As fronteiras continentais brasileiras foram definidas com base nas características naturais da paisagem ou em acidentes topográficos. Nos lugares onde esses critérios não puderam ser aplicados é que foram utilizadas as linhas demarcatórias, com a presença dos consequentes marcos geodésicos (BRASIL, 2005). Enquanto o limite é a linha que divide o território de dois Estados, a fronteira é a região ao redor do limite. Isto é, o limite de um Estado-Nação é até onde vai sua jurisdição, enquanto a fronteira integra uma zona mais
ampla. Na tese trabalhamos com a análise de documentários sobre distintas zonas fronteiriças, que serão contextualizadas no começo de cada análise fílmica (Quadro 03).
Quadro 03 – Limites do Brasil com os países vizinhos abordados nos documentários analisados.
Documentário Estado Brasileiro País Fronteiriço
Continente dos Viajantes Rio Grande do Sul Argentina
Uruguai
A Gente Luta mas Come
Fruta Acre Peru
Quilombagem Rondônia Bolívia
Causos e Cuentos de
Fronteira Rio Grande do Sul
Argentina Uruguai
Manoel Chiquitano
Brasileiro Mato Grosso Bolívia
A Linha imaginária Rio Grande do Sul Uruguai
Doble Chapa Rio Grande do Sul Uruguai
Fonte: Dados da autora, 2017.
A vigilância das zonas de fronteira e, efetivamente dos postos de policiamento no limite entre os países vizinhos com o Brasil é de responsabilidade da Polícia Federal e das Forças Armadas. A Polícia Federal é responsável por fiscalizar a entrada e saída de pessoas, controlar o transporte de carga, combater o tráfico de drogas, armas, animais e madeiras, assim como roubo de veículos. Para isso, a Polícia Federal brasileira conta com apenas 27 postos oficiais de fiscalização nos mais de 16.000 quilômetros da fronteira continental brasileira, onde atuam 272 policiais (BRASIL, 2015, p. 52). Essa deficiência, aliada à falta de equipamentos e de contingente faz com que tenhamos uma “porosidade” nas fronteiras, dificultando a atuação na fiscalização nas zonas fronteiriças abordadas nos documentários analisados. Já às Forças Armadas compete implantar ações preventivas ou repressivas contra delitos transfronteiriços e ambientais na faixa de fronteira, realizando patrulhamento, vistoria de pessoas e veículos, coibição de delitos como narcotráfico, contrabando e descaminho, tráfico de armas e munições, crimes ambientais, imigração e garimpo ilegais (BRASIL, 2016). Para isso, as Forças Armadas dispõem de menos de um militar por quilômetro de fronteira, conforme dados disponibilizados via Acesso à Informação, no site do Ministério da Defesa (BRASIL, 2017).
Considerando os fatores expressos, adicionamos também que o processo de globalização acentuou o fluxo de bens materiais, simbólicos e o deslocamento de migrantes nessas regiões, que potencializaram a ineficiência da fiscalização no controle fronteiriço. Os fluxos e as interações que ocorrem decorrentes desses processos impactam o trabalho nas fronteiras e aduanas, mas também recaem sobre a autonomia que os habitantes locais possuíam para transacionar suas relações – sejam elas comerciais ou de sociabilidade. As novas formas de hibridação impulsionadas pela globalização não só promoveram a integração intercultural, mas geraram segregações e desigualdades, estimulando reações diferencialistas, conforma assinala García Canclini (2003).
Toda essa conformação contraditória das zonas fronteiriças é representada pelos veículos de comunicação, que ora as enquadram como espaços de ampla circulação comercial, ora como regiões de intensa fiscalização desse mesmo comércio. Nesse entrelugar maleável, permeável e suscetível a constantes mudanças, os sujeitos que ali habitam são afetados pelos diferentes processos de reforço da integração transnacional ou da edificação de barreiras para proteção nacional, conforme condicionantes externos. Partindo desse contexto e entendendo os sujeitos como seres materialmente sensíveis e que se vinculam de diferentes formas aos lugares que habitam, é importante especificarmos os embates desses sujeitos nas zonas fronteiriças, os quais são geradores de laços culturais que desencadeiam os sentidos identitários.
