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3. Historicização – Litoral Norte e as duas comunidades

3.2. As comunidades

3.2.3. Breve discussão sobre o contexto apresentado

Primeiramente, constata-se que ambas as comunidades possuem histórias diferentes e, consequentemente, delineamentos de perfis distintos. No que concerne às fontes de rendas atuais, acredito que as dessemelhanças se sucedam, principalmente, em função do tempo diferenciado da “chegada do progresso”. Na Vila, a energia chegou antes do parque e antes da estrada. Já no Cambury, as melhorias na estrada se deram em 2004 e a energia chegou em 2005. A existência da luz há apenas dez anos coloca, para quem observa de fora (no caso a presente pesquisadora), uma forte presença de características ligadas aos tempos “mais antigos” nas relações, na produção e na subsistência. Também, antes da melhoria das condições da estrada, era inviabilizada tanto a entrada de ônibus urbano dentro do bairro, como a mobilização desses moradores. “Depois disso [chegada da estrada e da luz] muita coisa melhorou” (EA, 09/2014).

Indico com isto que, devido a estes elementos, as questões estabelecidas como comunidade tradicional103, se mostram mais intensas neste último bairro. Como, por exemplo, nas frequentes falas de moradores da faixa etária de 30-40 anos, sobre o que comiam antigamente, plantas medicinais e seus múltiplos usos, o cará, a mandioca, inhame, farinha de mandioca, comidas com café de cana, roça e a ligação com a terra. Esta geração viveu tais costumes, pois não “tinham essas coisas como tem hoje” (EA, 09/2014). Uma das moradoras desta comunidade, com 33 anos comentou: “Agora que as crianças querem bolacha, mas antes não tinha isso não. A gente comia no café da manhã, cará e mandioca com café. A farinha era feita aqui mesmo, nas casas de farinha. Não tinha remédio. Eu mesma, até hoje uso as plantas, o lagarto, a galinha (...)” (DC, 05/2015). Desta forma, a tradicionalidade e os costumes antigos que são, normalmente, associados à mesma104, mostram-se de maneira mais vívida nesta última comunidade. Na Vila, as lembranças sobre os mesmos hábitos são recorrentes nos relatos dos mais velhos, na faixa dos 60, 70 e 80 anos. Isto posto, ao considerar as transformações no modo de vida caiçara

103 Aqui, seria a ideia de uma comunidade tradicional mais próxima aos usos antigos como a caça, agricultura e lembranças dos tempos antigos, como colocado pela política de tradicionalidade do PESM/NP. É importante mencionar que no próximo capítulo será apresentada a ideia de ressignificação da cultura tradicional onde estes elementos antigos se permutam com os contemporâneos, conectando esses moradores à conjuntura atual da qual fazem parte.

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Simbolizados, por exemplo, pelas receitas, recordações sobre a caça, plantações, ligação com a terra, pesca artesanal, artesanatos, construção de canoas, bem como contos e histórias sobre os tempos antigos.

associadas às três variáveis apresentadas neste trabalho, percebe-se que os aproximados 30 anos que perpassam a diferença no tempo da “chegada do progresso”, nas duas comunidades, contribui para o desenho de seus perfis dessemelhantes.

Outro aspecto que pode ser elencado refere-se ao perfil turístico observado em ambas. Este apresenta, devido aos mesmos elementos colocados acima, contornos distintos. Por não possuírem energia elétrica até 2005, uma moradora nativa do Cambury comentou que “não conseguiam bombar na temporada com o turismo” (DC, 05/2015), pois não possuíam estrutura, como freezers para conservação de peixes e outros alimentos, banho quente para os turistas e a própria iluminação para a oferta de uma estadia agradável. A Vila contava com este fator e com a presença de veranistas, desde a década de 1970. Estes são compostos por características comuns aos grupos sociais mais abastados, questão tal que pode ser evidenciada pela presença de casas de veraneio de figuras públicas como o ex- senador do estado de São Paulo, Eduardo Suplicy e o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Neste bairro, o turismo iniciou-se, portanto, com delineamentos de uma atividade de luxo – demonstrado pela presença da pousada, recepção de turistas estrangeiros e existência de casas de veraneio que, em alta temporada, realizam aluguéis com alto valor –, carregando tal perfil até os dias atuais.

De acordo com o depoimento de um dos moradores citado na descrição da Vila no tópico 2.2.1, como os veranistas cobravam, e ainda cobram, preços altos em suas moradias, recentemente os residentes da comunidade estão aumentando suas casas e estruturando-as, para o aluguel com preços concorrenciais. Na época forte do turismo, alugam por R$ 5.000/7.000 a casa, para a estadia de sete a dez dias, quando não um valor mais elevado. Os poucos comércios também funcionam neste período, bem como o mercadinho, um bar aberto recentemente, o restaurante da beira mar e as barraquinhas perto da escola. No Cambury, o aluguel das moradias é exceção. Existem campings para a pernoite, sendo o preço pago por pessoa, o que não passa de R$30,00. Contam com cachoeiras e praias para visitação dos turistas, algumas barraquinhas na beira-mar e restaurantes caiçaras. A venda de artesanatos também é realizada nesta época.

