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BRAGANÇA E PROGRAMA POLIS

testemunhos da idade do bronze (1000-700 a.C.), designadamente, castros que terão sido ocupados pela gente Zoelae e uma civitas lusitana oriunda do povo Baniense (MAOT, 2000c). Ocupada por Romanos e demandada por Suevos e Visigodos, Vergancia surge nas actas do Concílio de Lugo no ano de 569, como um dos povoados primários de Bragança, e no ano de 666, denominada de Bregancia.

D. Sancho I está associado à fundação da “cidade”, outorgando-lhe a carta de foral em 1187 – tendo sido arrasada aquando das lutas entre Mouros e Cristãos e novamente refundada em 1130 por D. Fernando Mendes, cunhado de D. Afonso Henriques – facto que terá permitido a reno- vação da carta de foral em 1253 por D. Afonso III e posteriormente por D. Manuel em 1514. No século XV é construída a muralha e é conferido o título de cidade à Vila de Bragança. Nos finais desse século assiste-se ao progresso da cidade, promovido pela chegada de judeus expulsos de Espanha pelos Reis Católicos – circunstância que fomentou o desenvolvimento da urbe através da construção ou remodelação de igrejas, conventos e casas brasonadas, assistindo-se ainda ao florescimento da indústria de produção de sedas.

O século XVIII marca o início do declínio da cidade, com a decadência da indústria e da agricultura, para no século XX se assistir à “(...) ruralidade, estagnação e crescente interio- ridade da região, o que abre caminho ao início da emigração sistemática” (MAOT, 2000c, p. 17) – realidade parcialmente contrariada nos últimos anos.

A cidade cresceu lentamente até aos anos 40, assistindo-se com o Estado Novo a “(...) uma nova racionalidade urbanística que permite um planeamento urbano mais cuidado, bem visível nos arruamentos, jardins e praças deste período” (MAOT, 2000c, p. 18).

A partir de 1974 a cidade cresce bruscamente com os efeitos daí decorrentes, variando entre a ocupação consolidada, zonas de preenchimento e expansão e núcleos urbanos dis- persos de carácter ruralizante, transferindo para o conjunto uma coerência resultante de um crescimento espontâneo “(…) ao ritmo do loteamento privado” (MAOT, 2000c, p. 25) – assistindo-se hoje a uma estabilização urbana, de algum modo regulada pelos vários planos criados desde 1947 – merecendo referência o Plano Director Municipal publicado em 1995, ao qual obedeceram as intervenções do Programa Polis.

Bragança é capital de distrito e sede de concelho, situa-se na região Norte e sub-região do Alto Trás-os-Montes, possuindo actualmente 35 319 habitantes.

A cidade, localizada no nordeste do país, afastada do litoral e dos grandes centros de decisão nacional, tem na sua proximidade à fronteira a vantagem de se poder afirmar “(...) valori- zando as complementaridades com os restantes centros da rede nacional e transfronteiriça e constituindo-se como “centro distribuidor” de relações económicas, culturais e turísticas (...)”

(MAOT, 2000c, p. 21) – complementaridades que não podem deixar de incluir o Instituto Politécnico de Bragança como pólo de conhecimento, promoção e desenvolvimento da cidade.

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“Bragança e a sua área envolvente constituem um enorme património paisagístico, arquitectó- nico, histórico e cultural” (MAOT, 2000c, p. 28). Dos vestígios e manifestações pré-históricas às igrejas, conventos e casas brasonadas, ao castelo e à cidadela, aos moinhos e fornos de pão - testemunhos da ancestralidade de um território milenar que a cultura bragantina não descuidou e que comprova o valor do tempo e das gentes desta região.

Objectos de arte pública, jardins e um rio de nome Fervença, força motriz do passado, per- fazem um cenário que se completa na paisagem periférica rica de diversidade – património que justifica a existência do seu turismo cultural.

