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Dinheiro: surgimento, conceitos, propriedades e funções

2. A MOEDA INTERNACIONAL, UMA ABORDAGEM SOCIOECONÔMICA E

2.1 Dinheiro: surgimento, conceitos, propriedades e funções

O grande dilema para a construção do conceito socioeconômico e político do dinheiro, que atenda e reflita a dinâmica do modo de produção capitalista dos nossos dias e nos auxiliem na compreensão da atual crise do seu sistema financeiro e monetário é conseguir externalizar sua invisível essencialidade (ou seja, no seu estado não manifesto), expressa no seu poder de naturalização das relações sociais de produção – ocultando a exploração, a perversa assimetria distributiva e os conflitos de classe.

Sob a óptica dos processos de evolução histórica, Weber (2006) concebe o aparecimento do dinheiro simultâneo à criação da propriedade privada individual. Desse modo, o dinheiro, materializado em algum tipo de objeto, representa o estabelecimento de relações sociais segundo as quais as forças produtivas alcançam o estatuto de criação e apropriação individual, mesmo que ainda relativamente precário. Assim, “A propriedade individual mais antiga consiste de objetos elaborados pelo próprio indivíduo: armas e utensílios, em se tratando do homem, ornamentos, ao se tratar do homem ou da mulher” (WEBER, 2006, p. 226).

O mesmo autor, ao analisar as funções do dinheiro (quais sejam: meios de pagamento, meios de troca e entesouramento), afirma que a função de “meios de pagamento” se deu primeiramente e, por conseguinte, é muito mais antiga do que a função de “meios de troca”; de maneira que a função de meios de pagamento é o resultado de uma economia sem troca. “Nesta fase, o dinheiro nada mais tem a ver com a troca. A aquisição desta sua peculiaridade se tornou possível desde o momento em que uma economia sem troca conheceu também prestações econômicas”, cuja liquidação se dava por intermédio de um meio de pagamento: “tributo, presentes aos chefes, preço da noiva, dotes, multas, castigos etc.” (WEBER, 2006, p. 226). Sendo assim, pode-se concluir que, diferentemente da grande maioria dos teóricos que de alguma forma estudam o dinheiro, Weber defende a tese de que o dinheiro é anterior aos processos de troca.

Faz-se necessário lembrar que por “meio de pagamento” Weber concebia um objeto específico, entregue a outrem como “cumprimento de determinadas obrigações, pactuadas ou impostas”, cuja validade é “convencional ou juridicamente garantida” (WEBER, 2006, p. 45). Nesse sentido, o meio de pagamento como definido por Weber não seria dinheiro, posto que não se paga por quilo que é tomado de forma violenta, ou que é compulsoriamente obrigado entregar ao grupo (ou a tribo, ou a comuna, ou ao Estado – ainda que moral ou juridicamente justificado). Mesmo os espólios ou tributos de guerra (riquezas, pessoas, multas, castigos etc.) que uma nação deve repassar à sua rival, vencedora, podem ser considerados como dinheiro.

O processo de troca é algo que exige uma contraprestação: João entrega uma coisa, A (real ou abstrata – tangível ou intangível), para Pedro e recebe dele outra coisa, B (real ou abstrata – tangível ou intangível). Nesse sentido, a coisa A é trocada pela coisa B. João, ao entregar A para Pedro, recebe, do mesmo, B como contraprestação. Portanto, se João toma de Pedro B (sem lhe oferecer nenhuma contrapressão), isso não se configura como troca, mas como subtração, violência ou roubo. Nessa linha de raciocínio, o dinheiro, enquanto meio de pagamento, é gestado na e pela troca como um intermediário.

Em sua obra História geral da economia (2006), nascida das aulas que Weber ministrava num curso na Universidade de Munique entre 1919 e 1920, de acordo com Swedberg (2005), é encontrada a definição de dinheiro que nos leva a concluir que ele (o dinheiro) só surge de fato na sociedade a partir da “economia lucrativa”: “O dinheiro é um meio de pagamento que, ao mesmo tempo, se utiliza como meio de troca, num determinado círculo de pessoas, e ‘valor nominal’, através da cunhagem, está em condições de servir, também, como unidade de conta” (WEBER, 2006, p. 13).

Portanto, depois de um longo processo de desenvolvimento histórico, o dinheiro, em Weber, alcança a sua forma mais acabada, ou seja, munida de suas principais funções (meio de pagamentos, unidade de conta e reserva de valor), na sociedade capitalista moderna.

