2. A MOEDA INTERNACIONAL, UMA ABORDAGEM SOCIOECONÔMICA E
2.4 Dinheiro, Estado e Sistema Social
2.4.1.2 Bruno Latour
Criada e desenvolvida na década de 1980 por Bruno Latour, Michel Callon e Madelaine Akrich (pesquisadores ligados ao Centro de Sociologia e de Inovação da
École Nationale Supérieure des Mines de Paris), entre outros pesquisadores de diversas áreas,
a Teoria Ator-Rede foi formatada a partir da investigação das práticas cotidianas a envolver ciência, tecnologia e sociedade. Seus objetos de estudos são as conjunções entre os seres humanos e não humanos que configuram uma inextricável rede, a qual se fragmenta em
microconexões e desconexões, de modo que já não se pode mais pensar em unidades isoladas, mas em processos dinâmicos de associações.
No sentido mais genérico, uma rede pode ser pensada como um espaço plasmado por infindáveis e dinâmicas conexões (ondas) que colapsam (no sentido de sedimentação) ou se bifurcam (no sentido de ramificar) em “nós”, compondo uma totalidade aberta, crescentemente se ramificando para todos os lados e direções (rizoma) através de associações de elementos heterogêneos compostos por seres humanos e não humanos.
A Teoria Ator-Rede nos ajuda a pensar a erística monetária como derivada de um conjunto de “caixas cinzas”, ou seja, um conglomerado de pessoas, coisas e instituições movido por intermináveis controvérsias que formam – em seu estado de turbulências e instabilidades, expresso nas posições dos “grupos” e “contragrupos” litigantes, cada qual defendendo suas argumentações na fronteira das ligações que caracterizam os “nós”, ou “caixas pretas” –, qual um sistema dinâmico, a grande rede. No nosso caso, o sistema financeiro e monetário internacional com sua correspondente moeda de reserva mundial, o dólar americano.
O dinheiro funciona como um agenciador (mediador) não humano (actante) que, em seu desempenho, frequentemente utiliza mecanismos tácitos de tirania e opressão ao tecer a grande rede, plasmada por infindáveis associações que, em sua dinâmica, induzem os atores humanos (pessoas, que são também actantes) a agirem (produzirem coisas, tomarem decisões, mudarem de posição ou alterarem comportamentos) de tal maneira que, muitas vezes, nem têm consciência do que estão fazendo.
Antes de prosseguirmos com as análises de algumas das categorias da Teoria Ator- Rede e de como podemos, através delas, emplacar uma reflexão complementar sobre a erística monetária – em conexão com a crise do sistema financeiro e monetário internacional e a emersão dos debates sobre a tese keynesiana de criação de uma moeda internacional –, vamos fazer uma breve exposição dessa teoria, analisando algumas passagens de uma das principais obras de Bruno Latour: Reagregando o social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede, publicada em 2012.
Latour (2012), logo na introdução da obra supracitada, faz uma provocante reflexão sobre as “ciências sociais”, inicialmente tencionando e problematizando seus conceitos e seus elementos constitutivos, pondo em foco, já de partida, ambos os termos: “ciência” e “social” (respectivamente, sujeito e adjetivo). Quando os “sociólogos do social” colocam, como uma espécie de adesivo, o adjetivo “social” em alguma coisa, acabam por caracterizá-la como um “fenômeno social” estável e isso se torna problemático, segundo Latour, na medida em que o
termo “social” passa a significar um tipo de material, como se o adjetivo fosse comparável, no caso geral, a outros termos como “de madeira, de aço, biológico, econômico, mental, organizacional ou linguístico” (LATOUR, 2002, p. 17). Sendo assim, a palavra anexada compartilha coisas simultaneamente distintas, já que agora significa duas coisas completamente diferentes: em primeiro lugar, um movimento que ocorre durante o processo de anexação; e, em segundo lugar, um ingrediente específico distinto de outros tipos de materiais.
Nesse contexto de considerações e questionamentos sobre as ciências sociais, nomeadamente sobre o verbete “social”, o autor levanta as seguintes indagações: “Que vem a ser uma sociedade? Que significa a palavra ‘social’? Por que se diz que determinadas atividades apresentam uma ‘dimensão social’? Como alguém pode demonstrar a presença de ‘fatores sociais’ operando?” (LATOUR, 2012, p. 19).