Figura 9 - Área de influência do Programa Polis de Bragança FONTE: Plano Estratégico do Programa Polis de Bragança / gCPP

O Programa Polis de Bragança estabeleceu para a cidade um propósito abrangente de in- tervenção que integrou o património histórico, arqueológico, natural e edificado, visando a qualificação do espaço urbano nas suas vertentes física e ambiental – da qual se destacam a renovação da zona histórica, a reintegração do rio na urbe, a diminuição da presença au- tomóvel e o aumento dos espaços pedonais.

Assim, foram definidos os seguintes objectivos:

– “Requalificação e valorização do rio Fervença, com a criação de um contínuo verde envolvendo o rio “Corredor Verde”;

– Recuperação de zonas urbanas desqualificadas, com a constituição de um espaço público de qualidade;

– Redução do tráfego automóvel no centro urbano; – Incremento do espaço pedonal;

– Valorização do património histórico, arqueológico, natural e edificado” (MAOT, 2000, pp. 35-36).

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No quadro do Programa e dos objectivos definidos, fica explícito um conjunto de inter- venções que, pela sua natureza e diversidade, pretendem a melhoria da qualidade urbana, preservando a sua identidade e ampliando a oferta de equipamentos e espaços destinados a oferecer aos cidadãos locais a renovação da dimensão pública e democrática da cidade – traduzindo-se simultaneamente no incremento do seu potencial turístico.

A intencionalidade do Programa em estabelecer e acentuar novas relações espaciais urbanas, com particular destaque para o corredor verde do rio Fervença, que se assume como novo passeio público da cidade, propicia novas formas de entendimento e vivência urbana, donde se infere a humanização dos espaços colectivos e a ânsia de uma certa urbanidade.

5.3.1 Incidências da intervenção Baseados no enquadramento e objectivos do Programa Polis de Bragança, importa referenciar os eixos de intervenção e/ou acções concretizadas total ou parcialmente até Março de 2011, de acordo com informação obtida junto do Gabinete Coordenador do Programa Polis: – Arranjo urbanístico do Corredor Verde do Rio Fervença (1ª fase) – realizado totalmente; – Arranjo urbanístico do Corredor Verde do Rio Fervença (2.ª fase) – realizado totalmente; – Arranjo urbanístico da Zona Histórica – realizado parcialmente;

– Requalificação da Encosta do Castelo, parque de estacionamento e parque de merendas – realizado totalmente;

– Parque de estacionamento do Mercado / Praça Camões – realizado totalmente; – Iluminação cénica da cidadela – realizado totalmente;

162 DESIGN E URBANID ADE :: CumpliCidades do Pr ogr ama P

olis Figura 10 - Simulação da ocupação final dos espaços do Programa Polis de Bragança

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Sequente aos eixos de intervenção e/ou acções referenciadas, e sustentados na informação obtida em diferentes fontes, e fundamentalmente nas recolhas in loco do investigador, enunciam-se, no quadro seguinte, as áreas, elementos e valores de design predominantes nos contextos de intervenção:

Quadro 4

Áreas, elementos e valores de design predominantes no Programa Polis de Bragança

ÁREAS ELEMENTOS E VALORES DE DESIGN

EQUIPAMENTO E ACESSIBILIDADE Mobiliário urbano Iluminação urbana Equipamento lúdico Sinalética Acessibilidades IMAgEM E INOVAÇÃO Imagem Renovação Diversidade Pavimentos Textura(s) Cromatismo Materiais Legibilidade FUNCIONALIDADE E SEgURANÇA Segurança Conforto Ergonomia (Multi)Funcionalidade Integração AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE Resistência Manutenção Higiene urbana Sustentabilidade Ambiente Paisagem Ecologia ESPAÇO PúBLICO E IDENTIDADE

Espaço público Inclusividade Uso e apropriação Responsabilidade social

Os espaços do Programa Polis de Bragança comprovam uma clara participação do design no quadro das áreas referenciadas, sendo possível constatar evidências dos diferentes elementos e valores nas intervenções realizadas em diferentes zonas da cidade – embora se assista pon- tualmente a focos de over design99.

