3.3 PROGRAMA POLIS – design e urbanidade
3.3.1 Design e processos de (re)qualificação da cidade
Da evolução das cidades retemos a ideia transversal de que as urbes são organismos dinâ- micos dotados de ciclos diferenciados de desenvolvimento e, como tal, disponíveis para nos permitir diferentes interpretações.
Assim, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se as finalidades A cidade evolui ao sabor do tempo e o tempo traz consigo novos desafios. À necessidade de dar novos usos a espaços que se perderam com funcionalidades ultrapassadas, o Polis respondeu com novos horizontes. As cidades ganharam novas funções, novos espaços, novas dinâmicas.” (MAOTDR, 2007d, p. 77).
Dessas mudanças e das sociedades que as determinam, elegemos os seus autores e gestores enquanto participantes proactivos, conciliando espaços e dispondo objectos mediante operações induzidas pelas próprias cidades enquanto referentes, e pelos novos paradigmas funcionais, estéticos e formais suscitados pelo design, que transferem por sua vez para a urbe a possibilidade de novas relações visuais e paisagísticas.
Tais considerandos suscitam a reflexão à volta da evolução brusca das cidades e da necessidade de responder aos desafios que as mesmas suscitam. Ora, de acordo com as recolhas efectua- das, o Programa Polis quis responder àquele repto, denunciando a necessidade de intervir em várias cidades portuguesas tendo em conta os erros urbanísticos cometidos ao longo do tempo, ou pura e simplesmente, responder activamente à inércia de que foram tomadas e que impediram a sua evolução transformadora e a sua aceitação por parte dos seus cidadãos.
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Importa contudo neste âmbito referir Trindade (2002), quando rejeita “(...) a ideia de imaginar o Polis como uma operação de limpeza, medida correctiva de erros ur- banísticos anteriores ou ambição de brancura e asseio das cidades portuguesas. De implosão dos edifícios demasiado altos para uniformização da cércea dominante. De restituição da traça original.”, preferindo antes “(…) aceitar a sobreposição de dissonâncias que concorrem para a construção do espaço urbano como aquilo que, em resumo, estabelece a noção de cidade.” (p. 5).
De acordo com o mesmo autor, o Programa Polis corresponderá a “(...) um novo estrato, de um tempo específico e do modo de pensar que lhe corresponde, acumulado como um novo layer finíssimo – ainda assim decididamente transformador – na história e futuro de cada uma das cidades onde decorre.” (Trindade, 2002, p. 5). Donde se infere a consciencialização de um conjunto de iniciativas qualificadoras de várias cidades, estimulando a mudança, pela implicação de vários intervenientes e disciplinas, nas quais se inclui o design como recurso imprescindível à intervenção em espaço público.
Ainda na linha do raciocínio anterior, no entender do MAOT (2000a) e no âmbito de intervenções do Programa, “Há situações em que a quietude perante o existente é a maior virtude (...). Ao invés de deixar a marca, qual compositor, o arquitecto foi apenas intérprete de uma música já composta.” (MAOTDR, 2007d, p. 59), podendo afirmar-se o mesmo para o designer, em face da presença que determinados elementos protagonizam em con- texto urbano.
