Capítulo 4. Socioambientalismo e Biodiversidade
4.2. Biodiversidade
Tendo em vista a íntima relação da sociodiversidade com a biodiversidade para o presente estudo, faz-se necessário tecer algumas considerações sobre a proteção da biodiversidade no âmbito interno e internacional. Essa abordagem será feita tendo em conta o aspecto jurídico e algumas questões econômicas, pois foi somente nas últimas décadas que os países do hemisfério sul, detentores de recursos genéticos e conhecimentos tradicionais, passaram a ter a real dimensão da importância desses recursos e da enorme riqueza que os mesmos poderiam gerar, especialmente para as indústrias de biotecnologia, como as que produzem fármacos e cosméticos.
85 “ Art. 18. A Reserva Extrativista é uma área utilizada por populações extrativistas tradicionais, cuja
subsistência baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade.
§ 1o A Reserva Extrativista é de domínio público, com uso concedido às populações extrativistas tradicionais conforme o disposto no art. 23 desta Lei e em regulamentação específica, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei. (...)”
86 “ Art. 20. A Reserva de Desenvolvimento Sustentável é uma área natural que abriga populações tradicionais,
cuja existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica.
§ 1o A Reserva de Desenvolvimento Sustentável tem como objetivo básico preservar a natureza e, ao mesmo tempo, assegurar as condições e os meios necessários para a reprodução e a melhoria dos modos e da qualidade de vida e exploração dos recursos naturais das populações tradicionais, bem como valorizar, conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente, desenvolvido por estas populações. (...)”
Inicialmente, oportuno constar que o Brasil é um país megadiverso, pois possui a maior diversidade biológica de flora e fauna do planeta, estima-se em cerca de 20%. De acordo com a Convenção sobre Diversidade Biológica:
Diversidade biológica significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas.
Internamente, a proteção da biodiversidade constou expressamente no art. 225, §1°, II da Constituição Federal de 1988, o qual incumbiu ao Poder Público, para a efetivação do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, “preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do país e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e à manipulação do material genético.”.
Antes da Convenção sobre Diversidade Biológica, assinada no Rio de Janeiro em 1992, os recursos genéticos e os conhecimentos tradicionais eram considerados patrimônio da humanidade, com a adesão de diversos países ao documento internacional foi reconhecido que os Estados têm direitos soberanos sobre os seus próprios recursos biológicos e que os benefícios decorrentes da utilização dos conhecimentos, inovações e práticas das populações indígenas e comunidades locais devem ser repartidos equitativamente, em conformidade com a legislação nacional.
Porém, foi apenas com a ratificação da Convenção sobre Diversidade Biológica em 1994, através do Decreto Legislativo n° 02/02/94, que esse documento internacional veio a integrar o ordenamento jurídico brasileiro, trazendo importantes questões a serem legisladas internamente para a preservação da biodiversidade e também para regular a relação com os entes nacionais e internacionais interessados em acessar o patrimônio genético e os conhecimentos tradicionais associados das populações tradicionais.
Com a Convenção sobre Diversidade Biológica, a biodiversidade foi reconhecida como essencial à vida no planeta, devendo os recursos ambientais serem preservados para as presentes e futuras gerações. Além disso, a biodiversidade passou a ser valorizada também do ponto de vista econômico, o que
despertou o interesse de vários entes para as questões a ela relativas, tais como: as empresas interessadas em acessar patrimônio genético e detentoras de tecnologia, as ONGs que atuam na esfera ambiental, os indígenas, as populações tradicionais, as entidades internacionais, entre outros.
A Convenção sobre Diversidade Biológica trouxe à baila um novo paradigma em relação aos povos indígenas e populações tradicionais, ao considerar que esses grupos estão integrados aos ecossistemas e que, inclusive, contribuem para a conservação e preservação da diversidade biológica. Isso constou expressamente do art. 8, j da CDB quando menciona que:
Em conformidade com sua legislação nacional, respeitar, preservar e manter o conhecimento, inovações e práticas das comunidades locais e populações indígenas com estilo de vida tradicionais relevantes à conservação e à utilização sustentável da diversidade biológica e incentivar sua mais ampla aplicação com a aprovação e a participação dos detentores desse conhecimento, inovações e práticas; e encorajar a repartição equitativa dos benefícios oriundos da utilização desse conhecimento, inovações e práticas;
Apesar de atualmente ainda haver muita controvérsia acerca do uso sustentável dos recursos ambientais pelos povos autóctones e populações tradicionais, existem vários estudos que demonstram que a maior percentagem de diversidade biológica está localiza em Terras Indígenas.