Para compreensão do espaço, nos pautaremos na conceituação de Milton Santos (2010b, p. 588), para quem “O espaço se dá ao conjunto dos homens que nele se exercem como conjunto de virtualidades de valor desigual, cujo uso tem de ser disputado a cada instante, em função da força de cada qual”. Nesse sentido, o espaço engloba a relação material entre sujeitos, cuja conexão está sempre tomando novas formas, daí que a cooperação e o conflito são os fundamentos da vida em comum.
Figura 01 – Mapa com a sinalização das zonas fronteiriças abordadas nos documentários.
Fonte: Dados da autora.
As fronteiras continentais do Brasil são espaços territoriais marcados por contendas históricas, com litígios e disputas sangrentas no passado que, em algumas regiões, ainda estão presentes contemporaneamente, embora tenham adquirido outras formas de expressão. Se outrora foram os conflitos pelas disputas territoriais que cindiram e dizimaram populações indígenas inteiras na fronteira da região amazônica, não menos violentos são os conflitos pelo controle do tráfico entre o Brasil e o Paraguai ou as disputas por madeira na fronteira com o Peru ou Bolívia, os quais desencadeiam características específicas e diversas às dinâmicas sociais fronteiriças, diferentes de outros espaços sociais. Mas o viver num entrelugar também configura relações de trocas, aglutinamentos e solidariedades entre culturas distintas. Como afirma Fabián Severo, personagem de A Linha Imaginária, a fronteira é como um estuário, ou seja, um espaço onde emergem formas distintas de viver, sentir, compartilhar, diferir e se apropriar de um território.
Em algumas regiões o controle das fronteiras exercido pelo Estado Nacional não consegue dissipar os traços comuns constituídos pela conformação sincrética de um espaço híbrido. Não há separação entre os habitantes de nacionalidades distintas, pois o Estado apenas dificulta as migrações, mas não as impede. Um exemplo dessa relação é o trânsito livre entre os moradores de cidades vizinhas, as trocas comerciais e também o fluxo de mercadorias via descaminho, que é uma prática recorrente nas zonas de fronteira brasileiras, conforme demonstram os documentários para os quais os sentidos identitários são constituídos também por esse tipo de trocas. Há uma interdependência entre as cidades fronteiriças e o comércio é guiado pelo câmbio, que alterna as cidades favorecidas por um fluxo comercial mais intenso.
A partir da observação atenta dos documentários selecionados, decupados por temas, notamos que as trocas e intercâmbios culturais ocorrem mais intensamente nas zonas de fronteira onde a territorialidade simbólica transfronteiriça é exercida sem a necessidade da propriedade material, fortalecida pela identificação dos sujeitos que compartilham de um mesmo sentido identitário, que é expresso como “sortidinho” em Continente dos Viajantes, “ser da fronteira”, em Causos e Cuentos de Fronteira, pertencer a um “espaço-território” em
Doble Chapa e habitar uma “terra só” em A Linha Imaginária. Esse contato intenso
possibilita o surgimento de identidades comuns ancorados em uma espécie de sentimento de união cultural entre populações fronteiriças, de pertencimento e solidariedade, representadas nesse conjunto de documentários pela mescla linguística, pelas expressões culturais
partilhadas como a música e a literatura, pelo desenvolvimento de um comércio informal de trocas, entre outros. Assim, os sentidos identitários formulam-se a partir da noção de que há uma “‘cultura da fronteira’ ligando as comunidades vizinhas [...] em que a população também se vê e se autoidentificada a partir desta base comum”, vinculando o sentido identitário fronteiriço à condição de viver na fronteira, conforme aponta Hartmann ao analisar as fronteiras territoriais do Rio Grande do Sul (HARTMANN, (2011, p. 258). Acreditamos que esses laços de pertencimento a um espaço comum diluem as identidades nacionais e desestimulam os confrontos, confluindo para a conformação de novos sentidos identitários, amparados na interculturalidade e multiterritorialidade. Porém, ao mesmo tempo, mascaram e obscurecem a presença de culturas não dominantes.