Na contramão da concepção weberiana de dinheiro, Mauss (1914) defende que, sob o aspecto de sua natureza e seu aparecimento, o dinheiro se apresenta como uma relação social e surge desde os primórdios da sociedade humana, de modo que a concepção de dinheiro enquanto um simples objeto material (uma coisa qualquer, socialmente referendada como tal) é extremamente limitado. Sendo assim, de acordo com este antropólogo, o dinheiro é, em sua essência, um “fato social”. Por conseguinte, o valor do dinheiro (enquanto poder de aquisição de bens e serviços produzidos pela sociedade) resulta de um atributo precípuo da convivência social, a confiança.

De fato, conforme Théret (2008), o dinheiro passou a ser criado desde os tempos em que a humanidade deixou de ser nômade. Consequentemente, as sociedades de caçadores e colhedores, que viviam sempre em trânsito à procura de locais com abundância de água e alimentos (enfrentando as intempéries ambientais e frequentemente seguindo as trilhas de suas caças), eram sociedades que não conheceram nenhum tipo de dinheiro.

Ainda assim, diferentemente de Weber, Théret (2008) assevera que, no percurso de toda sua trajetória histórica, o dinheiro foi sendo forjado através de complexos processos de trocas, ou, mais especificamente, de “transferência de posse e/ou propriedade sobre bens reais ou simbólicos” (THÉRET, 2008, p. 3). Por isso, deixando de lado a natureza do dinheiro, bem como suas diversificadas origens, o referido autor chega ao entendimento de que toda sociedade que faz uso de dinheiro se apresenta historicamente como um conjunto de vínculos sociais que se expressa através das relações entre “dívidas e créditos”. Nesse caso, o dinheiro é o objeto que possibilita a intermediação dessas relações: rituais mágicos e/ou religiosos (origens e desaparecimentos de pessoas e coisas), iniciações, casamentos, funerais etc. Dessa maneira, os referidos nexos entre dívidas e créditos se manifestam não somente por meio de transações de bens e valores entre humanos, mas também entre os humanos e as entidades ou poderes sobrenaturais.

Nos últimos estágios dos “primitivos” processos de trocas “comunais” (ou “pré- capitalistas”, como defende Weber) ocorreu a transição entre o escambo e o pós-escambo, ou seja: uma sociedade que saiu da condição do processo de troca de mercadoria por mercadoria (M – M, escambo), sem intermediação, para a condição do processo de troca de mercadoria por dinheiro e dinheiro por mercadoria (M – D – M’, pós-escambo), com intermediação. Nesse contexto, diversos e inusitados objetos serviram como intermediários nas trocas (quer

dizer, como “dinheiro”): objetos ornamentais, conchas, utensílios domésticos e armas pessoais; assim como, também, elementos perecíveis: trigo, gado, açúcar, sal etc. Entre o amálgama de coisas que historicamente funcionaram como intermediárias das trocas, vão surgir e se consolidar aquelas formadas pelos metais preciosos – prata, ouro etc. Assim, as características físicas desses objetos (componente material, tamanho, volume e formato) determinaram a escolha daquele que melhor atendesse às especificidades e funcionalidades do dinheiro, dentre as quais a de atender às sofisticadas exigências do comércio mundial.

A propósito, Smith (1988), em A riqueza das nações, salienta que:

Entretanto, ao que parece, em todos os países as pessoas acabaram sendo levadas por motivos irresistíveis a atribuir essa função de instrumento de troca preferivelmente aos metais, acima de qualquer outra mercadoria, por ser difícil encontrar outra que seja menos perecível; não somente isto, mas podem ser divididos, sem perda alguma, em qualquer número de partes, já que eventuais fragmentos perdidos podem ser novamente recuperados pela fusão – uma característica que nenhuma outra mercadoria de durabilidade igual possui, e que, mais do que qualquer outra, torna os metais aptos como instrumentos para o comércio e a circulação. (SMITH, 1988, p. 32).

Nesse sentido, Jevons (1875) enumerou as seguintes propriedades para que um determinado objeto funcionasse como dinheiro: portabilidade, indestrutibilidade, homogeneidade, divisibilidade e cognoscibilidade. No transcurso temporal, além da intermediação das trocas, outras duas funções deveriam ser incorporadas ao dinheiro: unidade de conta e reserva de valor (entesouramento). Contudo, essa realidade material e funcional, explicitada por Jevons, não é suficiente para uma conceitualização plena das funções monetárias, pois coloca ao largo toda uma entrelaçada rede de conexão sociocultural e simbólica, subjacente à existência do próprio dinheiro, mesmo naqueles primeiros contextos da sociedade humana, conforme vimos acima com a concepção de dinheiro de Théret (2008). Adicionalmente, de acordo com Dodd (1997), não existe uma conexão necessária e imediata entre as características físicas e simbólicas do dinheiro, tanto nas sociedades pré-capitalistas quanto nas sociedades modernas.