Ana Valéria Araújo cita dados extraídos de pesquisa realizada sobre o tema:
Há diversos estudos que atestam serem os povos indígenas e as populações tradicionais, em grande parte, responsáveis pela diversidade biológica de nossos ecossistemas, produto da interação e do manejo da natureza nos moldes tradicionais. Apenas para que se tenha uma ideia, o seminário “Consulta de Macapá”, realizado em 1999 no âmbito de projeto “Avaliação e Identificação de Ações Prioritárias para a Conservação, Utilização Sustentável e Repartição dos Benefícios da Biodiversidade da Amazônia Brasileira”, concluiu que nada menos do que 40% das áreas de
extrema importância biológica e 36% das de muito alta importância biológica na Amazônia estão inseridas em terras indígenas87.
Porém, se por um lado esse documento reconhece o valor dos conhecimentos, das inovações e das práticas das populações tradicionais relevantes à conservação e a utilização da biodiversidade, por outro, ele incentiva o uso destes saberes mediante uma repartição justa dos benefícios com eles obtidos. Tendo em conta essa relação, a autora Eliane Moreira entende que a Convenção tem um caráter “ambivalente” ao reconhecer a importância dos saberes tradicionais e, concomitantemente, reafirmar o sistema de propriedade intelectual:
É certo, porém, que devemos estar atentos ao caráter “ambivalente” da CDB, nas palavras de Aubertin e Boisvert (1988, p. 17). Essas autoras corretamente alertam para a necessidade de analisar com certa objetividade o contexto da convenção, pois ao tempo em que se propõe a valorizar o trabalho de conservação desempenhado pelos povos tradicionais, ratifica o sistema de propriedade intelectual, ao criar mecanismos para sua expansão
88.
A repartição justa e equitativa dos benefícios conseguidos com a utilização dos conhecimentos tradicionais é um dos três objetivos previstos no artigo 1 da CDB, juntamente com a conservação da biodiversidade e da utilização sustentável dos recursos.
Outro ponto a ser destacado na CDB é o respeito à soberania dos Estados (art. 15, 1 89), pois cabe a eles legislar internamente sobre a repartição de benefícios oriundos do acesso aos recursos genéticos e aos conhecimentos tradicionais das comunidades locais. Neste ponto este documento de direito internacional
87 ARAÚJO, Ana Valéria. Acesso a recursos genéticos e proteção aos conhecimentos tradicionais
associados. In: LIMA, André (org.). O direito para o Brasil socioambiental. São Paulo: Instituto
Socioambiental, Porto Alegre: Sergio Antônio Fabris, 2000. P. 86.
88 Moreira, Eliane. Conhecimento Tradicional e a Proteção. In: T&C Amazônia, Ano V, Número 11,
Junho, 2007. Disponível em:
http://www.fucapi.br/tec/imagens/revistas/completa_revista_tc11_final.pdf, Acesso em 06/04/2012. P. 39.
89
“Em reconhecimento dos direitos soberanos dos Estados sobre seus recursos naturais, a autoridade para determinar o acesso a recursos genéticos pertence aos governos nacionais e está sujeita à legislação nacional.”
estabeleceu objetivos e traçou diretrizes, trazendo noções genéricas que necessitam de regulamentação interna.
Atualmente, a acesso aos recursos genéticos e aos conhecimentos tradicionais associados e o modo como deverá ser feita a repartição dos benefícios foram regulamentados no Brasil pela Medida Provisória n° 2.186-16/2001, atualmente em vigor em decorrência da EC n° 32/2001.