Refletindo sobre tais indagações, a alternativa da abordagem de Latour é renunciar a qualquer tipo de pressuposto básico para algum modelo de “especificidade na ordem social”, ou existência de “dimensão social”, ou “contexto social” etc. Na verdade, para o autor, o vocábulo “social” significa “uma série de associações entre elementos heterogêneos”, razão pela qual a sociologia seria a ciência que tem como propósito “a busca de associações”. De sorte que “o adjetivo ‘social’ não designa uma coisa entre outras, como um carneiro negro entre carneiros brancos, e sim um tipo de conexão entre coisas que não são, em si mesmas, sociais” (LATOUR, 2012, p. 23, grifo do autor).
Essas associações, no entendimento de Latour, não são relações estáticas e definidas de uma vez por todas, muito pelo contrário: elas são dinâmicas e nossas percepções sobre elas também mudam de acordo com as novas condições espaço-temporais que vão se apresentando, uma vez que
[...] todos os elementos heterogêneos precisam ser reunidos de novo em uma dada circunstância [...]. A cada instância, precisamos reformular nossas concepções daquilo que estava associado, pois a definição anterior se tornou praticamente irrelevante. Já não sabemos muito bem o que o termo “nós” significa; é como se estivéssemos atados por “laços” que não lembram em nada os vínculos sociais. (LATOUR, 2012, p. 23).
Desse modo, as associações dos elementos heterogêneos (pessoas, objetos, órgãos, departamentos, instituições etc.), dentro de suas dinâmicas, vão se constituindo enquanto definidores de uma nova concepção do “social” ou das “ciências sociais”, abandonando toda e qualquer adjetivação de sujeito, dimensão ou fator “social” para a sua caracterização e objetivação. Portanto, “O social não é nunca uma coisa visível ou postulável. Só se deixa
entrever pelos traços que vai disseminando (experimentalmente) quando uma nova associação se constitui com elementos de modo algum ‘sociais’ por natureza” (LATOUR, 2012, p. 27, grifo do autor).
Nessa nova perspectiva, a “sociedade” é tomada como um conjunto de interconexões que emerge a partir de um espaço plasmado que, embora oculto, compõe todo o firmamento das associações entre actantes. Esses últimos, por sua vez, configuram aquilo que nosso autor vai definir como rede, ou seja, um processo no qual os agentes (os actantes) agem formando associações entre humanos e não humanos, através de encadeamentos heterogêneos de componentes que são interconectados e agenciados, formando um todo dinâmico. Portanto, a conjunção entre homens e coisas (sujeito/objeto, pessoas/máquinas) forma um conteúdo diverso daquele que existia antes (quando estavam separados um do outro), de tal maneira que essa combinação constitui um novo fenômeno cuja natureza é totalmente diferente da anterior.
Sendo assim, o termo “ação social” adquire novo significado, uma vez que não é só o sujeito (a pessoa humana) que age – quase toda ação humana é apetrechada por algum tipo de instrumental não humano –, mas a ação é perpetrada pela associação, ou seja, pela combinação de actantes: pessoas, coisas, martelos, gavetas, instituições, corpos legislativos etc., de sorte que o sujeito humano perde sua primazia em relação aos objetos e o que se passa ao primeiro plano agora são os meios, ou as combinações. Com efeito, a ação deixa de ser uma propriedade essencialmente humana e passa a ser resultado da associação entre actantes.
Focando na posição que a “sociologia das associações” tem em relação aos artefatos não humanos em conjunção com os humanos (configurando um par dialogicamente simétrico), Latour (2012) diferencia dois termos técnicos: “intermediário” e “mediador”. O primeiro “é aquilo que transporta significado ou força sem transformá-los” (LATOUR, 2012, p. 65), ou seja, uma unidade fechada, uma “caixa preta”. Por sua vez, os mediadores “transportam, traduzem, distorcem e modificam o significado ou os elementos que supostamente veiculam”, de maneira que, “apesar de sua aparência simples, pode se revelar complexo e arrastar-nos em muitas direções que modificarão os relatos contraditórios atribuídos a seu papel” (LATOUR, 2012, p. 65).
Diferentemente da “sociologia do social” (ou dos preconceitos das ciências em geral), que concebe especificidade da ação aos sujeitos humanos, instrumentalizados com o exclusivo atributo da racionalidade, a Teoria Ator-Rede caracteriza a racionalidade (intencionalidade) não como uma propriedade imanente ao ser humano, mas como resultante da conjunção (associação) do humano com o não humano no sistema social.