A materialização global da intervenção revela ainda uma dinâmica intra e interdisciplinar na consecução das várias soluções integradas de qualificação e valorização do seu património histórico e natural, tornando a cidade mais coesa física e socialmente.

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5.3.2 Design e Urbanidade – leituras e induções do investigador Bragança é uma cidade que se quer amar.

As envolventes… vizinhas olham as (multifuncional)idades do seu tempo. Jogos… e espelhos de água difundem o simbolismo magro do seu rio pela urbe.

Luminárias de anatomias distintas povoam a noite bragantina. O desenho manifesta-se em novas atitudes urbanas.

A pedra limpa da calçada textura o chão de materiais que envaidecessem a cidade. O discurso ocorre em objectos que anunciam sítios e monumentos.

A timidez do Fervença inunda as margens de uma calma que se senta, contempla, pensa. O conforto faz-se de comportamentos mediados por coisas novas.

O parque infantil apela a brincadeiras (i)reverentes.

Há pavimentos que marcam o passo de quem fica… a mobilidade faz-se de toda a gente. O chão harmoniza a natureza e a artificialidade das coisas.

Materiais e texturas publicam novas cores.

A segurança confia nas margens do rio e nas vias da cidade apeada. Árvores atentas à rota solar protegem a sombra que turva o seu chão.

O silêncio passeia-se pelas veredas que festejam o verde.

Há uma escada que conquista a colina difícil degrau a degrau… num contínuo de novos gestos que se sentam a olhar. No cimo a paisagem é de alívio.

A água brinca sobre o anfiteatro público… a sua música versa a confidência revelada. Ruelas e casas da seda tecem o ritmo de uma história suave… primária.

A escultura à tecedeira emociona-se. Lembra o gesto culto, humano, capaz de fazer feliz o tecido sobre o corpo.

O Fervença (re)conduz as margens que nos conta a cidade antiga… e a vida que a reinventou.

A arqueologia jaz na cidade que dignamente informa do seu passado.

O antigo mercado comunitário legou a alma à cenografia urbana... parece ter falecido no chão… restam paredes com arte dentro. Sob si sepultam-se veículos transitórios. O diálogo urbano é um face-a-face… entre património antigo e o da nossa duração. Objectos… sentam as gentes de Bragança, conduzem-nas, elevam-nas… pelo diverso da

sua cidade. A apropriação é um convite reiterado. Há um bebedouro solitário à espera de sede. O espaço excede-se aqui e ali de objectos teimosos.

O kitsch é ocasional.

Percursos de chão e água trazem à conversa outros temas e recatos. O castelo despede-se à distância acenando com uma bandeira vermelha e verde.

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5.3.3 Apreciação global da intervenção

No âmbito do quadro referencial deste estudo, procede-se à síntese da apreciação global do Programa Polis de Bragança, salientando-se o seguinte:

– A intervenção promoveu um amplo processo de requalificação e valorização do património histórico e natural(izado) da cidade através do aumento da área verde, da criação e/ou reformulação das estruturas viária, pedonal e ciclável, da intervenção sobre o edificado, do condicionamento de trânsito automóvel e da criação de estacionamento, da integração paisagística do Fervença e da recuperação e reconversão das suas margens;

– O design constitui um factor influenciador da qualidade da intervenção, pelos seus con- tributos nas áreas do equipamento e acessibilidade, da imagem e inovação, da funciona- lidade e segurança – aspectos relevantes para a renovação do carácter público dos vários contextos da cidade;

– A identidade da cidade surge reforçada pelo reconhecimento e valorização do seu patrimó- nio material e simbólico e pela redinamização urbana accionada pelos novos e renovados espaços de socialização – potenciadores do desenvolvimento turístico e dos índices de qualidade de vida urbana.

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