A citada MP é muito criticada por não ter dispensado um tratamento jurídico eficaz à proteção dos recursos genéticos e dos conhecimentos tradicionais associados, especialmente no que tange à proteção dos direitos de propriedade intelectual coletiva dos indígenas e das populações tradicionais sobre esses recursos e conhecimentos. Isso ocorreu porque a MP foi editada às pressas, sem que houvesse qualquer debate no Congresso Nacional e com a sociedade civil90.
À época da edição da MP, estavam em discussão no Congresso Nacional algumas propostas para a regulamentação, por meio de lei federal, do acesso aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais associados, todas essas discussões foram desconsideradas pelo Governo Federal. O primeiro projeto de lei sobre o tema foi apresentado em 1995 pela senadora Marina Silva e recebeu o n° 306/1995, hoje encontra-se arquivado.
O argumento para a edição desta MP foi que a temática precisava urgentemente de regulamentação após a repercussão negativa perante a opinião pública e a indignação de setores do governo, como o Ministério do Meio Ambiente, do contrato de bioprospecção celebrado entre a organização social Bioamazônia91 e
a transnacional da indústria farmacêutica Novartis. Isso fez com que fez o Governo
90 “A MP 2.186, que regulamenta o acesso aos recursos genéticos e ao conhecimento tradicional
associado no país , ignorou pelo menos cinco anos de discussões já havidas no Congresso Nacional e as divergências ainda pendentes sobre temas polêmicos que envolvem o assunto, estabelecendo de modo unilateral e pouco democrático regras de conduta que afetam interesses de amplos setores da sociedade brasileira, desde povos indígenas e populações tradicionais, passando por proprietários rurais, pela comunidade científica, indústrias e empresários do ramo do biotecnologia.” ARAÚJO, Ana Valéria. Acesso a recursos genéticos e proteção aos conhecimentos tradicionais associados. In: LIMA, André (org.). O direito para o Brasil socioambiental. São Paulo: Instituto Socioambiental, Porto Alegre: Sergio Antônio Fabris, 2000. P. 91.
91 A Bioamazônia é uma Organização Social (O.S.) criada nos termos da Lei Federal n° 9.637/1998,
que formalizou um contrato de gestão com o Ministério do Meio Ambiente para colaborar com o PROBEM – Programa Brasileira de Ecologia Molecular para Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia.
Federal o suspendesse e editasse a MP, a qual ficou conhecida como MP da Novartis9293.
Neste contrato de bioprospecção fora acordado que a empresa suíça teria acesso a “cerca de 10 mil microorganismos da Amazônia e a detenção exclusiva das patentes dos eventuais produtos desenvolvidos com base nesses organismos, a Bioamazônia receberia 4 milhões de dólares, em treinamento e transferência de tecnologia” 94.
Deste modo, apesar dessa matéria não ter sido regulamentada por lei, frustrando as discussões no Congresso Nacional e com a sociedade civil, a aplicação da citada MP deve ser feita buscando uma interpretação que efetive e maximize os direitos conferidos aos indígenas e populações tradicionais, com o fito de proteger os conhecimentos tradicionais e também a biodiversidade existente nos territórios ocupados por esses grupos.
92 PEDRO, Antônio Fernando Pinheiro. “Biodiversidade Brasileira e os contratos de Bioprospecção
(O caso Bioamazônia – Novartis)”. Disponível em:
http://pinheiropedro.com.br/site/artigos/biodiversidade-brasileira-e-os-contratos-de-bioprospeccao-o- caso-bioamazonia-novartis/. Acesso em 10/04/2012
93 “Acesso e Repartição de Benefícios (ARB) no Brasil: a nova fórmula jurídica para legalizar a biopirataria.” Disponível em: http://www.socioambiental.org/coptrix/art_02.html. Acesso em: 10/04/2012.
94 BENSUSAN, Nurit. Breve histórico da regulamentação do acesso aos recursos genéticos no Brasil.
In: QUEM CALA CONSENTE? Subsídios para a proteção aos conhecimentos tradicionais. LIMA, André e BENSUSAN, Nurit (org.) Série Documentos do ISA 8. São Paulo: 2003. Disponível em: http://www.socioambiental.org/inst/pub/detalhe_down_html?codigo=70. Acesso em 10/04/2012.