Porém, noutros casos, mais complexos procedeu-se a intervenções profundas, alterando panoramas urbanos marcadamente culturais, contudo ironicamente desqualificadores. Essas alterações implicaram a “revogação” de preexistências e a (re)definição de espaços e objectos com recurso a materiais, texturas e cores que introduziram mudanças plásticas substantivas, propiciadoras de soluções de design que, participando na reelaboração da cidade, se repercu- tiram também na literacia interpretativa das urbes por parte dos seus próprios utilizadores. As dinâmicas promovidas pelo Programa Polis pretenderam ainda o aumento de zonas verdes e a afirmação de pólos de atracção e vitalidade urbanas – congregando essas intenções um conjunto de iniciativas projectuais e materiais que, através de soluções de design, preten- deram gerar uma nova cultura de transformação urbana, com objectivos muito precisos de reelaboração, inovação e renovação das suas funções e da imagem da própria cidade. No caso específico da problemática que subjaz a este estudo, importa referir que para além da importância da discussão genérica à volta do estatuto e participação do design na rea- lização dos casos Polis, não pode negligenciar-se o interesse das suas escalas de incidência micro, meso ou macro nas diversas intervenções, assim como a lógica e a visão que aceitam a singularidade e a pluralidade dos seus contributos na estruturação da globalidade. Será com base nessa premissa que é importante sublinhar os contributos diferenciadores do design na realização da cidade, a partir de processos que levam ao seu (re)desenho contextual, o qual advém da significância de cada objecto per se e da sua pluralização. Serão processos que, sustentados numa lógica projectual fundamentada, deverão dar lugar à qualificação
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detalhada das cidades, dado que é a partir da participação de cada solução que a cidade se compõe e se completa nas suas diferentes escalas.
Em termos prospectivos estaremos a falar de soluções efectivas de design cujos atributos são determinantes para o redesenho coerente e solidário da cidade, designadamente, nos contextos do Programa Polis, entre outras razões, pela consciencialização da “(…) falta de qualidade do espaço público, entendida ao nível das infraestruturas, do desenho (...)”
(MAOTDR, 2007a, p. 63).
Em face dos problemas detectados, foram gizadas várias soluções que contemplaram a requalificação de espaços emblemáticos, designadamente, de parques históricos que, apre- sentando sinais evidentes de abandono e degradação, foram objecto de valorização através da incorporação de soluções de design.
Soluções que, não se limitando à reconfiguração global do seu desenho, introduziram novas texturas de pavimento, novos cromatismos, novos equipamentos e objectos, que em respeito pelas preexistências, suscitaram diálogos entre o passado e o presente – estratégia similar adoptada para espaços adjacentes a monumentos classificados, em processos de valorização e dignificação mútuos.
Nos processos de reconversão e reabilitação de zonas urbanas degradadas foram ainda pro- jectadas soluções que refuncionalizaram espaços e qualificaram envolventes, introduzindo soluções consentâneas com as suas especificidades, nas quais o design foi convocado e par- ticipou com soluções técnicas, estéticas e de inclusão social.
As frentes de rio e de mar constituíram outra das áreas em que o Programa Polis foi particularmente incisivo e revelou capacidade de transformação dessas linhas de forte presença ecológica e urbana, apostando em soluções de design ao nível dos percursos pedonais e cicláveis, mobiliário urbano, sistemas de iluminação e elementos verdes de enquadramento, entre outras soluções que decorreram “(...) da necessidade de equilibrar a fruição quotidiana destes espaços e a aposta em estruturas diferenciadas que promovam a atracção de públicos mais exigentes” (MAOT, 2000g, p. 27), proporcionando-se assim a fruição desses contextos.
No âmbito das relações entre o peão e o automóvel assistia-se em múltiplos casos “(...) a uma utilização desregrada do automóvel que estava em conflito permanente com os peões (…)” MAOTDR, 2007a, p. 63), tendo sido condicionado em várias situações urbanas o acesso de veículos, alteradas lógicas de circulação, assim como, ampliados os passeios, nos quais foi proposta a instalação de sinalética e elementos impeditivos do estacionamento. Outras acções e intenções foram cumpridas em espaços abandonados com forte presença na paisagem urbana, para os quais foi defendida a presença do design de forma muito ex- pressiva, com recurso a decisões que incorporaram em muitos casos soluções produzidas no país, e projectadas por técnicos reconhecidos pela qualidade do seu percurso profissional, conforme enfatiza Correia (2002): “Apostou-se simultaneamente na funcionalidade e na estética da obra, envolvendo nomes que dispensam apresentações.” (p. 3).
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3.3.2 Design e (re)integração patrimonial