a serra gaúcha (CONTINENTE..., 2004, Bloco 3, 4’20’’ – 10’40’’). No filme, a contribuição desses imigrantes europeus está associada ao trabalho e ao desenvolvimentismo econômico por eles promovido.

O documentário encerra com imagens aéreas de Porto Alegre, e a locução do mesmo narrador do depoimento inicial do documentário, cujo texto é de autoria do diretor de teatro alemão, Wolfgang Hoffmann-Harnisch:

Agora cheguei a conhecer a terra gaúcha de perto. O Rio Grande do Sul e o Brasil não se devem considerar como um todo e uma parte do mesmo. Entretanto, a terra e o homem do Rio Grande do Sul me pareceram absolutamente brasileiras. Bastava pisar no cais de Rio Grande ou aterrissar no aeródromo de Porto Alegre para sentir...estou novamente no Brasil (CONTINENTE..., 2004, Bloco 3, 11’20’’).

O texto faz referência à diferenciação entre os gaúchos e os demais brasileiros, que “não se devem considerar como um todo e uma parte do mesmo [Brasil]”, que é a tônica endossada por um ideário de valorização da cultura e da identidade diferencialista, também apresentadas no filme. Entretanto, o próprio texto apresenta uma ressalva de que “a terra e o homem do Rio Grande do Sul pareceram absolutamente brasileiras”. A concomitância do texto em justaposição com imagens aéreas de Porto Alegre talvez denote que essa diferenciação da identidade gaúcha é válida na distinção para com outros grupos étnicos, mas não exclui o sentido de identidade nacional dos gaúchos – que também pode se manifestar em contraste com a identidade nacional de um alemão, uma vez que “Bastava pisar no cais de Rio Grande ou aterrissar no aeródromo de Porto Alegre para sentir...estou novamente no Brasil”. Assumir uma identidade cultural regional não exclui a possibilidade de expressar também uma identidade nacional. A questão é que o conceito de identidade nacional brasileira está fundamentado em atributos que não reconhecem as contribuições de alguns grupos em sua conformação.

Os créditos finais do filme são inseridos na tela ao som de uma milonga instrumental, expressão musical que sintetiza e reitera o sentido identitário gaúcho compartilhado nas zonas de fronteira do Brasil com o Uruguai e com a Argentina.