Para o geógrafo brasileiro Rogério Haesbaert (2008), o território é um local de dominação jurídica e política e também de terror e medo, especialmente para aqueles que estão impelidos de usufruir ou adentrar nele. Segundo o autor, apropriar-se de um território implica na possibilidade de exercer dois tipos de poder. Um deles é o poder concreto de dominar, possuir e deter a propriedade do espaço físico, sendo esse tipo de território nominado como funcional – ou seja, seu uso ocorre em função do valor de troca, do controle físico, da produção e do lucro, sendo também um espaço de desigualdades. Outro diz respeito à apropriação simbólica, ou seja, aos usos que as pessoas fazem, aos afetos, ao valor de troca e aos significados atribuídos pelos processos sociais que ali se estabelecem, sendo esse espaço percebido como território simbólico, cujo sentido de abrigo, lar e segurança afetiva compõem o mosaico das diferenças que esse tipo de vínculo enseja.
A territorialidade plena seria, assim, a unificação dos aspectos de pertencimento e da posse territorial, que, para o autor, deveriam ser indissociáveis, pois “A territorialidade está intimamente ligada ao modo como as pessoas utilizam a terra, como elas próprias se organizam no espaço e como elas dão significado ao lugar", tornando-o um local dotado de valores, reunindo, em maior ou menor proporção, os aspectos funcionais e os simbólicos conforme (HAESBAERT, 2008, p. 3). A partir dessa concepção de território e territorialidade decorrem os processos de territorialização, pelo qual sujeitos e coletivos dotam de significado seu espaço físico ou virtual de convivência.
Essa caracterização genérica sobre as possibilidades de territorialidade que dificilmente se manifestam em sentido “puro” – funcional ou simbólica – passou a incorporar, a partir de meados do século XIX, o fator mobilidade, que intensificou os fluxos, relações e
conexões de um território mais circunscrito geograficamente para um território com maior mobilidade espacial, marcado pelos trânsito de pessoas, mercadorias e informações de uma sociedade em rede, evidenciando a mobilidade como um elemento fundamental na constituição do território. Nesse ponto, cabe-nos observar que identificamos nos documentários dois tipos de mobilidade, sendo uma delas que ocorre de forma voluntária, pela qual os sujeitos vão ao encontro do Outro, desenvolvem trocas comerciais, compartilham informações, experiências e sensibilidades nos territórios – práticas que forma fortemente estimuladas pela lógica de expansão comercial proposta pela globalização, mas que também existem anteriormente a esse processo. A esses fluxos e redes Haesbaert chama de multiterritorialidade, que contempla "um cenário de pugna entre territorialidades, isto é, entre jurisdições, reais e imaginadas, que incidem sobre os territórios estruturados e habitados" (HAESBAERT, 2008, p. 9). Essa multiterritorialidade abriga formas particulares de identidade territorial que estão sob diferentes jurisdições, mas que estão unificados pela perspectiva do território como apropriação simbólica. Por isso muitos grupos que vivem nesses territórios contornados pelas zonas de fronteira incorporam-se a um multipertencimento territorial em suas comunidades, cidades e regiões.
A multiterritorialidade permeia todos os ambientes sociais e é compartilhada por diferentes grupos que constroem territórios multifuncionais, flexíveis e multi-identitários, nos quais o acesso é promovido pelo trânsito entre os indivíduos, num espaço físico ou virtual compartilhado. A esse tipo de espaço Haesbaert (2008, p. 7) denomina territórios-rede, caracterizados por um “contexto descontínuo, fragmentado e de simultaneidade entre territórios”, tanto no sentido físico como virtual. Porém, ao contrário do que muitas correntes conceituais pós-modernas difundem, as multiterritorialidades não são possibilidades amplamente aplicáveis ao redor do mundo, sendo possíveis apenas para poucos que possuem o privilégio de viver num lócus de intensa conexão humana, de zonas onde há o predomínio da paz e da integração. Dentre esses grupos, talvez estejam alguns fronteiriços que vivenciam a fronteira como um espaço gerador de identidades culturais complementares e híbridas, abordadas no conjunto de documentários sobre as fluidas fronteiras do Brasil com o Uruguai e com a Argentina, cujas análises estão nos filmes Continente dos Viajantes, Causos e Cuentos
de Fronteira, A Linha Imaginária e Doble Chapa.