Assim, Latour (2012) atribui um papel relevante aos artefatos não humanos no que tange à ação, de sorte que “a ação não ocorre sob o pleno controle da consciência, a ação deve ser encarada, antes, como um nó, uma ligadura, um conglomerado de muitos e surpreendentes conjuntos de funções que só podem ser desemaranhados aos poucos” (LATOUR, 2012, p. 72). Esse é o motivo pelo qual a intenção (razão) deixa ser um atributo exclusivo do ser humano, uma vez que toda e qualquer intencionalidade apenas pode existir por meio da associação entre os artefatos humanos e não humanos.
Nessa linha de raciocínio, nosso autor, ao fazer uma analogia com o cenário de uma peça teatral, a propósito do termo “ator”, afirma que este vocábulo é empregado para significar que não fica explícito de forma exata “quem ou o quê” está atuando quando de fato os artistas atuam, uma vez que o ator jamais se encontra sozinho quando está em plena atuação (LATOUR, 2012). Assim, quando se diz que “um ator é um ator-rede”, quer se disser que “ele representa a principal fonte de incerteza quanto à origem da ação” (LATOUR, 2012, p. 76).
Latour, ao defender a primazia das coisas nas configurações da ação (que em última instância é provocada pela associação entre coisas e pessoas, conforme vimos acima), primeiramente elucida o que ele define como atores. Com efeito, ao contrário da “sociologia do social”, que concebe a “ação” como um ato perpetrado por um sujeito de forma “intencional” e “significante” – tirando todas as possibilidades de que coisas como martelo, faca ou tesoura possam agir –, concebe que “qualquer coisa que modifique uma situação fazendo diferença é um ator – ou, caso ainda não tenha configuração, um actante [...]
partícipes no curso da ação que aguarda figuração” (LATOUR, 2012, p. 108, grifo do autor).
Nesse sentido, a Teoria Ator-Rede tem como elemento focal para explicar a durabilidade e a extensão de uma interação os artefatos não humanos. Todavia, nosso autor esclarece que:
A ANT não alega, sem base, que os objetos fazem coisas “no lugar” dos atores humanos: diz apenas que nenhuma ciência do social pode existir se a questão de o quê e quem participa da ação não for logo de início plenamente explorada, embora isso signifique descartar elementos que, à falta de termo melhor, chamaríamos de não
humanos. (LATOUR, 2012, p. 109).
Portanto, em linha com Latour, é preciso sempre ter em mente que a propagação espaço-temporal de uma ação não se expressa apenas e tão somente nas conexões entre humanos, nem entre objetos, mas necessariamente entre as associações, muitas das vezes invisíveis e aleatórias, entre ambos. Sendo assim, para os “sociólogos de associações”, o interessante não é a quantidade de novos objetos que são mobilizados durante o percurso de
uma ação, mas o fundamental é que os objetos apareçam repentinamente, de súbito, “não apenas como atores completos, mas também como aquilo que explica o cenário socialmente estabelecido, onde se assenta as contradições da sociedade, suas assimetrias e o exercício do poder” (LATOUR, 2012, p. 109).
Uma categoria importante da Teoria Ator-Rede, introduzida por Latour, é a “tradução”, ou seja, um processo dialético entre os artefatos não humanos (objetos, coisas inanimadas) e os seres humanos (sujeitos, pessoas), no sentido de que, em associação, tanto a coisa influencia (modifica) a pessoa, quanto a pessoa influencia (modifica) a coisa. Nesse sentido, ocorre uma concomitante autotransformação, possibilitada agora pela inter-relação (que não existia anteriormente, quando um e outro estavam separados), razão pela qual, de alguma forma, provocou uma metamorfose em ambos os agentes, como sintetiza Latour (2012, p. 160): “uma relação que não transporta causalidade, mas induz dois mediadores à coexistência”.
Nesse contexto, nosso autor declara mais precisamente o objetivo da “sociologia de associações”, de maneira que “não existe sociedade, não existe domínio social nem existem vínculos sociais, mas existem traduções entre mediadores que podem gerar associações
rastreáveis” (LATOUR, 2012, p. 160, grifo do autor). Em outras palavras, a tradução envolve
a articulação de componentes diversificadamente heterogêneos, fundindo-os em processos de “hibridação” ou multiplicidade de conexões.