Percebe-se, então, que o turismo, nesta última comunidade, tem crescido a cada ano, adaptando-se às novas condições de estrutura do bairro. Presencia-se, atualmente, ações que apontam no sentido da tradicionalidade mercantilizada105, como a abertura de um espaço para recepção dos turistas. Estes poderão visitar as cachoeiras e praias do bairro guiados pelos monitores locais e conhecer as estruturas, consideradas tradicionais, da comunidade como o café de cana caiçara, a casa de farinha e aprender sobre a história e lendas da região com as palestras dos moradores mais velhos. Embora grande parcela trabalhe na construção civil no inverno, durante o verão, muitos buscam suas rendas nas imediações do bairro, mediadas por esta atividade permeada, em grande medida, pela tradicionalidade. Na Vila, atividades no sentido da venda dos elementos caiçaras, ou tradicionais, aparecem com uma frequência menor. E isto não se dá em função da não existência daquilo que é definido dentro da tradicionalidade, pois este termo, assim como a cultura, não é estático e está em constante ressignificação, mas sim devido ao seu histórico já antigo em relação ao turismo de luxo que, de certa forma, traz elementos diferenciados para esse processo.

Um último ponto importante a ser destacado é sobre a relação desses moradores com o parque. Mesmo que de maneira representativamente diferente do que em tempos antigos, ambas as comunidades vivem, ainda, restrições impostas pela UC. A atuação da Associação do Bairro, as três invasões realizadas pelo Cambury à sede do NP, a resistência da Vila nos processos de negociação sobre os tipos de zoneamento especiais, dentre outras ações de resistência local, bem como as tentativas de abertura à participação iniciadas pela gestão, contribuíram para o avanço em algumas questões, muito embora o lado obscuro de que podem ser expulsos a qualquer momento ainda exista.

O PEMS/NP representa, diante deste cenário, um elemento de controle para estas populações. No entanto, na realidade de periferia urbana em que se encontram, o mesmo se apresenta como mais um instrumento regulador, somado a inúmeros outros, tanto ambientais, como urbanos: polícia florestal de instância estadual, a polícia ambiental e marinha – federal –, a polícia militar do Estado, a APA Marinha também estadual, dentre outros. Todos representam de acordo com categorias locais “os homens”, “os bacanas”, que fiscalizam suas ações e

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ilegalidades. O parque fiscaliza se caçaram, plantaram ou se construíram em local proibido. A polícia militar, se realizam tráfico de drogas. A marinha, como realizam a pesca. O IBAMA, como não devem realizar a pesca e assim por diante. Ao evidenciar tais elementos, não intento incorrer à ideia simplista de que estas vigilâncias são oriundas de um processo de vitimização dos moradores.

Ao focar a atenção deste trabalho na autonomia dos mesmos pretendo, justamente, argumentar contra este pensamento ao mostrar suas ações e agências. No entanto, é imprescindível apontar a multiplicidade de relações que estão colocadas nestes bairros, bem como as inúmeras restrições que as mesmas representam. Por conseguinte, pode-se considerar que existam alguns eixos de conflitos presentes nos dois bairros, os quais cerceiam os seguintes atores: moradores; veranistas; gestores e outros funcionários do PESM/NP, PNSB e APA Marinha do Litoral Norte; polícia ambiental; marinha; prefeitura, vereadores, secretarias municipais, alguns ministérios como MPF e MPE106; ITESP; polícia militar; membros de organizações não governamentais; pesquisadores; dentre outros.

Desta forma, é como consequência aos conflitos emergidos nestas interações, considerados dentro da perspectiva de transformações (SIMMEL, 2006; GLUCKMAN, 1987) que os moradores desses dois bairros dispõem os traços do processo, que tenho buscado apreender, de busca por autonomia. À vista disso, o parque e o “meio ambiente”, neste contexto, são mais um meio de controle destas populações que estão, também, em uma realidade de periferia urbana. Ao apontar as transformações destas comunidades mediadas, principalmente, pelos agentes parque, luz e estrada, busquei demonstrar a multiplicidade de suas reivindicações dentro da conjuntura atual, as quais parecem descentralizar o foco da relação com o parque. Decerto, ao colocar tais questões não retiro a importância de continuidade das discussões sobre as políticas de gestão e o futuro destas populações em seus territórios de origem. No entanto, para conseguir pensar, neste trabalho, sobre suas realidades, meios de vida atuais e sobre autonomias, foi necessário abranger a discussão e a observação para além da questão com a UC.

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Destarte, ao olhar para os eixos de conflitos apontados acima e as relações delineadas, busco destacar a agência de sujeitos sociais que muitas vezes são vistos como dependentes da assistência do Estado ou de outros setores. Não julgo a ocorrência e, também, a relevância das políticas que atuam diretamente nas duas comunidades. Contudo, intento sublinhar alguns traços de ações destes moradores que possam demonstrá-los em suas realidades de vida dentro do processo de busca por autonomia.

4. Estratégias que apontam para processo de busca por autonomia