2.2 DESIGN E IDENTIDADE – uso e apropriação da cidade
2.3.1 Design e interdisciplinaridade em espaço público
As afinidades sistémicas a que se assiste actualmente nos diferentes campos científicos, tec- nológicos e artísticos apontam para um universo de natureza inter, multi e transdisciplinar que, conforme Patrocínio (2002), gerou uma civilização tecno-lógica promotora de mudanças em múltiplos domínios, o que accionou diferentes índices de relação e interdependência entre as várias áreas do saber e do fazer, e provocou alterações profundas nas sociedades das últimas décadas.
Como tal, e de acordo com Brandão (2005), não é viável uma qualquer clarificação disciplinar sobre a cidade sem o contributo de outras visões ou de outros campos de conhecimento – a Literatura, a História, a Geografia, a Antropologia e as tradicionais disciplinas do Desenho. A valia dessas interacções, metodologicamente situadas para além da intenção focada sobre um determinado objecto específico, vem exigindo um processamento investigativo condu- cente à reflexão, à especulação e à probabilidade de outras vias alternativas de pensamento. Consiste numa estratégia viabilizadora da (re)conceptualização e concretização de objectos, por sua vez dependentes de outras variáveis, também elas de natureza interdisciplinar, como sejam os materiais, a contextualização ou os seus potenciais destinatários – factores que im- plicam a convocação de múltiplas áreas do conhecimento, sem o que, o risco de insucesso será muito expressivo, ou seja, a probabilidade da não-solução seria muito significativa. Recusando a ideia de uma interdisciplinaridade convertida em “(…) mercado onde se trocam e vendem disciplinas, transformadas em bens de consumo.” (Moura, 2008, p. 55), conside- ramos antes o potencial técnico e científico que as estratégias interdisciplinares incorporam em si e nas quais o design se inscreve.
57 Currículo oculto, diverso do currículo explícito, aqui entendido enquanto processo subjectivo, informal, e contributo implícito de espaços e objectos para a aquisição de saberes, atitudes e comportamentos qualificadores das relações com a cidade.
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A garantia de sucesso muito dependerá da definição prévia de objectivos, mas sobretudo da aceitação do interdiscurso crítico dos vários agentes, decorrente da apreciação prévia do potencial que cada possível solução pode incorporar e daí decidir sobre as vias a seguir, tendo em vista o objecto final. O que, no contexto da cidade, território interdisciplinar por excelência, compromete particularmente as dimensões da ética e da responsabilidade social em face da sua tendencial componente pública.
Ora, no campo das redes interdisciplinares em que se situa o design, a validação dos seus projectos e a sua consequência devem resultar da efectiva cooperação entre técnica e tec- nologia estribada na ciência, mas também nas artes, não podendo excluir-se igualmente os contributos das ciências sociais, para uma compreensão sustentada das realidades sócio- -culturais incluídas nos espaços e tempos de acção do designer.
Trata-se obviamente de uma estratégia escrutinadora das problemáticas ou especificidades de cada contexto sócio-geográfico, com vista a perceberem-se os itinerários sócio-compor- tamentais na relação com os espaços e os objectos em contexto público, aduzidos pelos contributos científicos que a antropologia e a sociologia podem facultar.
Neste quadro, merece particular referência o contributo das artes na concepção de soluções de design, não só pela desejável interdependência já antes enunciada, mas sobretudo pelo pendor poético, simbólico e tantas vezes utópico que potencia a criação ou reinterpretação de soluções que, habitando o universo público das relações sociais, tornam mais rica e for- mativa essa relação.
Desta relação interdisciplinar, cujo interesse final reside no desenvolvimento de soluções de design que constituem respostas a perguntas do espaço público, assistiremos à intensificação das suas afinidades. Estratégia fundamental não só para a definição de prioridades e para o desenvolvimento de soluções técnica e esteticamente fiáveis, mas simultaneamente, para a aceitação e reconhecimento crescentes do design enquanto disciplina também ela social e socializadora.
A esta ideia associamos a perspectiva definidora da relação entre interdisciplinaridade, design e espaço urbano, sustentada por Brandão (2004), quando defende que a interdisciplina- ridade legitimadora do design urbano58, “(…) ao contrário da especialização, decorre da
interactividade entre as práticas, profissionais e não-profissionais, e dos interesses e actores que “dão forma” à cidade.” (p. 113)59.