Refletindo sobre o trabalho de campo de um pesquisador das ciências sociais e a complexa tarefa de se produzir bons relatórios para a construção de seu texto (artigo, dissertação ou tese), contaminado pela “quinta fonte de incertezas”, ou seja, “evitar o risco de escrever um relato verdadeiro e completo sobre o tópico em mão” (LATOUR, 2012, p. 187, grifo do autor), Latour mostra que um bom texto, que ele chama de “relato textual”, é aquele que tece uma rede, de maneira que
Um bom relato ANT é uma narrativa, uma descrição ou uma proposição na qual todos os atores fazem alguma coisa e não ficam apenas observando. Em vez de simplesmente transportar efeitos sem transformá-los, cada um dos pontos no texto pode se tornar uma encruzilhada, um evento ou a origem de uma nova translação. Tão logo sejam tratados, não como intermediários, mas como mediadores, os atores tornam visível ao leitor o movimento do social. (LATOUR, 2012, p. 189, grifo do autor).
Sendo assim, o bom texto deve costurar com finíssimas linhas o maior número de atores em seus papéis de mediadores – ao agir, produz transformações, translada conexões de
elementos da realidade e, portanto, consegue externalizar para o leitor toda a dinâmica do “social”.
Latour (2012) critica a “sociologia do social” quanto à dicotomia local/global, de maneira que, quando se estabelece uma distinção ou separação entre o local e o global, quando se insere algum tipo de local dentro de um contexto mais amplo, global, dá-se um salto entre ambos – abrindo uma imensa fissura entre o que é envolvido e o que envolve. Por conta disso, o autor defende a simultaneidade e a verossimilhança entre local e global, de maneira que tudo que é local é global e tudo que é global manifesta-se apenas e tão somente como local.
Quando se investigam as conexões (as formas dinâmicas de ação dos actantes, rastreando-os em seu deslocamento/transformação), pode-se constatar que não existe uma identidade estanque e distanciada daquilo que se possa chamar de local, pois este não é nada mais do que uma forma diluída e distribuída daquilo que se deve localizar como global:
O que acontece quando praticamos os dois gestos, localizar o global e distribuir o local... juntos? Toda vez que uma conexão deve ser estabelecida, um novo tubo condutor deve ser instalado e um novo tipo de entidade deve viajar por ele. Aquilo que circula, por assim dizer, “dentro” do tubo é o próprio ato de atribuir uma dimensão a alguma coisa. Sempre que um lugar intenta agir em outro, precisa atravessar um meio, transportando alguma coisa durante todo o percurso; para continuar agindo precisa preservar algum tipo de conexão mais ou menos durável. Ao contrário, cada lugar é agora o alvo de muitas dessas atividades, a encruzilhada de muitas dessas trilhas, o abrigo provisório de muitos desses veículos. Os locais, agora transformados definitivamente em atores-redes, são movidos para o segundo plano; as conexões, veículos e vínculos avançam para o primeiro plano. (LATOUR, 2012, p. 316).
Uma categoria polêmica utilizada por Latour no seu arcabouço teórico é a noção de simetria. Com efeito, sintonizado com o pensamento do nosso autor, no processo dinâmico da ação perpetrada pela conjunção entre artefatos não humanos e humanos, tanto um quanto o outro são igualmente necessários, ou seja, é compartilhada solidária e simetricamente a responsabilidade da mesma.
Desse modo, não existe anterior a toda e qualquer experiência, de um lado, o mundo dos objetos em si, e, de outro, o mundo dos seres humanos entre si, uma vez que tanto a natureza como a sociedade são igualmente produtos de associações heterogêneas.
A Teoria Ator-Rede como método de abordagem da ciência social ajuda a pensar, de forma complementar, o dinheiro enquanto um mediador (actante) em sua trajetória de agenciamento das transações internacionais, gerando rupturas e recriando estruturas de normas e convenções até então estabelecidas, fazendo com que instituições bancárias e não bancárias, privadas e estatais, países e blocos de países tomem posições e assumam
responsabilidades frente à atual crise do sistema financeiro e monetário internacional, no sentido de estabelecer democraticamente uma nova configuração geopolítica mundial (fruto do conserto entre as principais nações do mundo), na qual o atual actante monetário das relações do comércio mundial, ou seja, o dólar americano, cometa o processo de auto- suicídio, formatando um novo pacto financeiro/monetário internacional, a partir do qual surgirá uma nova moeda internacional.
