3 REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E TERCEIRIZAÇÃO NA INDUSTRIA
4.1 BREVE ANÁLISE DO DESENVOLVIMENTO E CRISE DO SINDICALISMO
Indústrias e Empresas Petroquímicas, Químicas, Plásticas e Afins da Bahia – SINDIQUIMICA em face do processo de terceirização. Serão apresentados, com base na pesquisa realizada nos periódicos do sindicato (1990-2005), o posicionamento sindical com relação ao processo de terceirização. Neste sentido, o presente capítulo irá contemplar as mudanças no tempo do pensamento sindical a respeito da terceirização; os impasses, desafios e práticas que o movimento sindical tem enfrentado em função do avanço da terceirização e, por último, será analisada a experiência de unificação do sindicato.
4.1 BREVE ANÁLISE DO DESENVOLVIMENTO E CRISE DO SINDICALISMO BRASILEIRO
De acordo com Antunes (1985) a origem do sindicalismo no Brasil remonta do início do século XX, no entanto, é com a entrada de Vargas no poder em 1930 que inicia-se uma nova fase do sindicalismo brasileiro. Nessa época, surge a figura do sindicato pelego/ assistencialista usado pelo Estado para controlar a classe trabalhadora. Ou seja, o estado varguista promoveu uma política de conciliação entre capital e trabalho, trazendo o movimento sindical para dentro do aparelho do Estado. Os sindicatos estavam sujeitos à interferência do governo, a lei limitava o tamanho da diretoria do sindicato e para existir, o sindicato precisava de uma autorização formal do Ministério do Trabalho com a Carta Sindical.
Ainda de acordo com o autor, os sindicatos podiam organizar e representar trabalhadores pertencentes a uma categoria profissional ou por setor econômico, tendo como referência geográfica mínima o município. A lei concedeu aos sindicatos a exclusividade de representação, conhecida como unicidade sindical, onde apenas um sindicato reconhecido por lei tem o direito de representar determinada categoria profissional no município, e criou o imposto sindical, que se refere a um pagamento compulsório descontado em folha de pagamento de todos os trabalhadores da categoria, mesmo os que não são sócios do sindicato. A legislação também proibia, até 1988, a existência das centrais sindicais.
A partir de 1978 o sindicalismo brasileiro passa por uma fase de renovação. Na visão de ALVES (2000), esta data é extremamente significativa na medida em que temos o ressurgimento do movimento sindical no país, na luta pela resistência operária à superexploração da força de trabalho. As greves de 1978/79, no ABC paulista, marcaram este ressurgimento, na medida em que foi a primeira grande manifestação de descontentamento e insatisfação dos trabalhadores em relação aos baixos salários e a ditadura imposta pelo Regime Militar.
A partir de 1978, o cenário político e social é rico em experiências de organização e luta da classe trabalhadora no Brasil, numa perspectiva de unidade e luta contra o governo e contra os patrões. É uma luta salarial, de caráter generalizante, que envolve uma série de categorias assalariadas. Surge uma série de fóruns intersindicais (...). É possível salientar ainda uma série de eventos de greves gerais e de greves por categorias, e ainda greves por empresas, que atingem as mais diversas expressões da classe trabalhadora e uma série de manifestações que indicam, no decorrer dos anos 80, o espírito de luta e resistência operária e popular, de um Brasil que clamava por democracia política e social. Era uma “explosão do sindicalismo”, ou ainda, de um “novo sindicalismo”... (ALVES, 2000, p. 112)
Desta forma, observou-se no país, durante toda a década de 80 uma ação sindical combativa e de confronto, sendo também neste período que nasce a Central Única dos Trabalhadores (CUT), “uma das centrais mais duradouras e talvez com maior capacidade de mobilização da história do sindicalismo brasileiro” (ALVES, 2000).
Em 1988 a Nova Constituição Federal amplia direitos trabalhistas, prevê direito à greve, consagra o princípio de liberdade sindical, sem tutela estatal e permite a criação das centrais sindicais, mas mantém o imposto sindical obrigatório. Os trabalhadores empregados formalmente são representados por algum sindicato que, pelo menos uma vez por ano, participam de negociações coletivas com o sindicato patronal e, os resultados destas negociações são automaticamente estendidos a todos os trabalhadores da categoria, não importando se o trabalhador é associado ou não ao sindicato da categoria.
Amadeo e Camargo (1996, p.70) enfatizam que “um ponto importante deste “novo sindicalismo” é que, ao contrário do antigo vínculo entre líderes sindicais e o governo, da ausência de organização no nível da fábrica e da pouca importância atribuída aos problemas cotidianos dos trabalhadores, neste é adotada uma estratégia para organizar os trabalhadores no nível da fábrica”.
Ou seja, durante os anos 80, no Brasil, a forte presença sindical nas fábricas garantia um poder de barganha importante aos representantes sindicais. Contudo, a partir de meados dos anos 90 isso começou a se modificar. As políticas neoliberais implementadas no país aliadas à reestruturação produtiva levaram à redução dos postos de trabalho, acarretando uma diminuição do nível de emprego nos setores econômicos onde havia uma maior penetração do chamado "novo sindicalismo".