Do amplo espectro de sinergias inter e transdisciplinares em que pontua o design, importa reflectir também sobre a intradisciplinaridade do próprio design, que transita entre o pro- duto e os ambientes, passando pela comunicação, entre outros domínios nos quais o design
58 O autor assume, por simplificação, o Design Urbano como uma dimensão do desenho urbano, atribuindo- -lhe traços próprios e afasta-o da lógica tradicional de planeamento urbanístico, já que o define como desígnio e desenho, como processo e projecto.
59 Conforme refere o mesmo autor (2005), entre os profissionais há que considerar o arquitecto, o artista, o paisagista, o designer, o engenheiro civil ou de infra-estruturas, os planeadores, o geógrafo, e os diversos profis- sionais das ciências humanas, desde o sociólogo ao historiador - mas também as as organizações que suportam diferentes equipes profissionais.
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tem vindo a adensar o seu papel influenciador na forma como as pessoas reelaboram os seus actos em sociedade.
A constatação de níveis de disciplinaridade internos ao próprio design remete, por sua vez, para a necessidade da promoção de interacções mais consistentes, geradoras de uma cultura interna de relação e articulação orientada para a produção de soluções fiáveis e coerentes com as novas tendências estético-funcionais, tradutoras de especificidades que concorrem, por seu lado, para um design cujo potencial comunicativo seja objectivo e subjectivamente mais rico.
Esta aspiração que vem sublinhar a necessidade elementar de se atentar sobre os níveis de poder comunicante gerado a partir dos próprios objectos de design em espaço público, assume-se por si como discurso, sem que isso se traduza objectivamente no recurso à co- municação codificada – ou seja, o objecto comunica-se per se60, manifestando a sua função ou atributo, numa atitude natural de diálogo assertivo e directo com o contexto e com o utilizador.
É uma preocupação que deve dar lugar à investigação regular junto dos públicos-alvo, a fim de se perceberem os níveis de aceitação das várias soluções de design, que em primeira análise constituirão indicadores importantes para aferir da qualidade das soluções implementadas.
Preocupação que encontra eco nas palavras de Rui Duarte (2008), quando refere que
“(...) redesenhar a cidade pressupõe um domínio crítico com vários níveis de comple- xidade e competências disciplinares, que vão muito para além das formas, consubs- tanciando o domínio de todos os acontecimentos, enquadrando os espaços de vivên- cia com as profundas leituras e apropriações intercontextuais dos lugares.” (p. 26). A interdisciplinaridade em design passa inevitavelmente por uma cultura de projecto que concilie um conjunto diverso de factores, assumidos como referentes essenciais na fase de conceptualização e no desenvolvimento de soluções que incorporem valor, resultante da diferenciação, da inovação ou da criação aplicadas aos objectos e aos espaços das ci- dades, que por sua vez não podem estar excluídos da reinvenção de novas formas de agir profissionalmente.
O projecto de design em espaço público, tendente a perseguir os desígnios da qualidade, terá obviamente que resultar de processos que incluem estudos aprofundados sobre os con- textos a intervencionar. O que quer dizer que o projecto não pode isolar as partes do todo, mas responder de forma integradora às necessidades e especificidades contextuais, pois, de acordo com Vieira (1995), o projecto enquanto desejo “(...) inscreve-se na possibilidade do domínio não só sobre a matéria, (...), como sobre a propriedade dos bens, o seu usufruto e, acima de tudo, o seu efeito sobre a vida dos outros.” (p. 54).
Como tal, para a promoção de uma relação interdisciplinar responsável que recrie novas soluções, ajustadas às necessidades das populações e às realidades sócio-espaciais em mudança, o que reforça a ideia de que o objecto desligado da sua efectiva razão de ser não constitui condição bastante para a sua legitimação. Antes pelo contrário, para se afirmar enquanto
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objecto de design, deve responder no quadro das suas atribuições estéticas e funcionais de uso público – ou seja, trata-se de um design interdisciplinar cujos princípios se revêem no bem social, desígnio que permitirá identificá-lo com os interesses das populações, e no limite como pertença da alma colectiva.
Estamos perante considerandos relevantes para a prática do design, logo, para os níveis de exigência que os profissionais devem assumir como referência e estratégia facilitadora para a geração de soluções integradoras, contrariando uma cultura orientada para um design elitista, condicionador da possibilidade de se privilegiarem soluções inclusivas, promotoras da socialização do espaço público como garantia da preservação e do direito à dignidade da vida em sociedade – convicções que situam a importância das relações interdisciplinares no centro das problemáticas urbanas.
2.3.2 Ética e responsabilidade do design(er)