Todavia, no que se refere às suas críticas endereçadas às ciências sociais, em particular a sociologia (ou, mais especificamente, no que se refere ao verbete “social”), percebemos algumas restrições no núcleo duro de seu arcabouço teórico, principalmente em suas premissas ontológicas, dentre as quais existem dois tipos de entidades sociais, os seres humanos e os seres não humanos, de forma que, em sua analogia da ciência social com algum tipo de construção, Latour faz as seguintes colocações:
Compreendemos hoje por que a palavra social provoca tantos mal-entendidos; ela confundia dois sentidos inteiramente diferentes: um tipo material e um movimento para reunir entidades não sociais [...]. Usualmente, a grande vantagem de visitar locais de construção é que eles oferecem um ponto de observação para se testemunhar a ligação entre seres humanos e seres não humanos [...]. Ademais, dizer que a ciência também era construída dava a mesma emoção proporcionada por todos os outros “fazeres” (making of): voltamos aos bastidores; aprendemos as habilidades dos profissionais; vimos inovações tomarem forma; sentimos como isso era arriscado; e testemunhamos a intrigante fusão de atividades humanas e entidades não humanas. (LATOUR, 2012, p. 131-133).
Apesar da interpelação da Teoria Ator-Rede ser fortemente dinâmica, atribuindo mobilidade e fluidez aos fenômenos sociais, trazendo para o primeiro plano os intermediários (actante não humanos, ou artefatos tecnológicos), não concordamos com suas premissas originais, principalmente na questão da “simetria” entre humano e não humano, sujeito/objeto, formatando uma unidade de tudo que existe. Nesse sentido, Latour faz um recorte analítico e ahistórico de seus “actantes”, pressupondo entidades pré-existentes, a partir das quais construirá sua sociologia de associações, atribuindo papel prioritário aos artefatos não humanos considerados como não social: “[...] precisamos descobrir por que os sociólogos hesitam tanto em ficar face a face com entidades não sociais responsáveis pela formação do mundo social” (LATOUR, 2012, p. 334 grifo nosso); “[...] desenha o social como associações por meio de inúmeras entidades não sociais que, mais tarde, podem se tornar participantes” (LATOUR, 2012, p. 352).
Com efeito, para Latour, o conceito de natureza compartilha ao mesmo tempo duas funções diferentes, de maneira que temos, por um lado, “a multiplicidade dos seres que
compõem o mundo; por outro, a unidade dos que foram reunidos num todo inquestionavelmente único” (LATOUR, 2012, p. 361). Sendo assim, tem-se, em um polo, a negação ontológica da antecedência dos artefatos não humanos; no outro, a negação epistêmica do atributo exclusivo da racionalidade humana, atribuindo tal característica ao “hibridismo” associativo entre coisas e pessoas.
Efetivamente, mesmo no local de construção (por exemplo, de um prédio), se bem observado, não existe nenhum objeto ou artefato que seja “não humano”, pois todos os materiais de construção (matérias-primas) são resultados de algum tipo de trabalho humano (não são matérias-brutas ou naturais, mas culturais). Artefatos como areias, cascalhos, cimentos, pás, martelos, pregos, serrotes e máquinas não são coisas mortas, naturais, “não humanas”. Por detrás de um martelo existe todo um acúmulo histórico de labor humano, tentativas e erros, de aprendizagem e de construção civilizacional, social, política e cultural.
Na verdade, o que o Latour faz é uma espécie de reificação ao conceber os artefatos não humanos, que são produtos do trabalho humano, como algo que não é resultado da ação humana, mas de associações – condições naturais, conjunção social, sucessões de leis cósmicas etc. A respeito da questão da reificação, Habermas (2000) faz a seguinte colocação:
Reificação implica que o homem é capaz de esquecer a própria autoria do mundo e, além disso, que a dialética entre os produtores humanos e os seus produtos perdeu-se para a consciência. Um mundo reificado é, por definição, um mundo desumanizado. O ser humano vivencia-o como facticidade alheia a si, um opus alienum, sobre o qual não tem nenhum controle, e não como opus proprium da sua atuação produtiva. (HABERMAS, 2000, p. 113).
Portanto, a reificação do mundo da vida significa defender a premissa de que tudo o que existe, no contexto social, não é resultado do trabalho humano (ação laboral exclusiva da pessoa humana), mas de alguma espécie de conjunção ou associação metafísica que em tudo age e a tudo produz. Na verdade, o que Latour faz é lançar um véu sobre o produto das relações e do trabalho humano (seus elementos culturais), produzindo uma fetichização dos artefatos não humanos, atribuindo características físicas e propriedades sociais que são imanentes aos seres humanos.