Por outro lado, também visualizamos uma mobilidade territorial forçosa, ameaçadora e violenta, que impõe o cerceamento e também o cercamento de grupos em um espaço
territorial com fluxos desiguais de entradas e saídas, muitos deles delimitados em função das pressões de grupos dominantes. Nesse caso, os grupos não dominantes são encurralados em um espaço marcado pela diferença étnica, que também pode ser entendida como desigualdade. Esse espaço praticado apresenta resistências à uniformização e reitera novos modos de estar junto, baseado no comunitarismo étnico. Para além do caráter de apropriação simbólica, o território é o terreno do trabalho e da sobrevivência econômica, material e cultural, fortalecendo o caráter identitário baseado na diferença com o Outro. Esse tipo de uso do território de modo mais circunscrito ou “zonal” atua na individualização dos sujeitos ou dos grupos sociais que nele habitam, conforme constatamos pelas análises dos filmes
Quilombagem, A Gente Luta mas Come Fruta e Manoel Chiquitano Brasileiro.
Na esteira entre uso funcional e simbólico, o território com base material delimitada está imerso em relações de dominação político e econômica que torna seu uso funcional imprescindível para a sobrevivência dos grupos que nele habitam, ao contrário dos espaços multiterritoriais, nos quais as marcas do vivido e o valor de uso do espaço de interação entre grupos sociais distintos se sobrepõem à funcionalidade física. Para os grupos não dominantes unidos em torno de uma identidade étnica, o território possui um fim em si mesmo, pois é o espaço de abrigo e de vinculação simbólica, e perder esse território é quase que desaparecer enquanto formação social, pois suas práticas culturais, econômicas e sociais estão ancoradas também no espaço físico territorial. Para esses grupos, como os indígenas e quilombolas analisados nos documentários, o território possui funcionalidade vital, uma vez que assegura abrigo e condições de sobrevivência no cotidiano, constituindo identidade.
Considerando que o território envolve também a circunscrição de uma área, que pode ser mais simbólica ou mais funcional, ele é moldado por relações de poder de grupos sociais que podem conviver num mesmo espaço, alimentando ou não as lutas pelo domínio material desse território. Nas territorializações mais fechadas há uma imposição da “correspondência entre o poder político e a identidade cultural, ligadas ao fenômeno do territorialismo, como nos territórios defendidos por grupos étnicos” (HAESBAERT, 2008, p.8). Já as territorializações múltiplas, que seriam a expressão de uma multiterritorialidade plena, são conformadas por grupos ou sujeitos que elaboram seus territórios numa conexão maleável de territórios com diferentes jurisdições, culturas, relações sociais, políticas, etc., os quais
produzem sentidos particulares de identidade. Na coexistência complexa de
multiplicam os sentidos identitários nas zonas de fronteira brasileira, tendo o território como um local amparador das diferenças humanas.
Nos cabe aqui trazer uma explicação adicional sobre as territorializações mais fechadas dos grupos étnicos ligados às atividades camponesas tradicionais, como são considerados os indígenas e os quilombolas. No contexto de um grupo étnico, a relação dos sujeitos com o território pode apresentar particularidades, pois:
[...] são as pessoas que pertencem ao grupo social e ao território, e não o contrário, como ocorre em nossa sociedade, onde a terra pertence aos seus donos. Ser membro de um grupo étnico é se submeter a uma série de regras sociais estabelecidas pela tradição e perpetuadas geração após geração (INSTITUTO..., 2017, p. 7).
Sobre esse aspecto, o antropólogo Fredrik Barth pontua que os grupos étnicos são “uma forma de organização social” em que as pessoas se submetem às normas do grupo no qual a participação depende da autoatribuição e da atribuição pelos outros dessa identidade determinada por sua origem e circunstância de conformação social (BARTH, 2000, p. 31). Nos termos de Barth (2000), a identidade étnica refere-se a um grupo de seres humanos unidos por um fator comum, tal como as pessoas que se identificam na cor da pele, língua, cultura e que compartilham uma história e uma origem comum. Estas “organizações sociais” geralmente reivindicam para si uma estrutura social e política, bem como um território – de caráter simbólico ou simbólico e material, como nos exemplos das territorialidades indígenas e quilombolas. Para o autor, nem todos os grupos étnicos necessitam ter ancoragem territorial para identificarem-se como tal. Exemplo recorrente são os ciganos, que possuem no deslocamento constante uma característica constituidora de sua identidade. Nesse caso, os membros ciganos pertencem apenas à coletividade do grupo social.