Apesar do número de greves continuarem elevados, as mobilizações passam a efetivar a nível da empresa e não com paralisações de toda a categoria. Percebe-se que as mudanças pelas quais vem passando a economia brasileira nos últimos anos, com a reestruturação das empresas e os elevados índices de desemprego, tiveram reflexos no comportamento do movimento sindical do país, levando-o a alterar suas formas de pressão com vistas a conquistar melhores condições de vida e trabalho.
Observa-se que as reivindicações de hoje não são as mesmas de alguns anos atrás. Os sindicatos não lutam mais por campanha salarial, mas campanha reivindicatória. Isso porque a reposição salarial não é mais ítem principal da pauta em virtude, principalmente, da estabilidade inflacionária, o centro das negociações passa a não ser apenas a questão salarial, mas entram em pauta outras formas de remuneração como a PLR (Participação de Lucros e Resultados) e os ganhos com produtividade. Por outro lado, os trabalhadores estão sendo contratados sob condições precárias: sem carteira, jornadas extensas. As empresas buscam uma reestruturação e a terceirização provoca a diminuição da base sindical. (DIEESE, 2000)
De acordo com dados do boletim DIEESE 2000 as estatísticas sobre as greves constituem-se em bom exemplo destas modificações. Os dados sobre as paralisações realizadas durante a década de 90 apontam um redireciomento da ação sindical, tanto no que se refere às reivindicações apresentadas pelos trabalhadores quanto às estratégias de mobilização. Essas mudanças consolidaram-se a partir de 1994, com a introdução do Plano Real, e são conseqüências, fundamentalmente, de dois fatores: a redução dos patamares inflacionários e a elevação das taxas de desemprego. (DIEESE, 2000, p.1)
Motivos das Greves 1993 1994 1995 1996 1997
Remuneração 61,5 76,8 49,3 40,1 32,4
Direito 23,7 18,6 36,8 42,2 43,0
Emprego 11,6 9,7 10,2 9,8 14,4
PLR (Participação de Lucros e Resultados) n/d n/d 9,2 17,7 15,1 Condições de trabalho 11,8 8,6 9,6 9,8 11,6
Sindical 5,4 8,2 7,4 2,8 4,5
Protesto contra medidas do governo 6,3 2,9 4,4 0,7 3,2
Jornada 3,4 3,3 4,5 11,5 7,6
Fonte: DIEESE, 2000
Distribuição das reivindicações no Brasil (1993-1997)
Ainda de acordo com DIEESE (2000), o período pós 94 marcou uma mudança nas motivações das greves. As reivindicações sobre remuneração, apesar de ainda manterem grande importância, deixaram de ser a principal causa das greves, que passou a ser o descumprimento de obrigações trabalhistas por parte do empresariado.
Sendo assim, o sindicalismo da década de 90 no Brasil, apesar de chegar nesta década como um ator político reconhecido pelo Estado e pelo empresariado, tende a não demonstrar a mesma vitalidade política da década de 80. Os sindicatos vão perdendo o potencial para unificar e representar os trabalhadores mantendo uma postura defensiva ao buscar apenas manter os direitos conquistados ao longo da década de 80.
Essas transformações têm fortes impactos sobre os trabalhadores e os sindicatos, levando a uma precarização e um enfraquecimento da ação coletiva, pulverizando o poder sindical e colocando os sindicatos numa posição defensiva. É o que se evidencia com o Sindicato dos Petroquímicos, considerado a vanguarda do movimento sindical de Salvador, que se tornou a referência para as demais categorias profissionais em toda a década de 80. No decorrer da década de 90, e ainda hoje, verifica-se uma verdadeira “migração” de trabalhadores – ex- petroquímicos – para outras categorias, principalmente de serviços industriais e da construção civil, cujos sindicatos são mais frágeis. (DRUCK, 1999b)
Esta postura defensiva dos sindicatos está ancorada na incapacidade estratégica do sindicalismo brasileiro em adotar uma postura de confronto diante da nova ofensiva do
capital, que se caracteriza pelo enfraquecimento do coletivo do trabalho organizado, principalmente através do desemprego e da terceirização. (ALVES, 2000)
A crise do sindicalismo deu-se em escala mundial. Enquanto no Brasil esta crise se faz presente a partir da década de 90, os países centrais já estavam enfrentando este fato desde a década de 80. Antunes (1995, p. 59) ao buscar analisar a crise dos sindicatos, identifica nos ítens seguintes os contornos e dimensões desta crise: 1. uma nítida tendência de diminuição das taxas de sindicalização; 2. um abismo que se amplia entre os trabalhadores "estáveis", de um lado, e os trabalhadores vinculados ao trabalho precarizado, de outro, o que enfraquece o poder sindical ; 3. avanços na organização sindical dos assalariados médios; 4. intensificação da tendência neocorporativa, que procura preservar os interesses do operariado estável, vinculado ao sindicato, contra os segmentos que compreendem o trabalho precarizado; 5. fragmentação e heterogeneização dos trabalhadores afetando as ações grevistas e 6. em razão dos itens anteriores, obstaculizam-se as possibilidades de desenvolvimento e consolidação de uma consciência de classe dos trabalhadores.
4.2 DESAFIOS DA DÉCADA DE 90: O DEBATE E A AÇÃO SINDICAL EM TORNO DA