Por outro lado, a noção de território e territorialidade é uma questão fundamental para sobrevivência de grupos camponeses tradicionais, ou seja, para aqueles que dependem da terra para sua sobrevivência. De acordo com um documento sobre a regularização de territórios quilombolas no Brasil, torna-se pertinente a observação de que
No caso de um grupo étnico camponês, como os quilombolas, que fundam sua existência sobe o uso intensivo e extensivo, prático e simbólico de um determinado território, esse elemento acaba por assumir um papel essencial a reprodução física e social do grupo. Portanto, o território para um grupo camponês tradicional, ocupa o lugar de elemento central no processo de identidade grupal (INSTITUTO..., 2017, p. 7).
Assim, para os quilombolas é o território que assegura a continuidade da comunidade, por isso consideramos uma prática de resistência os enfrentamentos em defesa de sua propriedade, fator que fortalece o sentido identitário étnico, constituído pela diferença em relação a outros grupos sociais com os quais estão em contato. A reinvindicação da propriedade definitiva às comunidades negras rurais é assegurada pelo Decreto 4.887/2003, que determina as características a serem observadas em uma comunidade remanescente de quilombo, tais como a autoatribuição, uma trajetória histórica própria, a ancestralidade negra relacionada com o período escravocrata e, ainda, relações territoriais específicas, “na medida em que é o território e o vínculo específico que os membros da comunidade tem com o mesmo que se constitui no fato social total que, ao lado de todas estas outras características, conformam uma comunidade quilombola” (INSTITUTO..., 2017, p. 5). Assim como para os indígenas, a reivindicação da propriedade territorial é vital para a sobrevivência do grupo, pois é a partir dele que se estabelecem as regras, as práticas, os valores e o modo de vida dos quilombolas.
Para os indígenas, a reivindicação por uma base territorial exclusiva deu-se pelas sucessivas situações coloniais, a partir das “restrições impostas pelo contato, pelos processos de regularização fundiária, contexto que inclusive favoreceu o surgimento de uma identidade étnica”, conforme afirma a antropóloga indigenista Dominique Gallois (2004, p. 39). Assim, a obtenção de uma base territorial fechada e delimitada decorreu do enfrentamento com um modo de vida alheio, transformando os territórios em terras, passando-se da concepção de apropriação simbólica (territorialidade sem a terra) para a concepção de posse (territorialidade com a propriedade). O território, na compreensão indígena, envolve um modo de vida que abrange as concepções materiais, ambientais e sociais, e engloba as áreas necessárias à sua reprodução cultural, indo além dos entornos das aldeias. Por isso a noção de territorialidade passou a ser levada em conta nas análises dos processos de definição das Terras Indígenas, que passa pelas etapas de identificação, reconhecimento, demarcação e homologação. Terra é apenas a parte do território que faz referência ao aspecto jurídico da posse e propriedade material, determinada pelo Estado (GALLOIS, 2004).
Decorrente das dinâmicas sociais de contato com o Outro, marcadas por tensões, disputas e negociações entre grupos com concepções de modo de vida muito diferentes, a propriedade territorial passou a ser o suporte de etnicidade para muitos grupos indígenas, como nos exemplos das etnias chiquitana e ashaninka, pois amparar a perpetuação de grupos
indígenas no Brasil somente no pressuposto da apropriação simbólica do território fatalmente os levaria à extinção. Assim, temos que considerar que a relação entre um grupo indígena e seu território não é originária da “natureza indígena”, mas construída em virtude das diferentes experiências no contato com outros grupos – dominantes. Entretanto, não é possível afirmar que os limites étnicos correspondam aos limites territoriais para todas as etnias